Quantos decibéis perdeu Maracaibo?

Português, Relato

2008

O cemitério parece um hiato na vida desta cidade estrepitosa. Nós o chamamos de “El Cuadrado”, um parque gigante e morto, como uma chaga de lepra no tecido vivo demais do casco central. Existe também “El Redondo” e, pelo jeito, uma estranha mania de nos referirmos às coisas e aos lugares por sua forma e sua cor.

Temos também um péssimo sentido de coerência espaço-temporal, que nos leva a mim e a mais quarenta passageiros a estarmos, em pleno meio-dia na cidade mais quente da Venezuela, metidos como sardinhas neste ônibus-barraquinho, preso como sempre entre outras dezenas de improvisadas máquinas de emissão de dióxido de carbono, participantes ativos de um engarrafamento, gritão nesta hora como em qualquer outra hora, porque aqui as pessoas não têm horário para fazer um show.

Por um segundo, tenho vontade de descer do ônibus e terminar de chegar em casa a pé, atravessando o cemitério, cheio também, mas de gente aposentada do ruído. Quem que eu estou querendo enganar, se estou gargalhando por dentro com as fofocas das duas mulheres que, afortunadas, vão sentadas ao meu lado, ou melhor, quase embaixo de mim, porque dizer que eu vou em pé no corredor é uma sutileza muito falsa: eu estou esmagada, exprimida, quase em cima das mulheres que, por cortesia ou para evitar serem golpeadas numa freada, se ofereceram para levar minha bolsa e as minhas sacolas de compras, que agora me parecem grosseiras em número e em tamanho para quem, como eu, anda sempre de ônibus.

Não reclamo: gosto de andar de ônibus e gosto de gostar disso. Me pego pensando o quão esculhambado e ao mesmo tempo divertido, de uma retorcida e masoquista maneira, é o transporte público de Maracaibo, uma cidade de mais de dois milhões de habitantes, onde a lei é a informalidade e a esperteza, e desisto de querer que as pessoas não sejam escandalosas ou hostis, porque como não sê-lo, se até para pegar um ônibus você tem que se comprometer num combate corpo a corpo. Dou uma gargalha, desta vez, por fora, rindo sozinha, como os loucos, embora sinta alta a probabilidade de ter um piripaque daqui a pouco, prefiro ficar asardinhada entre os vivos do que caminhar entre os mortos alheios.

2020

O cemitério parece ficar cada vez mais longe. Antes, ao meio do caos da cidade cheia, não havia fendas para ver as distancias reais, os caminhos, o mapa, é como se sempre tivéssemos estado dirigindo de noite e com as luzes baixas e, de repente, tivessem varrido todas as construções e os carros e a gente, e nos tivessem jogado no meio de um caminho desolado, dentro de uma lata-velha cujas luzes altas não funcionam. Quanto mais vazios ficamos, viram maiores as dimensões deste espaço agora desfigurado e as dificuldades para percorrê-las.

Também não importam mais as horas nem os quandos, a cidade já não conhece de horários-pico e, por mais cedo que você saia de casa, a espera por um carro coletivo, uma lotação, ou mesmo um dos agoniantes e ressuscitados paus-de-arara, virou tão longa que esse sol agressivamente perpendicular sempre me calcina a moleira.

Mas alguma coisa passa, alguma coisa sempre passa para que eu possa ir te visitar na tua casa calada de “El Cuadrado”. Dessa vez foi um coletivo, por sorte. As portas fechadas do comércio, dos restaurantes, das padarias, passam pela minha janela como um filme de pós-guerra, o vento quente redemoinha no meu cabelo com suas poeiras antigas e debochadas. Um festival de ferrugem, lixo, fuligem. Um quase silêncio. Quantos decibéis perdeu Maracaibo? O tanto que você odiava os gritos e o trânsito desesperado, meu amigo. Hoje o único escândalo são os escombros e você não está aqui comigo para curtir esse silêncio, alívio amargo, que nos restou.

1990: o que fazer após a queda de um muro

Conto/Cuento, Português

O mar pardo. A areia dura. Uma bicicleta mais velha que todas as bicicletas. A casa azul no silêncio do não-turismo. Alice Souza tem dezesseis anos, dezesseis verãos amando essa praia e a certeza de que, com a venda do imóvel, morre uma parte de si.

