As histórias que (não) nos contam

Debate, Português

Em O Herói de mil faces, o exaustivo estudo sobre os mitos mundiais do Herói publicado em 1949, Joseph Campbell defende que todas as narrativas são, basicamente, a mesma história, contada e recontada infinitas vezes em infinitas variações e que todas, conscientemente ou não, seguem os antigos padrões do mito e podem ser entendidas dentro da estrutura que ele batizou como “A Jornada do Herói”. 

A ideia desse “monomito” como um padrão narrativo subjacente a toda e qualquer história que jamais se contou, se popularizou a níveis planetários e ganhou status de bíblia nos estúdios hollywoodianos, depois de que Christopher Vogler o retomara em seu best-seller A Jornada do Escritor: Estruturas Míticas para Escritores

O pensamento de Campbell parte das ideias do psicólogo suíço Carl G. Jung, em suas teorias sobre os arquétipos e o inconsciente coletivo da humanidade. Para Jung, os arquétipos atuam como “padrões de comportamento instintivo” e guiam a experiência humana, são uma fonte de símbolos psíquicos, da qual tiramos uma predisposição para reagir, agir e interagir de determinada forma. Assim, nas histórias que a humanidade conta desde suas origens, os arquétipos vão se repetindo ininterrumpidamente. 

Amplamente estudada e difundida desde sua aparição, a jornada do Herói parece irrefutável de tão maleável. 

In absentia

Uma das principais críticas ao modelo é sua falta de representatividade no que diz respeito à jornada das personagens femininas. 

“A Jornada do Herói é por vezes criticada por ser uma teoria masculina, engendrada pelos homens para impor seu domínio, e com pouca relevância em relação à jornada singular e bem diferente do sexo feminino. Pode haver algum viés masculino embutido na descrição do ciclo do Herói, já que muitos de seus teóricos eram homens, e admito abertamente: sou um homem e não consigo ver o mundo senão pelo filtro do meu gênero. Ainda assim, tentei levar em conta e explorar as maneiras em que a jornada da mulher difere da dos homens. Acredito que grande parte da jornada é igual para todos os seres humanos, visto que compartilhamos as mesmas realidades: nascimento, crescimento e declínio. Contudo, evidentemente, quando se trata de uma mulher isso impõe ciclos, ritmos, pressões e necessidades distintas” (VOGLER, 2006, p. 20). 

Parece uma postura bastante sensata, o leitor concordará comigo. Porém, esse mesmo autor deixa claro o machismo embutido em seu raciocínio quando, mais adiante, explica: “A necessidade masculina de sair e vencer obstáculos, realizar, conquistar e possuir pode ser substituída na jornada da mulher pelo empenho em preservar a família e a espécie, fazer um lar, dedicar-se às emoções, chegar a um acordo ou cultivar a beleza” (VOGLER, 2006, p. 16). 

Não parece essa frase uma outra maneira de dizer que a jornada da mulher é ser “Bela, recatada e ‘do lar'”, como foi descrita Marcela Temer, no perfil publicado pela revista Veja? Hoje, em pleno século XIX, uma jornalista escolhe apresentar a primeira dama ressaltando nela estas virtudes femininas que parecem extraídas de textos como “La perfecta casada” (1584), do fray Luis de León, ou “La instrucción de la mujer cristiana” (1528), de Juan Luis Vives, hoje tão carentes de sentido, por um lado, e ainda tão infeliz e assustadoramente vigentes nas nossas sociedades, por outro. 

Mas, se a história das mulheres evolui, como é possível que os modelos para contar nossas histórias não evoluam junto? Como é possível que, como diria De Oliveira (1991, p. 12), continuemos numa linguagem e num pensamento que nos pensa e nos descreve in absentia? Neste sentido, Maureen Murdock, autora de “The Heroine’s Journey” (1990, p. 56) defende: “Uma parte tão grande da verdade da mulher tem sido obscurecida pelos mitos patriarcais, novas formas, novos estilos e novas linguagens devem ser desenvolvidos pelas mulheres para expressar seu conhecimento”. 

Se nas histórias fundacionais da nossa civilização ocidental e patriarcal a divindade feminina foi apagada e relegada a papéis secundários (María, por exemplo), quando não vilanizados (que dizer de Eva, de Lilith?), como partir apenas delas para elaborar um modelo que se deseja único porém o suficientemente maleável para ser abrangente? Só se esse “único” quiser dizer, na verdade, masculino, e esse “abrangente” quiser dizer que o outro se mutila para que eu possa aceitá-lo.

Com a expansão do poderio das religiões judaico-cristãs, essencialmente patriarcais, — onde não existe a imagem arquetípica da mulher — ficamos órfãs de modelos de heroísmo feminino. Marie-Louis Von Franz, em “O feminino nos contos de fadas” (1995, p. 16), explica as consequências dessa orfandade:

“A mulher fica incerta quanto à sua própria essência: não sabe nem o que é, nem o que poderia ser. Só lhe restam duas soluções: regredir a um modelo de comportamento instintivo e agarrar-se a ele para resistir às pressões que sofre por parte da civilização, (…) ou identificar-se inteiramente a ele, tentando construir uma imagem masculina de si mesma para compensar a incerteza que sente interiormente quanto à sua natureza. É assim que encontramos ‘a esposa devotada’, ‘a perfeita dona de casa’ e ‘a mãe que sacrifica tudo pelos filhos’, o que é bastante meritório se a mulher não tiver perdido aí toda sua personalidade e não fizer com que seu familiares paguem as frustrações sofridas para realizarem tais proezas. Ou, inversamente, tentará assemelhar-se aos homens, pondo tudo de si em sua carreira, em sua ambição, etc., para isso sacrificando toda vida sentimental e individual” (VON FRANZ, 1995. p. 16).

Murdock chega à mesma conclusão quando diz: “As mulheres emularam a jornada heróica masculina porque não havia outras imagens para emular; uma mulher era ‘bem sucedida’ na cultura orientada para o masculino ou dominada e dependente como fêmea” (1990, p. 10).

Aceitamos o suposto caráter unisex e universal da proposta de Vogler como parte das inércias que nos permitimos, na ilusão de uma igualdade que, nos termos que é apresentada, é mutilante, porque consiste na masculinização da mulher sem que aconteça a feminização do homem. 

Mas, então, qual seria a jornada que essa Heroína desprovista de modelos femininos poderia executar? Não obstante a resposta esteja em construção e a produção teórica ao respeito ainda não tenha uma voz capaz de competir, em termos de popularidade, com o best seller do Vogler, existem duas autoras que chamam minha atenção pelo olhar tão diverso e, ao mesmo tempo, complementar, com que discutem a jornada arquetípica da Mulher.

Maureen Murdock e “The Heroine’s Journey”

Quando se quer fazer um livro contestatário como o que Murdock tinha em mente, é impensável não começar por estudar a fundo aqueles autores canônicos no assunto que estivermos tratando. Por isso, quando Murdock estava trabalhando em seu livro, uma das primeiras coisas que fez foi atrás do Joseph Campbell, interessada em conhecer seu ponto de vista.

“Eu me surpreendi quando ele respondeu que as mulheres não precisavam fazer a viagem. “Em toda a tradição mitológica a mulher está lá. Tudo que ela precisa fazer é perceber que ela é o lugar ao que as pessoas estão tentando chegar. Quando uma mulher percebe a maravilhosa personagem que ela é, ela não fica confusa com a noção de ser pseudo macho”. Essa resposta me aturdiu; a encontrei profundamente insatisfatória. As mulheres que eu conheço e com as que trabalho não querem estar lá, naquele lugar ao que as pessoas estão tentando chegar. Elas não querem encarnar Penélope, esperando pacientemente, infinitamente tecendo e destecendo. Elas não querem ser servas da cultura masculina dominante, prestando serviço aos deuses. Elas não querem seguir o conselho do pregador fundamentalista e voltar para casa. Elas precisam um novo modelo que entenda quem é e o que é uma mulher.” (MURDOCK, 1990. p 2).

