1990: o que fazer após a queda de um muro

Conto/Cuento, Português

O mar pardo. A areia dura. Uma bicicleta mais velha que todas as bicicletas. A casa azul no silêncio do não-turismo. Alice Souza tem dezesseis anos, dezesseis verãos amando essa praia e a certeza de que, com a venda do imóvel, morre uma parte de si.

Alice decide que deixará a bicicleta como patrimônio indissolúvel da vivenda. Ela deve renunciar a essa paisagem, e sua amada companheira não tem por que segui-la. Levar para a cidade uma bicicleta tão oceânica seria enganar-se, querer transformar o amor fugaz dos verãos num matrimônio. –Não, Estrela, minha amiga. Você fica.

Em toda a praia, só há dois lugares proibidos para pedalar, a caverna dos índios e o manguezal vermelho. Um é garantia de um pneu furado; o outro, ser uma mosca numa teia de aranha. E Alice, que bem sabe que todo fim de era está marcado por grandes conquistas, concede a Estrela o derradeiro desejo de explorar o inexplorado. Sabe que esse arrebatamento tem tanto de assassinato quanto de suicídio. Com Estrela ferida de morte, Alice empreende o regresso.

No crepúsculo, a casa não parece tão detonada como dizem seus pais. A cerca de conchas marinhas continua linda, perfeita para ficar se amassando com o garotão que vende ostras e acorda paixões precoces. O portão de madeira está surrado, sim, mas tem o charme dos postais velhos. E o quarto dos bricabraques, ah, quando teria de novo acesso a tanta diversão, centenas de objetos à espera da ressurreição; objetos dos que Estrela, com seu pneu furado e seu aro torto, começa a fazer parte.

Alice nina sua amiga entre as outras bicicletas desmembradas e segue até a cozinha, chamada pelo cheiro da ambrosia da Senhora Arminda, número um absoluto em seu inventário de nostalgias. Arminda, faxina do domingo. Arminda, “Senhora Diana, aqui têm seu cafezinho”. Arminda, marido pescador alcoólatra. Arminda, “cuidado com o bandido das ostras, Alicinha”. Essa mesma Arminda, quem durante dezesseis verãos chegou com ambrosias, canjicas e tortas de bolacha, e iluminou a casa com seu sorriso. Essa mesma Arminda, agora chora nos braços de seu pai.

Os milhões de vezes que ele recusou o mar e ficou sozinho na casa; as comidas, sempre as preferidas dele; a timidez exagerada de Arminda em sua presença e seus vestidos de vadia colona. Entre as elipses e os subtextos de suas lembranças, respira uma história submersa que acaba com a boca de seu pai beijando as lágrimas dessa mulher a quem –não cabe a menor dúvida– ama.

Pela janela, detrás da cena proibida, Alice descobre o carro na garagem. Em algum ponto do desconcerto, sua mãe chegou. Ela corre para o quarto, onde a encontra deitada na cama, lendo pela enésima vez Quem mexeu no meu queijo? –Não chore, meu anjo– lhe diz sem levantar a vista do livro. –O que eu posso fazer se nunca aprendi a fazer ambrosia?

Entre os caules do manguezal vermelho, Alice pune-se com a dor da estreia. Um primeiro sexo desajeitado e sem amor, com fedor de ovo podre. O vendedor de ostras lhe mente amores, encontros futuros, cartas semanais. Seus olhos se parecem com a lua que pendura do céu, plana e branca, como de cartolina. Lembram os de sua mãe, acomodada na cadeira de balanço, posando para a vida.

Um último beijo nas paredes azuis e adeus. No porta-malas do carro, vai Estrela, que convenceu Alice de que com uma mínima re-alfabetização, seria uma bicicleta do mundo. Entre os abacates e a coleção de conchas, vai o cadáver de seu sorriso infantil, não conseguiu deixá-lo entre os bricabraques; o quer com ela, como um postal de quando a vida era vida e não teatro; o quer perto de si, para aguentar o peso das máscaras. No assento dianteiro, seus pais conversam sobre os países da defunta União Soviética, cujas independências estão se contagiando como peças de dominó.

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