Alice decide que deixará a bicicleta como patrimônio indissolúvel da vivenda. Ela deve renunciar a essa paisagem, e sua amada companheira não tem por que segui-la. Levar para a cidade uma bicicleta tão oceânica seria enganar-se, querer transformar o amor fugaz dos verãos num matrimônio. –Não, Estrela, minha amiga. Você fica.

Em toda a praia, só há dois lugares proibidos para pedalar, a caverna dos índios e o manguezal vermelho. Um é garantia de um pneu furado; o outro, ser uma mosca numa teia de aranha. E Alice, que bem sabe que todo fim de era está marcado por grandes conquistas, concede a Estrela o derradeiro desejo de explorar o inexplorado. Sabe que esse arrebatamento tem tanto de assassinato quanto de suicídio. Com Estrela ferida de morte, Alice empreende o regresso.

No crepúsculo, a casa não parece tão detonada como dizem seus pais. A cerca de conchas marinhas continua linda, perfeita para ficar se amassando com o garotão que vende ostras e acorda paixões precoces. O portão de madeira está surrado, sim, mas tem o charme dos postais velhos. E o quarto dos bricabraques, ah, quando teria de novo acesso a tanta diversão, centenas de objetos à espera da ressurreição; objetos dos que Estrela, com seu pneu furado e seu aro torto, começa a fazer parte.

Alice nina sua amiga entre as outras bicicletas desmembradas e segue até a cozinha, chamada pelo cheiro da ambrosia da Senhora Arminda, número um absoluto em seu inventário de nostalgias. Arminda, faxina do domingo. Arminda, “Senhora Diana, aqui têm seu cafezinho”. Arminda, marido pescador alcoólatra. Arminda, “cuidado com o bandido das ostras, Alicinha”. Essa mesma Arminda, quem durante dezesseis verãos chegou com ambrosias, canjicas e tortas de bolacha, e iluminou a casa com seu sorriso. Essa mesma Arminda, agora chora nos braços de seu pai.

Os milhões de vezes que ele recusou o mar e ficou sozinho na casa; as comidas, sempre as preferidas dele; a timidez exagerada de Arminda em sua presença e seus vestidos de vadia colona. Entre as elipses e os subtextos de suas lembranças, respira uma história submersa que acaba com a boca de seu pai beijando as lágrimas dessa mulher a quem –não cabe a menor dúvida– ama.

Pela janela, detrás da cena proibida, Alice descobre o carro na garagem. Em algum ponto do desconcerto, sua mãe chegou. Ela corre para o quarto, onde a encontra deitada na cama, lendo pela enésima vez Quem mexeu no meu queijo? –Não chore, meu anjo– lhe diz sem levantar a vista do livro. –O que eu posso fazer se nunca aprendi a fazer ambrosia?

Entre os caules do manguezal vermelho, Alice pune-se com a dor da estreia. Um primeiro sexo desajeitado e sem amor, com fedor de ovo podre. O vendedor de ostras lhe mente amores, encontros futuros, cartas semanais. Seus olhos se parecem com a lua que pendura do céu, plana e branca, como de cartolina. Lembram os de sua mãe, acomodada na cadeira de balanço, posando para a vida.

Um último beijo nas paredes azuis e adeus. No porta-malas do carro, vai Estrela, que convenceu Alice de que com uma mínima re-alfabetização, seria uma bicicleta do mundo. Entre os abacates e a coleção de conchas, vai o cadáver de seu sorriso infantil, não conseguiu deixá-lo entre os bricabraques; o quer com ela, como um postal de quando a vida era vida e não teatro; o quer perto de si, para aguentar o peso das máscaras. No assento dianteiro, seus pais conversam sobre os países da defunta União Soviética, cujas independências estão se contagiando como peças de dominó.

A personagem, esse estranho artefato suspeito de carregar vida

Debate, Português

A ideia de se transformar em outro no exercício de escrever ficção é habitual entre escritores: uma espécie de desdobramento de si mesmo a serviço de um outro ser, feito de palavras e magicamente trazido à vida para transitar numa trama de uma história que será recebida por outros seres e terá algum impacto, ético e estético, neles.

Para Canetti[1], a função do poeta é ser guardião da possibilidade da metamorfose e, assim: “os poetas deveriam manter abertas as vias de acesso entre os homens. Deveriam ser capazes de se transformar em qualquer um, mesmo no mais ínfimo, no mais ingênuo, no mais impotente”.