Com uma aproximação mais desde o terapéutico, mas lançando mão de uma riquíssima compilação que recupera os mais diversos e remotos mitos com protagonismo feminino, Maureen Murdock publicou este texto em 1990. Sua proposta é repensar a busca que a mulher empreende durante sua vida e oferecer um modelo capaz de entender essa busca desde a experiência coletiva e individual que define o feminino. Embora não seja o objetivo principal da autora, tal modelo pode ser usado para auxiliar na criação de personagens.

A trajetória da Heroína de Murdock começa com a busca da Heroína pela sua identidade, quando, em um momento que se mostra desolador, o ser antigo parece não caber mais nela. Nesta etapa acontece uma separação ou rejeição do feminino (através da figura da mãe), que tem sido desenhado, culturalmente, como passivo, manipulador e improdutivo, em outras palavras: inferior. 

Segue uma identificação com o masculino (na relação com o pai), em que a Heroína procura validação e sucesso na cultura patriarcal, através de aliados e mentores nesse mundo (que funciona em torno do fazer e negligencia o ser), onde ela terá que enfrentar uma série interminável de desafios adictivos e extenuantes de conquista, dominação e produção. Encontrará um sucesso e colherá seus frutos, mas será um sucesso ilusório e temporário, pois nada do que ela faça será suficiente porque, mesmo tendo alcançado seu objetivo, o fato dela ser mulher fará com que ela sempre tenha que provar que merece esse lugar. 

A Heroína, eventualmente, despertará dessa ilusão para se descobrir morta espiritualmente: na jornada pela aprovação masculina, ela tem sacrificado sua essência. A Heroína sentirá a urgência de se reconectar com o poder feminino esquecido e terá que acarretar com todas as consequências que isso implica: “Quando uma mulher decide não seguir mais as regras patriarcais, ela fica sem guias que lhe digam como agir ou como sentir. Quando ela se resiste a perpetuar formas arcaicas, a vida vira empolgante — e aterrorizante” (MURDOCK, 1990, p. 8).

A etapa final é a integração do masculino e do feminino e a recuperação da nossa dualidade natural. Nela, a mulher pode valorizar e responder a suas próprias necessidades em plenitude e, uma vez em controle e em paz consigo mesma, contribuir para a satisfação às necessidades dos outros a seu redor. 

Kim Hudson e “The Virgin’s Promise”

Neste livro de 2009 a autora faz a seguinte provocação: Se o Herói representa apenas uma das faces do processo de individuação, será que é possível encaixar todas as histórias dentro da trajetória que ele descreve? Podemos realmente assegurar que todos os arquétipos coincidem na mesma estrutura? Hudson considera que não. 

Em sua proposta alternativa, ela sugere que cada uma dessas fases do ser (união consigo mesmo, união com o outro e união com o cosmos), é representada por arquétipos diferentes e pode gerar diferentes trajetórias padrões. A partir da análise de obras literárias e cinematográficas, Hudson traça o percurso do arquétipo da Virgem, que seria a contraparte feminina do Herói.

A Virgem começa sua história no Mundo Dependente, onde se vê impelida a suprimir seu verdadeiro ser. No começo ela tem medo de ir contra a vontade da comunidade e realizar seu próprio sonho, então paga o preço da conformidade, que é ser infeliz. Mas então ela tem a Oportunidade para brilhar, um momento que permite a ela revelar seu sonho, seu talento, ou sua verdadeira natureza. Ela reconhece seu sonho ao vestir-se para o papel, mesmo que seja temporalmente. 

Uma vez que a Virgem vê seu desejo como uma realidade tangível, ela cria um Mundo Secreto no qual ela possa realizá-lo. Encorajada por essa primeira experiência, a Virgem vai para trás e para a frente, alimentando seu sonho no Mundo Secreto, enquanto o reprime no Mundo Dependente. Eventualmente, ela não consegue se encaixar no Mundo Dependente e é pega brilhando, o que faz com que seu desejo fique ao descoberto. Nesta crise, a Virgem tem um momento de clareza e abandona o que tem aprisionado ela até agora. Isso deixa o reino em caos e à espera de que ela volte à conduta adequada. 

A Virgem vagueia no deserto tratando de decidir se ela vai se minimizar de novo para fazer as pessoas felizes ou vai escolher viver seu sonho. A Virgem decide seguir seu sonho e se apresenta ao mundo dependente tal como ela é: escolhe sua luz. Ela perde a proteção e isso resulta terrível, mas o reino se reorganiza a si mesmo para acomodar à Virgem florescida, se transformando num reino mais brilhante. 

Se com Murdock temos a insatisfatória resposta do Campbell, com Hudson temos uma aparentemente boa reação do Vogler, que acabou escrevendo o prólogo do livro e reconhecendo que a jornada do Herói é deficiente na medida em que tem uma polarização para o masculino. “O que eu encontrei nestas páginas foi uma reveladora re-escrita da história universal humana desde a perspectiva feminina com uma linguagem e um pensamento que eu nunca teria considerado” (VOGLER, 2009 apud HUDSON, 2009, p. XIII-XIV. Tradução própria). E que, pelo jeito, continua sem considerar. As reedições de “A jornada do escritor” posteriores à publicação de Hudson não incluem absolutamente nenhuma mudança de perspectiva no que respeita às personagens femininas. 

A heroicidade que nos pertence

Hudson reconhece o arquétipo do Herói/Heroína como sendo de natureza masculina e defende que o arquétipo da Virgem é a sua contraparte feminina — sendo que essa natureza é independente do gênero. Ela, em seus exemplos, não se baseia no sexo da personagem e sim no pólo ao qual ela se aproxima mais; se for o masculino, será um Herói/Heroína, e se a tendência for para o feminino, será uma Virgem/Príncipe. Nesse raciocínio, Hudson afirma, por exemplo, que Rocky, o popular lutador de boxe, é uma Virgem. 

Me pergunto se não vale a pena repensar o conceito de heroicidade, feminizá-lo como faz Murdock, em vez de dizer que ela é predominantemente masculina? A ideia não é tirar espaços ao feminino e sim recuperar aqueles dos que foi banido.

“É necessário redefinir herói e heroína em nossas vidas de hoje. A busca heróica não é pelo poder, pela conquista e a dominação; é uma busca para trazer balance para nossas vidas através do matrimônio dos aspectos feminino e masculino de nossa natureza. A heroína moderna tem que confrontar o medo de recuperar sua natureza feminina; seu poder pessoal; sua habilidade de sentir, curar, criar, mudar estruturas sociais e moldar seu futuro.” (MURDOCK, 1990, p. 129).

Os próprios substantivos “Virgem” ou “Princesa”, mesmo que tenham origens mitológicas e sejam os empregados por Jung, têm um peso gigante relacionado com o que se espera de uma mulher e, já que estamos tentando reescrever a nossa história, o ideal sería, me parece, cuidar também as palavras com as quais nós, mulheres, nos nomeamos. Neste sentido, descrever a trajetória feminina como a trajetória de uma Virgem (uma mulher que ainda não conhece o prazer), é altamente problemático e paradoxal. 

