Turmalina

Português, Relato

Dezenove horas. Viajo com R e com meu sogro (que faz algumas semanas está viajando para Porto Alegre a trabalho) para Passo Fundo. Eles falam enquanto eu faço uma outra viagem (vertical, diria Vila-Matas), um deslocamento rarefeito pelo limiar sono-vigília, em que, durante um período de tempo irreal que pode ser um ou dez ou trinta minutos, me sinto alheia ao carro, à estrada, a eles, a mim mesma. Inadequada, flutuante. Um corpo de súbito falso, de quem eu viro refém. Uma cena em que um eu se vê a si mesmo lá embaixo, existindo com uma concreção tão exata que parece inegável, incontestável. E que, mesmo assim, não sabe explicar nenhum porquê.

*

Acordo tarde como faz meses não o fazia. Quase meio-dia. Mistura do frio com a ruptura da rotina. Numa sonolência que não termina de passar, os temas que me habitam já nem tentam se revezar, agora se conformam com justapor-se. Papá, cadê tu? Minha mãe sozinha lá. Venezuela apocalíptica. Distopia mal escrita. Os abraços diluídos no tempo, já esquecendo do calor. Naná há 18 meses no universo alemão. Pausa no devaneio para injetar café na veia. Sem muito efeito cafeínico, R me faz admitir que estou estressada (ele chegou à conclusão de que eu sofro de “fuga”: quando estou triste/ansiosa/estressada entro num estado de sono permanente) e me convida a provar o colchão mágico de seus pais, que faz massagem e tem ímãs, pó de turmalina preta, infravermelho, energia quântica e, se bobear, até ondas de reconstituição genética para combater o câncer.

Com expectativa zero, me deito com ele. A superfície vibra com força, fazendo um barulho grave, que contribui com a sensação geral de estar sendo submetido a algum treinamento pré viagem espacial. Esqueço de tudo. O colchão é mágico, mesmo: me tele transporto com uma rapidez e uma eficiência invejável. Estou na Venezuela, em algum momento de 2010, fazendo terapia para curar uma tendinite no ombro numa SRI (Sala de Rehabilitación Integral), do programa nacional de saúde preventiva Barrio Adentro, um dos maiores orgulhos da revolução, hoje tão desassistido como a rede tradicional de hospitais públicos e até dos particulares, privados de todo tipo de insumos. O médico cubano me avisa que já posso passar da sala de infravermelho para a de eletroterapia. E já não é o médico cubano na Venezuela quem me fala, mas o médico cubano do hospital de San Antonio de los Baños, en Cuba. Continuei o tratamento lá, quando voltei das férias, para continuar na escola de cinema. O doutor Máximo, da enfermagem da escola, me levou todo dia, durante duas semanas, à fisioterapia. Paguei quanto? Um abraço e vários “muito obrigada”. Acaba a massagem com uma vida inteira virada de cabeça em apenas oito anos. Acho que vou ter que dormir mais mesmo.

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Não sei bem o porquê, mas me irrita a ideia da literatura como remédio ou salvação. Meu remédio, minha salvação, minha estratégia e ferramenta de libertação ela é, sem dúvida, mas não a do mundo. Acreditar isso me parece ingenuidade, quando não egolatria.

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O placebo e a panaceia estão a um otimismo de distância.

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À noite, topo ir para Sertão, no interior do interior, no plano mais aleatório dos últimos dias. Vou acompanhar meus sogros numa palestra de apresentação de uns colchões “terapêuticos”. Chegamos no salão de eventos do povoadinho. Umas vinte famílias da colônia estão prestes a escutar o dono da empresa, um cara parecido com Ed O’Neill em Modern Family, cujas referências de showman se movem entre Faustão e Ted Talks. Dois colchões em exibição, cartazes, vídeo, power point. Mil imprecisões científicas, com promessas enganosas e alívios cômicos feitos de piadinhas machistas, tudo amplificado com um head set de última geração. Um mix bizarro que, bizarramente, lhe vem rendendo boas vendas e boas risadas da audiência. Posso falar de tudo, mas não posso negar que o cara conhece seu público. 

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Depois de UMA HORA E MEIA DE PALESTRA, os assistentes ganham um churrasco. Me entupo de carne e maionese como se minha vida dependesse dessa refeição. E o tempo passa e passa e o Al Bundy falso continua lá, se achando o dono do pedaço, fazendo comentários inapropriados e contando causos como se alguém se importasse. Vou é comer mais e mais e mais. Quero que ele me devolva em alimento todo o tempo que me sugou. A vingança mais indireta e contraproducente que eu já executei.

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O tio de Rafa sempre me faz lembrar dos últimos dias de vida de mi papá. Faz dois anos e pouco, o homem passou por um susto daqueles. A gente o visitou quando ele recém estava saindo do hospital e tinha o olhar ainda arrasado pelo medo da morte. Foi uma visita dolorosa, que me fez reviver a agonia do meu pai e me fez sentir raiva, como sempre me acontecia naqueles dias, de que outras pessoas se salvassem e não ele. O que fez que o tio de Rafa fugisse da morte e meu pai, que tanto se aferrava à vida, não? Não me curei ainda dessa raiva. Apenas aprendi a disfarçá-la melhor.

Hoje ele está muito bem, com a pele rosinha e as bochechas mais cheias. Há algo nele que me deixa numa disposição diferente, como se de repente estivesse valendo a pena o show dos colchões. O examino e logo percebo a ação secreta: o cabelinho grisalho por baixo do boné, o peito vermelho curtido do muito sol aguentado, as orelhas compridas dos Morán, a estatura exata do meu pai. Um surto de vontade de abraçá-lo me acomete. Abraçar meu pai, nele. Me paraliso na conversa. Concentro minhas energias em sossegar a dor desse desejo para sempre insatisfeito.

Um chiado agudo se amplifica pelo alto-falante. Parece que a palestra segue.

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