É bastante possível que a maioria dos escritores endosse essa frase de Canetti, eu arrisco a assegurar. Os romancistas frequentemente comentam a escrita de ficção como um exercício empático ao falar sobre a criatividade e os possíveis efeitos[2] da leitura de romances. Em seu livro Empathy and the Novel[3], Suzanne Keen trabalha, entre outras, com a hipótese de que a atividade de escrita de ficção pode cultivar habilidades de atuação nos romancistas e torná-los mais habitualmente empáticas.

O valor desta hipótese vem crescendo com o inusitado apoio da psicologia do desenvolvimento. Em Creative Writers[4], Freud sugeriu que poderia haver um elo entre a criatividade dos escritores adultos de ficção e o jogo imaginário das crianças. Keen traz o exemplo do trabalho da psicóloga Marjorie Taylor, da Universidade de Oregon, que ajudou a reabilitar a prática infantil de ter amigos invisíveis, já não como um sinal de problemas psicológicos, mas como parte saudável do desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças. Taylor e seus colaboradores recentemente estenderam a pesquisa sobre a “ilusão de agência independente” para a área da criatividade adulta.

O crítico literário e romancista David Lodge[5], por exemplo, sugere que a capacidade que os romancistas têm para criar personagens, muitas vezes seres muito diferentes de si mesmos, e dar explicações detalhadas de suas consciências é uma habilidade que ajuda ao escritor a desenvolver poderes de empatia e simpatia na vida real.

Assim como Lodge, muitas entrevistas, memórias e comentários casuais de muitos escritores são relatos dessa ilusão, em que os personagens fictícios parecem ter seus próprios mentes e vontades, embora submetidos em última instância às vontades do autor. Milan Kundera, no glossário de A arte do romance[6], define o romance como “a grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência”. Prestemos atenção à abordagem que o autor faz da personagem: ego experimental, uma espécie de fantasia que o autor veste para transitar com ela uma trama. A personagem, para Kundera, é esse ser imaginário, simulação de um ser vivo, que serve para que o autor e, posteriormente, o leitor, investiguem essas áreas que o problematizam e o obcecam, esses temas que o acompanham e que, dentro do romance, viram os pilares fundamentais do conflito.

Destes apontamentos pode-se inferir uma certa, embora discutível, centralidade da personagem no que respeita ao envolvimento emocional do leitor ou espectador com a obra. Pelo menos, é dessa forma que esta que os fala, vê a ficção: a personagem como o principal veículo para nos comunicarmos através das histórias; como o artificio do qual nos valemos os ficcionistas para colocar em movimento tradutório nossas inquietações autorais.

A importância cultural dessas “figuras da ficção”, como são chamadas frequentemente, é indiscutível. Jens Eder[7], teórico que tem dedicado sua produção intelectual ao desenvolvimento de uma visão heurística sobre a personagem, aponta:

“O significado cultural dos personagens dificilmente pode ser superestimado. Eles servem à auto compreensão individual e coletiva, à mediação de imagens da humanidade, de conceitos de identidade e papel social; eles servem à ação exploratória imaginária, à atualização de modos alternativos de ser, ao desenvolvimento de capacidades empáticas, a propósitos de entretenimento e estimulação emocional. Os seres humanos são provavelmente os únicos animais capazes de inventar mundos artificiais, desde a dramatização de crianças até a produção de textos complexos de mídia, como peças de teatro, romances e longas-metragens”[8].

Sobre as muitas e meio surdas teorias da personagem

Ao se falar em uma “teoria da personagem”, se faz referência a uma história de mais de dois mil anos; entretanto, em muitos aspectos, os enfoques parecem paralisados em seus estágios iniciais. Projetos teóricos que abranjam as os temas fundamentais no que respeita à personagem são raros e mais raro ainda é o diálogo entre as diferentes tendências. Em uma tentativa de recolher de uma forma simplificada as diferentes abordagens, Eder[9] destaca os que considera os quatro grupos teóricos fundamentais nos estudos teóricos sobre a personagem, a saber:

A escola da hermenêutica, que opera predominantemente sob a orientação da intuição e apenas minimamente sob a direção de uma teoria, entende as personagens como imagens de seres humanos e ressalta a necessidade de levar em conta o contexto histórico tanto das personagens como de seus criadores. Questões como ontologia, constituição e recepção são deixadas de lado.