Num extremo oposto a Murdock, Hudson foge de qualquer ideia pela qual ela possa ser tildada de feminista. Pensando no mercado hollywoodiano em que seu livro pretendia circular, é compreensível que ela tivesse ressalvas. Sua reflexão, mesmo que caia no erro de Vogler de homogeneizar as experiências feminina e masculina, ao obviar séculos de apagamento e opressão, não deixa de oferecer caminhos interessantes para pensar a mulher na ficção. No que respeita à jornada em si, o trabalho de Hudson é libertador e de uma clareza invejável. 

Ambos trabalhos surgem de uma sensação de insatisfação com relação aos modelos existentes, todos de fonte masculina, nos quais identificaram incompatibilidades e insuficiências relacionadas à trajetória das personagens femininas. Murdock baseia sua reflexão nas mitologias e na psicologia jungiana, como Campbell, Hudson busca oferecer uma contraparte a Vogler e, nesse sentido, ambos compartilham a vocação manualística que levou “A jornada do escritor” à categoria de livro fundamental para quem se dedica à escrita. 

As histórias que nos contam

Se nos permitissemos um exercício de simplificação do arcabouço teórico de ambas autoras, veríamos como, em essência, a jornada de transformação da Virgem de Hudson e a da Heroína de Murdock têm muito em comum. As duas autoras percebem como a mulher, na realidade e na ficção, deve ser, não o que ela deseja, mas o que os outros esperam dela, para manter o seu entorno estável (família, casal, empresa, universidade), enquanto ela se mutila. 

Diferente do Herói masculino, convocado a proteger sua comunidade de uma ameaça externa numa jornada de auto-sacrifício e conquista, a ameaça que a Heroína/Virgem enfrenta está em seu próprio entorno, hostil para o desenvolvimento de sua verdadeira natureza ou desejo; sua jornada é na procura pelo autoconhecimento e realização;  sua luta, pelo direito a ser (que nos remete à vida interna) e não só a agir (que nos remete à vida externa).

Seja sob a figura da Heroína ou sob a da Virgem, na experiência coletiva das mulheres, nossas jornadas de transformação trazem caos e mudanças às nossas comunidades, que precisam ser “chacoalhadas” e mudar para melhor. Já a aventura do Herói traz estabilidade e segurança a seu entorno, que ele não precisa transformar, porque está feito a sua imagem e semelhança. 

As autoras também coincidem nas nefastas consequências que têm para a Heroína/Virgem não fazer a viagem. Hudson explica que os arquétipos têm um lado luminoso e outro escuro, e é o fato de realizar ou não nossa jornada de transformação que tendemos para um extremo ou para o outro. As personagens femininas que ficam no lado sombrio, seja por não executar a jornada ou por fracassar nela, são retratadas sob as figuras da mulher louca, da mulher depressiva e da mulher suicida, padrões que, com maior ou menor consciência, são frequentemente reforçados nos relatos.

Assim como somos fruto dos exemplos aos quais nos remetemos e dos ineditismos aos que nos aventuramos, somos, também, desde a expressão artística e acadêmica, responsáveis pela produção e a perpetuação de umas narrativas em favor de uma visão de mundo e em detrimento de outras. Na vida real e na ficcional escolhemos nossos objetos de mimese e essa é uma opção política. Nós, escritores, não estamos, de jeito nenhum, isentos de responsabilidade. 

A quantidade de personagens femininas que acabam em insanidade, depressão e suicídio é tão alta que virou clichê. Talvez seja mais fácil contar a mulher que não se atreve a desafiar seu entorno para levar a cabo sua viagem. Talvez seja, apenas, mais conveniente. Quem sabe continuamos contando essa história porque, privadas de modelos femininos aos quais emular, e presas numa cultura que, a paso muito lento estamos feminizando, crescemos com uma falta ontológica e arquetípica de bússola identitária.

Lá é longe, lá é depois, lá é incerto — nós estamos aqui

Para Hudson, para Murdock, e me atrevo a assegurar que para qualquer mulher que leia os textos delas, a experiência descrita é tão conhecida que parece, inclusive, óbvia. Mas a necessidade de criarmos esses outros modelos fica clara quando vemos que para os maiores nomes na área, aqueles que produziram os textos “fundacionais” dos estudos sobre o Herói, a trajetória da Heroína é uma zona nebulosa sobre a qual eles não tem se dado à tarefa de refletir em verdadeira profundidade. 

Custa acreditar que as mulheres realmente estejamos naquele “lá” ideal de que Campbell falava em sua resposta a Murdock. Estar já no destino quer dizer que devemos ficar estáticas porque o que estamos vivendo é tudo que o mundo tem para nos oferecer.  

Não será a postura do Campbell um eco desse olhar que tem a mulher como musa dos poetas, como figura conformada que precisa se preservar do jeito irreal que o patriarcado acha que ela é  — bela, casta, passiva, calada? Não é essa a postura que prevaleceu na Idade Média e no Renascimento e que significou o estabelecimento absoluto do ilusão da supremacia do masculino? Esse argumento não se parece demais com o conformismo que o catolicismo tem nos vendido, com direito ao estoicismo de oferecer a segunda bochecha para um novo soco, tudo sob a promessa da vida eterna? 

Não estamos “lá” porque estamos longe de ser tudo que podemos ser. Ainda são muitos os apagamentos, as opressões, as violências e os silenciamentos. Ainda muitos nos querem belas, recatadas e do lar.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

DE OLIVEIRA, Rosiska Darcy. Elogio da diferença. O feminino emergente. São Paulo: Brasiliense. 1991. 150 p.

CAMPBELL, Joseph. El héroe de las mil caras. México: Fondo de Cultura Económica, 1972. 241 p. 

DE LEÓN, Fray Luis. La perfecta casada. 1584. Disponível em: <http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/la-perfecta-casada–1/html/ffbbf57a-82b1-11df-acc7-002185ce6064_3.html&gt; Acesso em: 31/07/2017.

JUNG, Carl Gustav. Los arquetipos y el inconsciente colectivo. Buenos Aires: Paidós, 1988. 182 p.

HUDSON, Kim. The virgin’s promise: writing stories of feminine creative, spiritual, and sexual awakening. Los Angeles: Michael Wiese Productions, 2009. 192 p.

LINHARES, Juliana. Marcela Temer: bela, recatada e “do lar”. Revista Veja, 18 abr 2016. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/brasil/marcela-temer-bela-recatada-e-do-lar/&gt;. Acesso: 31/07/2017.

MURDOCK, Maureen. The Heroine’s Journey. Boulder: Shambhala, 1990. 204 p.

VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. 301 p.

VON FRANZ, Marie-Louise. O feminino nos contos de fadas. Rio de Janeiro: Vozes. 1995. 262 p.

Como é coisa da vida dos mortos, viajar

Conto/Cuento, Português

Antes viajei tão pouco que me sinto roubado pela vida, pai. É sério. E olha que tentei, mas como é caro viajar; como é sempre um luxo viajar; como é coisa da vida dos outros, viajar. Por isso agora, com a mulher na Venezuela, uma filha no Brasil e outra na Alemanha, estou saldando uma dívida antiga comigo mesmo. Não do jeito que eu teria desejado, mas já é algo.

Tinha anos me preparando para essa aposentadoria. Mas é uma grande mentira que alguém possa se preparar coisa nenhuma. Tinha sido necessária tanta degradação, tanto ensañamiento? No começo, para mim só existiu o não entender e o não saber se tinha alguém a quem pedir explicações. Logo vi que não tinha ninguém. Eu sempre tive certeza disso, mas, nos últimos tempos, assustado, comecei a duvidar. O que eu podia fazer agora, no meu novo estado, quais eram minhas novas atribuições, quais as vantagens e quais as limitações? Aliás, tinha limitações? Era o choque da folga prematura.

Aquela sala fria, fechada, metálica, me oprimia. Me mandaram esperar, mas ninguém vinha me dizer nada. Então uma força, uma sucção, me levou de um pulo até um jardim. E lá estavam elas três, La Nené, María e Nana, sendo abraçadas e acariciadas, três rostinhos arrasados, três corações amarrotados como uvas passas. A mesma força que me levou até aí, de repente me fez começar a fazer a dancinha que, tempos atrás, eu tinha convertido em símbolo durante uma viagem familiar a Cuba, numa tentativa de tirar da minha bengala, última aquisição do quebranto, esse peso de velhice e pouca mobilidade, só que agora eu fazia aquilo e só ela, só Maria, me via enquanto eu dançava engraçadinho e terminava com jazz hands e meu tradicional “qué hubo?”.

Me aproximei, invisível e volátil, entre os presentes, e devo confessar que não foi um bom passeio. Não tinha como sê-lo. Ainda bem que durou pouco. De novo fui puxado até o jardim e meu corpo começou a se mexer vez mais e mais outra, num loop dançante e os “que hubo?” como uma espécie de remix sentimental. Era ela, María, que se abstraía de tudo e me fazia acontecer do jeito que ela queria. Eu, chegando dançante no meu funeral, de chapéu de aba curta, bengala e sorrisão.

Deduzi então que existia uma sobrevida, mas que ela não dependia já da minha vontade, e sim daqueles que me pensavam. Batizei esses momentos como “convocações”. Pena que não consigo sistematizar o processo e fazer algum manual para ajudar aos colegas que ainda estão do outro lado da cerca.

Boa menina, tua neta, pai. Me pensar dançando é o melhor jeito de me pensar.

*

Mas, luto é luto, e de um luto pós hospital, pós hospital público de sala e imundícias compartilhadas, não se sai ileso. Nos dias seguintes, os convites foram desastrosos. Os pesadelos se apoderaram das meninas e de La Nené. Aí não tive outra opção a não ser ficar pulando de uma para outra e fugir da agonia que os subconscientes teimavam em lembrar. Mesmo que eu quisesse – e eu não queria – não conseguia ficar muito tempo com ninguém que tivesse vivido a agonia junto comigo.

Então ia visitar a Mamá Ucha, que desde o primeiro dia recuperou as imagens mais bonitas e refrescantes e as usou como tábua de salvação. Eu criança, jogando baseball com meus irmãos sem quase conseguir segurar o taco de beisebol direito. Eu, adolescente, defendendo com unhas e dentes e toda a rebeldia que cabia em meus hormônios meu direito a deixar crescer o cabelo. Eu, na universidade, namorando La Nené, com seu cabelão comprido e pretíssimo, com seu ar tímido-elegante e sua cintura fininha; eu levando-a para conhecer a família.

Foi um refúgio habitar as lembranças dispersas da minha mãe, da minha velha e impossivelmente triste mãe. Coitada da velhinha. Nenhuma mãe no mundo devia sobreviver aos filhos. Isso é um erro da natureza, da física e das metafísicas. Mamá Ucha também escorregava, é claro. Volta e meia se deixava arrastar a imagens do lado besta da saúde e então eu fugia. Ficar era reviver algo que já não me doía no corpo, mas que me espichava a alma, e alma é tudo que eu tenho agora.

*

Demorei um tanto para entender que minha relativa autonomia não se limitava a escolher qual convocação atender, mas que se estendia inclusive a me antecipar e eu mesmo possibilitar as situações. Existia a opção de semear sonhos e lembranças? Esse já era outro patamar. O além começou a ficar mais interessante.

Os colegas daqui, você os conhece bem, pai, são uma quadrilha de defuntos por vocação, alguns realmente queridos e divertidos, e outros — que eram uma praga da que eu fugia em vida e com a que nunca imaginei ter que compartilhar a eternidade —, ficam dando pitaco, exigindo que eu assuma o novo estado e (re)conheça pessoas.

Abuela Herminia manda eles calarem a boca e me aconselha a exercitar mais as convocações autônomas, coisa que ela mesma teria gostado de fazer mais, mas naquela época tinha muita interferência das orações que os parentes faziam para a paz de sua alma e tudo aquilo e ela se deixou convencer daquela ideia do descanso eterno e o céu e ficou esperando e esperando, até que foi tarde demais. Quando percebeu a cilada em que tinha se metido, era tarde: já não era convocada com tanta frequência (embora cada invocação fosse agigantada e amorosa) e tinha sérios problemas para criar ela mesma os momentos; por teimosa, não tinha exercido a devida prática, não tinha o ofício, como se diz, de promover encontros nos sonhos. Então, eu prefiro ouvir a minha avó – umas das poucas pessoas, junto contigo, pai, que, em vida, me faziam querer morrer para encontrá-la.

Você poderia tentar fazer o mesmo que eu, pai. Dá até para tentar ir juntos. Já pensou, você e eu visitando Mamá Ucha? A velhinha ia adorar.

*

Decidi acompanhar María em sua volta ao Brasil, onde ela morava fazia três anos, com Rafael, meu genro, um cara que sorri de dente pelado e de quem eu gosto muito porque ele faz por merecer minha filha.

Claro que eu poderia ir direto, mas lembrei que ela dorme pouco durante os voos e pensei que podia ser uma boa ideia ir de avião, com ela. Foi durante a viagem que fiquei sabendo. Aconteceu que ela não estava dormindo, mas, mesmo assim, me via, me via! Fixava seus olhos em mim e me dirigia cada palavra do monólogo fragmentário de seu pensamento. Eu não só conseguia convocar em sonhos ou lembranças, como nós dois éramos capazes de criar novos momentos, que em vida não vivemos, só pela força das nossas vontades?  Se eu achava que a saudade era a tristeza derivada da incapacidade de criar novas memórias com os seres amados, então nós tínhamos encontrado a forma de matar a saudade.

Você podia ter me contado, pai, dos alcances da comunicação com o além, né? Tudo bem que a gente aprende mais quando experimenta, mas ia me economizar um tempo. Já sei, nem precisa me dizer nada. Tempo é só o que temos, então para que economizar.

Com a nova faculdade em pleno funcionamento, eu queria fazer de conta que estava tudo certo, normal, durante o voo, mas eu não tinha assento. É verdade que eu poderia me sentar em cima de qualquer um no avião, que ninguém ia sentir, mas ela estava me vendo e isso ia deixa-la mais nervosa ainda. Decidi ficar como papagaio no encosto do assento. E ela querendo que eu me sentasse. Lá pelas tantas, me deitei no espaço da saída de emergência e só então ela conseguiu dormir.

O Brasil me chamava mais a atenção porque lá, nas convocações de María, eu permanecia menos gasto, menos doente. Ao ter vivido a parte mais cruenta da minha doença desde a distância, ela estava mais a salvo do horror e por isso seus convites logo ficaram limpas de hospital e viraram as mais felizes. Embora eu sentisse nela, em cada encontro, um remorso que não sabia como desfazer.

No desembarque, em pleno estresse de recuperar as malas, ela se distraiu e eu fui parar de novo com meus colegas. De novo viajando, Morán? Maldita inveja de outro mundo, é igualzinha em tudo que é lugar.