Posições psicanalíticas pressupõem uma analogia entre personagens e seres humanos, complementam a abordagem hermenêutica com modelos psicanalíticos de personalidade; assim, sua área central de interesse é a psique dos personagens e dos destinatários. As questões fundamentais da ontologia e da constituição textual dos personagens, como na hermenêutica, recebem pouca atenção.

Abordagens estruturalistas e semióticas, desenvolvidas nos anos 60 e dominantes por várias décadas, nasceram como reação às posturas hermenêutica e psicanalítica. Estes enfoques enfatizam a diferença entre seres humanos e personagens, quase sempre considerando estes como nada além de complexos de signos e estruturas textuais. O estudo da recepção e das propriedades fundamentais das personagens é marginalizado, e as conexões das personagens com temas e culturas só podem ser esboçadas de uma maneira muito abstrata e redutiva.

Desde a década de 1980, evoluíram as teorias cognitivas da personagem, que buscam se ancorar nas ciências cognitivas, em particular na psicologia e na filosofia analítica. Focalizam a modelagem mais exata dos processos cognitivos e afetivos no processamento geral da informação. Os personagens são concebidos como construtos da mente humana baseados em texto, cuja descrição requer modelos de compreensão de textos e também modelos da psique humana. Se distanciam da abordagem semiótica ao prestar mais atenção ao nível de recepção e da abordagem psicanalítica porque seus modelos da psique humana fazem uma representação mais detalhada dos processos mentais e têm uma associação mais forte com a psicologia empírica. Até agora, as teorias cognitivas concentraram seu trabalho na inter-relação entre personagem e recepção e não conseguiram estendê-lo ao nível da cultura.

Apesar de ter prevalecido uma rivalidade entre as teorias, com o passo do tempo também têm ficado em evidência as fatais consequências da polarização e a necessidade de criar interconexões entre elas para conseguir abordar integralmente aspectos dos estudos de personagens que, cada uma delas, agindo por separado e surdas aos ecos de aquelas que considera concorrentes, negligencia.

Á procura de oferecer uma teoria que integrasse as outras, Eder criou o que ele batizou como o “Relógio da Personagem”[10]. O autor apresenta um modelo que busca servir para fins analíticos, mas a leitura dele foi resultou tão instigante para mim, que tenho optado por abordá-lo a continuação como uma ferramenta útil não só para os teóricos e os críticos, mas também para os escritores durante o processo criativo da narrativa.

De acordo com esta heurística, as personagens têm quatro dimensões, que podem ser examinadas com base em pontos focais dos aspectos estéticos, miméticos, temáticos e causais:

A personagem como Artefato

Principal dimensão valorizada pelo estruturalismo e a semiótica, considera as personagens em suas relações com os dispositivos estilísticos e os tipos de informação oferecida, que geram as experiências perceptivas dos espectadores e, posteriormente, podem ser esteticamente refletidas por eles. Com base nessa reflexão, os caracteres são atribuídos a propriedades gerais de artefatos, como realismo ou multidimensionalidade. A pregunta a nos fazermos para pensar as nossas personagens como artefatos é: Como e por quais meios a personagem é representada?

A personagem como ser ficcional

Entre autores e consultores existe um certo consenso em entender a personagem em sua dimensão de análogo ao humano, endossando a tese de que a personagem tem o estatuto ontológico de ser ficcional. É o aspecto com o qual estamos mais familiarizados, por ser o que predomina como modelo analítico, herança da hermenêutica e da psicanálise, e como modelo de construção — basta pensar, por exemplo, nos manuais de roteiro cinematográfico de Seger, Field, McKee, ou lembrar da citação de Kundera na parte inicial deste artigo.

Pertencem a este aspecto todas as variações teórico-práticas que exigem, em maior ou menor medida, exercícios como a criação de biografias e perfis da personagem, pesquisa com pessoas reais que tenham questões em comum com a personagem, escrever uma carta para a personagem, escrever um monólogo desde ela, etc.

Assim, para pensar a dimensão humana do nosso personagem, as interrogantes giram em torno de: Que características e relações o personagem possui como habitante de um mundo ficcional? Como o personagem age e se comporta nesse mundo?