*

Aconteceu então que um dia as minhas três mulheres me chamaram ao mesmo tempo. La Nené, num sonho tranquilo, desses em que a morte e o reencontro não são o assunto principal. Nana, numa lembrança interrompida por imagens de réquiem, mas bonita, afinal. María, numa falsa ou uma nova lembrança.

Isso já tinha acontecido antes, mas até então eu achava que precisava escolher. Assumi que a tele transportação era uma virtude natural do estado defunto, talvez pela tradição que aprendi em vida. Mas a ubiquidade era um assunto novo. Nunca me detive para pensar isso, inclusive porque, até pouco tempo antes de mudar de estado, eu achava que morrer era um ponto final. Nunca contei com esta simpática, embora desajeitada, sobrevida onírico-memorial-performática. O ponto é que aí estávamos, os três eus, em três idades distintas. Você não vai acreditar, pai. Imagina só a cena:

Caminho com Nené em Rubio, onde as ruas que antes percorríamos, na realidade da vigília, alguns anos atrás, hoje são como de E.V.A. e ela tira os sapatos porque diz que quer sentir o fofinho e eu, que não posso ficar para atrás e que não perco oportunidade de desafiar as noções locais de ridículo, também os tiro e não só os tiro como protesto por não ter tido essa ideia antes. É bem fofo mesmo. E é limpo, coisa que minha grima de andar descalço agradece. Como se a cidade toda fosse uma grande escolinha ou um tatame.

Revivo com Nana o momento em que cheguei de Ciudad Ojeda, dirigindo o carro recém-comprado, um mustang prata de duas portas, de 83. Vejo as caras de Nana e de María e são de um brilho que não há dicionário que consiga ter palavras para contar. Primeiro carro da vida delas. Tivemos algum outro quando María era bebê, mas disso nem eu lembro muito bem, imagine ela.

E com María, me permito minha já testada capacidade de invocar soberanamente novas situações. Fazia dias, ela andava me convocando em suas tristezas, entre outras coisas, porque estava prestes a trocar de apartamento e de repente percebeu que esse espaço tinha sido a última morada dela em que eu, de fato (o de vida, digamos), estive presente. O que que eu fiz? Escrevi e encenei (que é o mesmo que viver, no caso) todo um sonho mirabolante, cheio de aventuras imobiliárias, de surrealismos e plasticidades, bem do jeito que ela gosta, que terminava com ela chegando a uma casa chique que ela, ou uma versão rica dela, estava cogitando alugar e quem é que estava lá, na piscina, com os olhos vermelhos e a pele já enrugada de tanto ficar de molho, segurando um mojito na mão? O mesmo que fala. Euzinho, desdobrado e poderoso. Sucesso total e rotundo. Ela parou de se atormentar com esses detalhes técnicos de ir para uma casa que eu não tivesse conhecido; pegou certinho a mensagem: eu estou onde ela estiver e isso nem se discute.

*

Você acha que eu convoquei o senhor o suficiente, pai? Com o tempo, os convites são menos, fala a verdade… Ainda bem que eu deixei uma legião de fãs lá, somando a família e a parentela, os amigos e os conhecidos, as centenas de estudantes que passaram por minhas aulas. Genética boa para a simpatia, mas vergonhosa para a saúde cardiovascular, né, Seu Gonzalo?

Acho que não exagero com minhas expectativas de trotamundos. Nos últimos três anos, fiz ótimos passeios que todo mundo ficou com vontade de repetir. No Brasilzão, já não sou mais um desconhecido. Brinco com meu português aprendido com Zeca Baleiro e aprimorado na base de muito Caetano e Novos Baianos e muitas aulas de literatura e grupos de estudo em que acompanho María, que não termina uma coisa quando já está engatando outra e quando eu for ver já vai estar fazendo pós doc vai saber onde e La Nené e eu só esperando os netinhos.

Com Nana, estou conhecendo uma Europa que nunca pensei que fosse gostar tanto. O alemão está melhorando, mas devo aceitar que daquele lado eu aprendia mais rápido. Também, né, os coleguinhas e parentes deste lado são uma preguiça só e a preguiça é uma doença animicamente transmissível.

Enfim, que sou a inveja dos parceirinhos lá do além, por esta minha sede de mundo e por ter quem me ajude a saciá-la. O corpo que eu tinha virou pó cinzento que foi parar em Paraguaná, na Venezuela; no Guaíba, no Brasil; no Mediterrâneo, na Espanha; e em Varadero, em nossa querida Cuba. Pequenas cerimônias que elas acharam necessárias. E eu, que estava mais nelas do que nas cinzas, dei um jeito de participar ativamente: em Paraguaná, criei toda uma aventura burocrática a partir da necessidade de encontrar uma lancha porque, de outra forma, com a corrente em direção à terra, o pozinho acabaria nas barraquinhas dos turistas e não no alto mar, e ninguém quer isso, por favor. Já na lancha, quando era para o pozinho cair na água, assoprei um vento travesso no sentido contrário e o rostinho de Javier, meu sobrinho, ficou coberto de pó, causando uma gargalhada geral que todo mundo estava precisando, ao meio dessa coisa dilacerante que é uma despedida. Rasgar a cortina de dor que asfixia nesses primeiros dias. O riso que abre os pulmões e as ideias.

No Mediterrâneo, roubei um balão vermelho de uma criança – que ficou chorando horas a desgraçada – e o arrastei até onde estava Nana e o deixei por aí, dançando para ela. A coitada estava frustrada, nunca foi boa com trabalhos manuais, então o pobre do barquinho em que colocou minhas cinzas parecia mais uma balsa-maravilha da engenharia da miséria caribenha, daquelas que os cubanos faziam para chegar a Miami. E como não chorar por uma nova despedida, e como não rir de ver a tentativa-de-barquinho se afundar a escassos centímetros enquanto um balão parece, inexplicavelmente, imantado ao píer.

Em Varadero rimos demais. Maria levou as cinzas num tubo de ensaio. Bem coisa de La Nené fazer isso: roubar um tubo de ensaio do laboratório da universidade e botar as cinzas do professor Morán nele para serem transportadas ilegalmente de um país a outro. O assunto é que lá eu nem precisei mexer no set. Acontece que água salgada entrava e saía sem levar consigo mais do que alguns pontinhos de pó. Se recusava a se misturar. E eu juro que eu não fiz nada. María e Rafa ficaram um tempão tentando “me esvaziar”. Os primeiros minutos, ela ficou tensa, frustrada, mas logo veio o riso, uma luta fodida contra as ondas, mexendo o tubinho, virando o tubinho, submergindo o tubinho, assoprando o tubinho. Altas gargalhadas. Toda tristeza em nós é tragicômica. Uma guachafa absoluta, como em nossos melhores momentos.  

Só no Guaíba, me deixei ir, triste, num barquinho, desta vez bem feitinho. Aí, nem eu estava animado. O dia era cinza e Porto Alegre era uma cidade em que eu queria ter vivido e não deu tempo. Do outro lado também temos nossos altos e baixos. Você sabe bem disso, pai. É claro que ninguém queria ter morrido tão cedo. E menos eu, que tinha uma bucket list que rendia umas cinco ou seis vidas ordinárias. Mas passa. Passa. E tem suas vantagens.

A ubiquidade é um negócio fascinante, pai. Sem passagem, custos de hospedagem nem de alimentação – essa parte eu não gosto, nós, deste lado, não precisamos comer, aliás, não podemos comer, então eu sinto uma fome que não é fome verdadeira senão uma gula da pior categoria, queria comer até explodir de tanta coisa por aí, agora que não preciso me cuidar mais, queria beber toda a água e os sucos e a cerveja e o vinho e todo o líquido que a doença me roubou durante os últimos anos de vida de vivo.

Apesar das reclamações de alguns colegas do além, que querem que eu tenha uma vida de morto sedentário, de jogar dominó e cartas, de passear só com horário agendado, de filosofar a morte, mais chatos em morte do que eram em vida, viajar é o que mais faço. Ah, pai, como é bom viajar; como é coisa da vida dos mortos, viajar.

Turmalina

Português, Relato

Dezenove horas. Viajo com R e com meu sogro (que faz algumas semanas está viajando para Porto Alegre a trabalho) para Passo Fundo. Eles falam enquanto eu faço uma outra viagem (vertical, diria Vila-Matas), um deslocamento rarefeito pelo limiar sono-vigília, em que, durante um período de tempo irreal que pode ser um ou dez ou trinta minutos, me sinto alheia ao carro, à estrada, a eles, a mim mesma. Inadequada, flutuante. Um corpo de súbito falso, de quem eu viro refém. Uma cena em que um eu se vê a si mesmo lá embaixo, existindo com uma concreção tão exata que parece inegável, incontestável. E que, mesmo assim, não sabe explicar nenhum porquê.

*

Acordo tarde como faz meses não o fazia. Quase meio-dia. Mistura do frio com a ruptura da rotina. Numa sonolência que não termina de passar, os temas que me habitam já nem tentam se revezar, agora se conformam com justapor-se. Papá, cadê tu? Minha mãe sozinha lá. Venezuela apocalíptica. Distopia mal escrita. Os abraços diluídos no tempo, já esquecendo do calor. Naná há 18 meses no universo alemão. Pausa no devaneio para injetar café na veia. Sem muito efeito cafeínico, R me faz admitir que estou estressada (ele chegou à conclusão de que eu sofro de “fuga”: quando estou triste/ansiosa/estressada entro num estado de sono permanente) e me convida a provar o colchão mágico de seus pais, que faz massagem e tem ímãs, pó de turmalina preta, infravermelho, energia quântica e, se bobear, até ondas de reconstituição genética para combater o câncer.

Com expectativa zero, me deito com ele. A superfície vibra com força, fazendo um barulho grave, que contribui com a sensação geral de estar sendo submetido a algum treinamento pré viagem espacial. Esqueço de tudo. O colchão é mágico, mesmo: me tele transporto com uma rapidez e uma eficiência invejável. Estou na Venezuela, em algum momento de 2010, fazendo terapia para curar uma tendinite no ombro numa SRI (Sala de Rehabilitación Integral), do programa nacional de saúde preventiva Barrio Adentro, um dos maiores orgulhos da revolução, hoje tão desassistido como a rede tradicional de hospitais públicos e até dos particulares, privados de todo tipo de insumos. O médico cubano me avisa que já posso passar da sala de infravermelho para a de eletroterapia. E já não é o médico cubano na Venezuela quem me fala, mas o médico cubano do hospital de San Antonio de los Baños, en Cuba. Continuei o tratamento lá, quando voltei das férias, para continuar na escola de cinema. O doutor Máximo, da enfermagem da escola, me levou todo dia, durante duas semanas, à fisioterapia. Paguei quanto? Um abraço e vários “muito obrigada”. Acaba a massagem com uma vida inteira virada de cabeça em apenas oito anos. Acho que vou ter que dormir mais mesmo.

*

Não sei bem o porquê, mas me irrita a ideia da literatura como remédio ou salvação. Meu remédio, minha salvação, minha estratégia e ferramenta de libertação ela é, sem dúvida, mas não a do mundo. Acreditar isso me parece ingenuidade, quando não egolatria.

*

O placebo e a panaceia estão a um otimismo de distância.

*

À noite, topo ir para Sertão, no interior do interior, no plano mais aleatório dos últimos dias. Vou acompanhar meus sogros numa palestra de apresentação de uns colchões “terapêuticos”. Chegamos no salão de eventos do povoadinho. Umas vinte famílias da colônia estão prestes a escutar o dono da empresa, um cara parecido com Ed O’Neill em Modern Family, cujas referências de showman se movem entre Faustão e Ted Talks. Dois colchões em exibição, cartazes, vídeo, power point. Mil imprecisões científicas, com promessas enganosas e alívios cômicos feitos de piadinhas machistas, tudo amplificado com um head set de última geração. Um mix bizarro que, bizarramente, lhe vem rendendo boas vendas e boas risadas da audiência. Posso falar de tudo, mas não posso negar que o cara conhece seu público. 

*

Depois de UMA HORA E MEIA DE PALESTRA, os assistentes ganham um churrasco. Me entupo de carne e maionese como se minha vida dependesse dessa refeição. E o tempo passa e passa e o Al Bundy falso continua lá, se achando o dono do pedaço, fazendo comentários inapropriados e contando causos como se alguém se importasse. Vou é comer mais e mais e mais. Quero que ele me devolva em alimento todo o tempo que me sugou. A vingança mais indireta e contraproducente que eu já executei.

*

O tio de Rafa sempre me faz lembrar dos últimos dias de vida de mi papá. Faz dois anos e pouco, o homem passou por um susto daqueles. A gente o visitou quando ele recém estava saindo do hospital e tinha o olhar ainda arrasado pelo medo da morte. Foi uma visita dolorosa, que me fez reviver a agonia do meu pai e me fez sentir raiva, como sempre me acontecia naqueles dias, de que outras pessoas se salvassem e não ele. O que fez que o tio de Rafa fugisse da morte e meu pai, que tanto se aferrava à vida, não? Não me curei ainda dessa raiva. Apenas aprendi a disfarçá-la melhor.

Hoje ele está muito bem, com a pele rosinha e as bochechas mais cheias. Há algo nele que me deixa numa disposição diferente, como se de repente estivesse valendo a pena o show dos colchões. O examino e logo percebo a ação secreta: o cabelinho grisalho por baixo do boné, o peito vermelho curtido do muito sol aguentado, as orelhas compridas dos Morán, a estatura exata do meu pai. Um surto de vontade de abraçá-lo me acomete. Abraçar meu pai, nele. Me paraliso na conversa. Concentro minhas energias em sossegar a dor desse desejo para sempre insatisfeito.

Um chiado agudo se amplifica pelo alto-falante. Parece que a palestra segue.

Liga para a Defesa da Maldade com Objetivos Supérfluos (LIDEMOS) – Terceira parte

Conto/Cuento, Português

AÇÃO 3.7

Conduta em corrida esportiva

Com seu excesso de saúde e força, os atletas são miseráveis e cafonas, como todo ostentador. Uma pequena dose de turismo antidesportivo, transmitido ao vivo pelas TVs e rádios, gerará, aliada à polêmica e à falsa indignação do grande público, reflexões sobre a real importância daquele evento em particular e o absurdo de glorificar pessoas que correm sem precisar ir a lugar nenhum, apenas pela vontade de demonstrar seu poderio quase maquinal.

Instruções:

1.   Dias antes do evento, vá até o lugar e avalie em detalhe as características do mesmo (especial atenção merecem o relevo, o tipo de solo, a altura da calçada).

2.   Estude e pratique em casa possíveis formas de abordagem do alvo, em função de sua condição física e, claro, em relação com as do atleta. Rolamentos e torções de artes marciais como o hapkidô podem resultar muito úteis.

3.   Analise personagens de telenovela que lidem com doenças mentais. Memorize e pratique algumas frases e tiques padrão.

4.   No dia prévio ao evento, quando já estejam sendo colocadas as marcações e preparadas as arquibancadas áreas em que o público poderá ficar, escolha o ponto mais cercado à linha da meta.

5.   Avalie os dispositivos de segurança que separam o público dos corredores, caso existam.

6.   Estude quais os caminhos mais rápidos e seguros até o ponto escolhido e procure informações sobre os horários em que o público começa a chegar no evento, com o objetivo de garantir a disponibilidade do ponto estratégico escolhido.

7.   Se você tiver feito o passo anterior corretamente, como seguramente o fez, você não deve se deparar com surpresas no grande dia. Ocupe seu lugar e espere. Tenha água e lanches à mão: é imprescindível que você esteja em ótimas condições

8.   Localize-se no lugar estratégico escolhido. Desfrute a corrida, mas esteja atento. Seja como um caçador que cuida, a uma distância prudente, sua presa.

9.   Quatro ou cinco metros antes do indiscutível vencedor atingir a meta final, atire-se em cima do atleta e faça-o rolar pelo chão, como aprendido durante o treinamento, enquanto o segundo e terceiro lugar completam o trajeto.

10.  De um beijo no seu alvo e levante-se.

11.  Não se resista: você será levado pela segurança do evento e poderá ser prendido pela polícia. Em câmbio, use o que aprendeu no passo 3: finja demência.

12.  Ofereça as devidas entrevistas e coletivas de imprensa. Sorria e agradeça a todos aqueles que fizeram possível sua façanha. Reivindique as bandeiras da LIDEMOS.

13.  Durma com a felicidade do dever cumprido. Você é um caso raro e deve se sentir exultante; glorioso anti-herói nacional, libertador dos fracos e dos preguiçosos. Você é exemplo a seguir nas nossas lutas.

Liga para a Defesa da Maldade com Objetivos Supérfluos (LIDEMOS) – Segunda parte

Conto/Cuento, Português

AÇÃO 1.5: Conduta nos supermercados

Uma última apimentada no dia do trabalhador regular, para fazê-lo refletir sobre a impossibilidade ontológica da calma: onde termina a jornada laboral, começa a doméstica. Novos imbróglios, novos desafios. Sempre uma nova oportunidade para expandir a paciência.

Instruções:

1.   Analisar o estado geral do estabelecimento: vigilantes, funcionários das diferentes áreas, distribuidores em seus kiosquezinhos de lombo suíno fumegante ou de café latte hiper edulcorado. É muito importante, também, identificar as saídas, as câmeras de segurança, os acessos ao estacionamento, sanitários e demais caminhos de fuga existentes.

2.   Fazer reconhecimento de alvos potenciais. Dar preferência aos clientes que deixam estacionados seus carinhos e, à procura de outros produtos, deixam o mesmo momentaneamente abandonado enquanto se aventuram a caminhar um mínimo de cinco metros.

3.   Escolher o alvo. Difícil decisão que exige do vilão um certo malabarismo entre os dados objetivos obtidos no passo 1 e as infinitas possibilidades do acaso.

4.   Esperar que o alvo esteja com o carrinho cheio. OBS: se o alvo escolhido der sinais de estar terminando a compra e ainda não ter mais de 15 produtos, descartá-lo e escolher novo alvo. Defendemos o impacto menor, não o inexistente.

5.   Esperar a pessoa se distrair e roubar o carrinho dela. O melhor lugar para executar o assalto é na seção de vegetais e frutas, por ser aquela de maiores complicações para transitar e onde os clientes tendem a se concentrar mais na escolha do produto.

6.   Se afastar com a pilhagem, deixá-la em outro ponto do mercado. Se possível, e para ampliar o impacto da ação para além do alvo, deixar cada um dos produtos escolhidos pelo alvo em prateleiras aleatórias do mercado, sempre tomando cuidado de que o lugar de origem do produto se encontre, no mínimo, a quatro corredores de distância do lugar em que está sendo depositado.

7. Sair do estabelecimento com o peito inchado de orgulho pelo honorável desempenho. 

Liga para a Defesa da Maldade com Objetivos Supérfluos (LIDEMOS) – Primeira parte

Conto/Cuento, Português

Assembleia geral – Maio/II 2018

MESTRE DE CERIMÔNIAS:

Com a palavra, o cidadão Secretário de Assuntos Externos, Excelentíssimo senhor Manuel Estanillo, líder absoluto no ranking de vilanias menores no perímetro da cidade.

MANUEL ESTANILLO:

Porque a adversidade sempre soube criar caráter e todos nós bem sabemos disso, venho agora convidar vocês, meus colegas de inomináveis e inestimáveis talentos marginais, a unirmos forças em prol do reconhecimento do nosso vilipendiado labor.

A situação é insustentável: não podemos assistir impávidos a este panorama bipartidário em que ondas de maldade de alto calibre se revezam com enjoativa meiguice, numa clara tentativa de apagar as vozes de aqueles que não se identificam com os extremos. O que resta aos apáticos? Aos que carecem de talento suficiente para a infâmia ou para a bondade rasa? O que sobra para nós? Ser taxados de ruins como os colegas mais ortodoxos e radicais da arte da maldade? Ou ser defendidos qual vítimas e ver nossos atos malignos relativizados, diminuída sua potência a mau-caratismo? Colegas, tais opções obtusas não podem nos satisfazer! O que devemos, nós, vilões de pequeno porte, fazer defronte a tamanho maniqueísmo?

Minha proposta é orquestrar, desde as bases da LIDEMOS, uma grande ofensiva nacional, executada através de atos como alguns dos que estão descritos no memorando que agora mesmo começará a circular entre vocês. Tais ações, meticulosamente desenhadas e articuladas, seriam executadas simultaneamente ao longo do território nacional, no que eu tenho batizado como GRANDE JORNADA PELA DEMOCRACIA DE CARÁTER, e têm o objetivo fundamental de chamar a atenção para a importância de nosso trabalho no destino da nação e de seus cidadãos. Devemos arrinconar de tal forma aos inimigos que não sobre quem não reconheça a importância das maldades de curto alcance para manter em funcionamento a roda da cotidianidade: sem a burocracia que com singular dedicação criamos, sem o trânsito que tão devotamente desorganizamos, sem as manias que com tanta tenacidade espalhamos, o mundo como todos o conhecem não existiria.

SALVE A MALDADE DE CURTO ALCANCE!  SALVE OS OBJETIVOS SUPÉRFLUOS! SALVE A VILANIA DE PEQUENO PORTE!

Ancla

Español, Relato

La marabunta llega siempre como una invasión magnífica. Sea un pueblito de traficantes o de artesanos o de pescadores, como es el caso, la estrategia de abordaje no cambia nunca porque no existe. Es llegar y husmear con simpatía. Block de notas, bolígrafo y cámara bastan para que el más discreto acabe confesando su vida y obra, sin economía de sordideces y hambres. Tienen la denuncia atorada en gargantas por donde pasa más fácil el ron que la comida. ¿Ya viste vos a cómo está el quilo de carne o un cartón de huevos? Rondando la escena, siempre hay algunos dados al sí pero no, escondiendo sonrisas bonachonas y eventos no noticiables en las cabezas salitrosas. Y ahí van los muchachos a convencer de hablar, a anotar, a grabar, a fotografiar, a compartir por un instante la ilusión de aquellas gentes que creen que un estudiante de periodismo puede hacer algo por sus vidas. ¿Cuándo va a salir eso? ¿Ustedes son del canal cuatro o del dos? La marabunta llega siempre así, como promesa.

La marabunta tiene quien odie formar parte de una marabunta. Del grupo de doce, al menos cinco no quieren ser periodistas, aunque algunos aún no lo sepan. De esos cinco, una será una reportera premiada, infeliz pero serena. Otro ocupará la zona burocrática y turbia de la profesión para siempre jamás. Un tercero no terminará la carrera y será artesano vanguardista de la estética que dará origen al hipsterdom. La cuarta dará a los padres el diploma para ser colgado en la sala, junto con el de sus hermanos, y se irá a respirar el mundo con los budistas. Mientras estos cuatro desenamorados concuerdan en que esas salidas de campo son la parte más estimulante de la carrera, la quinta las detesta.

Apartada del grupo, ella está sentada debajo de la sombra pichirre de una mata de uvita de playa, con la mirada clavada en un único pescador que continúa en el mar, sentado inmóvil en su lancha, a merced de la violencia de las olas, como en un ejercicio de estoicismo. Está interrogándole va a saber dios qué incertidumbres, qué milagro o qué mierda al horizonte de la península. Tal vez ese hombre sea una fotografía que valga la pena. Una fotografía o algo más. La cámara le parece grosera de repente, un intruso impúdico, no apto para el silencio del hombre suspenso. Una criatura conjetura a salvo por un momento de su condición de pobre denunciado y denunciante. Una criatura de tal vez escapando de su destino de levantarse a las tres de la mañana y hacer jornadas a oscuras y terminarlas a punta de ron barato, cerveza y cocuy. Una criatura quién que busca silencio quién sabe queriendo recapturar su alma cuando esa veterana se quiere hundir con todo y redes.

“¿Y vos qué, ya hiciste el trabajo?”, un entusiasta la interrumpe, se sienta a su lado en actitud de conquista. Ella se irrita, pero se le pasa rápido: es bonito el muchacho, tiene una tozudez tierna que hace que se le disculpe lo inoportuno. Cuando vuelve del coqueteo, ya no existe más la imagen de la lancha y el hombre. No allá. Aquí: una criatura toda para ella, superficie vacante, íntima de tan hipotética.

Entonces juega un rato a ser aprendiz de periodista, hace unas pocas fotos, se engancha en una conversa poco o nada reporteril, no anota nada, pero puede decir que ejercicio cumplido. Los muchachos se van y resta el entusiasta, que insiste en acompañarla. Con un restito de periodismo encima, ella todavía espera el regreso de aquella lancha que cuanto más tiempo pasa más fantasma se vuelve. Mientras ella bebe toda la cerveza que le invitan los pescadores, el muchachito se entrena en perseverancia.

Toman el bus, ella ya achispada, una mezcla de alcohol y de encantamiento. Le pregunta al entusiasta si le parece bonita la idea del pescador anclado en el mar y el muchacho se ríe, sin entender. Ella quiere contarle del paréntesis de irrealidad que él causó y de todos los derrumbes que eso pronostica, pero él pregunta si ella ya está borracha porque él no sabe de qué demonios está hablando. Ella tampoco, pero algo intuye. En el esplendor del último bus de Ruta 6 de la noche, ella le planta un beso feliz, rápidamente tridimensional, antesala de más y más y más hallazgos.

Portales

Español, Relato

El sol estaba clavado en el cénit y parecía que existía con exclusividad para ese Caribe turquesa, imperdonable de tan bello. Una horda de palmeras encorvadas inducía modorras en aquella brisa caliente del post-almuerzo ecuatorial. La arena era una cobija de sombras que se extendía y huía del paisaje, derramada del mural de la pared hasta la cama, donde arropaba la siesta — institución sagrada — de mis padres. En los dominios de mi cuarto, donde yo dormía soberana e independiente desde un cortísimo siempre, aquella hora y media en que ellos dormían eran una eternidad de aburrimiento en que yo fingía reposar; fuera para complacerlos, fuera para tener un rato de libertinaje infantil.

Mis pequeñas expediciones al afuera — Marielenita, ¿dónde andáis? — eran descubiertas de inmediato y, ese día, como tantos otros, acabé compartiendo la cobija-arena con ellos y saboteándoles irreparablemente el sueño. Entre las mil preguntas habituales que yo hacía y para las que ellos, cuando no tenían una respuesta, se la inventaban, se me antojó preguntar quién era Dios y si yo creía en él. Ellos se miraron y, como quien dice algo que ya tiene planeado hace tiempo en la cabeza, mi papá me dijo que ellos no creían, pero si yo quería creer, podía hacerlo. Entonces les pregunté si ellos creían en la magia y me dijeron que tampoco, pero que creían en la imaginación y esa era más poderosa que cualquier magia, incluido Dios, en todas sus versiones.

Por ejemplo, esa playa que estaba ahí atrás de nosotros, a la cabeza de la cama, podía ser un papel gigante pegado en la pared, pero podía ser también un umbral a ese otro mundo, ¿o es que no yo no había percibido cómo las sombras cambiaban de lugar? ¿No sentía mami a veces alguna cosquilla inexplicable en los pies, causada con certeza por algún cangrejito travieso e interdimensional? Y allá en la sala, donde la pared no era una playa sino un ventanal que daba a un jardín selvático e inmenso, ¿no sería por eso que papi iba hasta allá para agarrar señal en aquel Motorola gigante, primer celular del edificio y motivo de pantallería global? ¡Pero claro! ¡Eso explicaba muchas cosas!

Era cierto que apenas abríamos los cuadernos de dibujo, comenzaban a llegarnos ideas de animales mutantes, cruce de ratón con hormiga y de rinoceronte con lagartija. Y los bautismos de cada creación, cierta manía de títulos, ¿no estaba también relacionada con esos otros portales llamados diccionarios? ¿Y no era sólo encendiendo la lámpara de globo terráqueo, que comenzaban a fluir los juegos de memorizar capitales? Bastaba abrir El hombre que calculaba para que la matemática se apoderara de nosotros y Giraluna para que los tres fuéramos poetas por antonomasia. Apenas abría la puerta del closet y la vista de los zapatos y vestidos de fiesta de mami — según yo, provenientes de una vida anterior y ultrasecreta — me transportaba a juegos de señora rica y famosa, profesora galardonada, madre de María Tumbelina y Andy y esposa del Che Guevara, mi primer amor indiscutible. Él mismo, dueño de otro portal poderosísimo, aquella fotografía en blanco y negro, responsable de mi precoz enamoramiento, colgada en la biblioteca de la salita, desde la cual accedíamos a lecciones de historia reciente de sueños en construcción.

Era cuestión de abrir la ventana para que la maravilla del mundo se apurara a entrar en casa y la alegría y las bravuras y las canciones y los llantos salieran e inundaran la calle. ¿O acaso no había visto yo a aquel transeúnte alegrarse cuando mami dio aquella carcajada el día que papi la asustó con un gruñido y ella derramó el jugo que estaba haciendo para él? ¿No bastaba mirar el reloj-portal para saber que papi estaba llegando? ¿Y no coincidía el movimiento del puntero con su silbido desde la calle y la corrida hasta el balcón y la bajada desesperada por las escaleras? ¿No combinaba el grito de cuidado de mami con el abrazo histérico de María Besito en acción? ¿No estaba sintiendo en los pies la arenita de playa, la brisa del mar, ahí acurrucada entre ellos? ¿No veía ese puntico en el horizonte? ¿No era ese el Granma, aquel barquito improbable en que los barbudos comenzaron la revolución en Cuba? Veía todo eso y veía mucho más porque veía a una niña dueña, a partir de ese día, no sólo de portales, sino del poder para crearlos donde nos los hubiera.