A personagem como Símbolo

O autor usa o termo “símbolo” num sentido amplo, capaz de abranger todas as formas de significados de nível superior, nas quais os caracteres podem funcionar como sinais de outra coisa. De que coisa, pode ser inferido de suas características como seres ficcionais e artefatos. Em palavras de Eder:

No que diz respeito ao simbolismo, a questão de quais significados indiretos as personagens têm então se transforma na questão de quais significados os espectadores devem inferir. Os espectadores podem processar ainda mais as informações de caracteres captadas no processo de construção do modelo mental. Eles podem associar diferentes significados às propriedades de um ser fictício, tais como tipos e grupos sociais, virtudes e vícios gerais, medos e desejos reprimidos, antítipos míticos e religiosos ou personalidades históricas.[11] [12]Para pensar a dimensão simbólica da nossa personagem, nos indagamos sobre: O que o personagem representa? Que significados indiretos ele transmite?

A personagem como Sintoma

Nessa perspectiva, as personagens são consideradas fatores causais ou consequências de elementos reais de comunicação; por exemplo, como o resultado do trabalho de seus criadores, como toda a carga contextual deles, ou como modelos para os leitores ou espectadores. Sobre esta dimensão, Eder explica:

“Ao considerar os filmes no contexto da crítica cultural, os atributos sintomáticos das personagens novamente desempenham um papel mais importante, pois podem elucidar as mentalidades culturais ou as consequências sócio-culturais de determinados filmes. Em todos esses casos, a análise deve recair sobre os aspectos tratados anteriormente: corporeidade, psique, sociabilidade e comportamento; modo de representação e propriedades de artefato; a motivação e a constelação formam a base da investigação do simbolismo e dos sintomáticos dos personagens.”[13] [14]

Para analisar a sintomatologia das nossas personagens, o recomendável seria fazer uma investigação íntima profunda e, se possível, estabelecer um diálogo crítico e criativo com pessoas diversas, que nos leve a responder (e a talvez nos surpreendermos com a resposta, que pode nos desvelar detalhes que não tínhamos nem imaginado): o que faz com que a personagem seja como é? Que efeitos ela produz?

De uma forma geral, os aspectos simbólicos e sintomáticos da personagem carregam o peso temático do livro ou do filme. Carregam, também, a postura ética do seu autor e é neste sentido que esta dimensão é tida como uma questão externa à obra e com a qual o autor não devia se preocupar.

Velhas novas discussões

Voltamos aqui ao velho, mas cada vez mais aceso, debate entre as duas posturas: os que defendem a obra per se, cujo autor não tem compromisso nenhum, exceto o compromisso com sua arte; e os que apontam para o entendimento da obra como uma construção com causas e efeitos histórica, social, económica e culturalmente contextualizadas e, por tanto, com uma responsabilidade social que perpassa a obra e da qual o autor não pode se isentar. Esse debate, sobra dizer, está longe de chegar a um consenso.

Na construção das personagens, o autor decide os atributos das mesmas, ele seleciona uns traços em detrimento de outros, dota essa figura de virtudes e defeitos, posiciona ela num contexto e não em outro, e todas essas decisões demiúrgicas dialogam entre si para criar um construto que, querendo o autor não, é uma intrincada rede de espelhos identitários para o público.

A pergunta não é apenas quais são os motivos que levam o autor a colocar essa combinação de informações em jogo na sua personagem, esse reservatório de atributos humanos, mas também (e talvez principalmente) se ele está fazendo essas decisões em plena consciência e até que ponto ele está deixando a inércia trabalhar por ele e repetir padrões opressivos e estereótipos que hoje não passam impunemente pelo leitor ou espectador, essa entidade que está entendendo, cada vez mais, seu lugar de poder como receptor daquele discurso.

Desse grau de consciência dependerá, me parece, a capacidade do autor de seguir adiante com sua obra e endossar as atitudes de suas personagens na sobrevida que elas possam chegar a ter uma vez que se fecha o livro.

Se quisermos entender como os personagens afetam seus receptores, precisamos entender de que maneira eles podem desencadear sentimentos. Eder oferece o seguinte modelo de recepção: “Percebemos as representações do personagem do filme, construímos modelos mentais dos personagens, associamos a esses significados indiretos e inferimos causas e efeitos socioculturais”. [15] [16]

Para o autor, esse processo de surgimento das respostas emotivas no receptor não aconteceria apenas na dimensão da personagem enquanto ser ficcional, mas tipos específicos de emoção estariam ligados a cada nível de recepção. Pode parecer uma obviedade dizer neste ponto que as personagens também podem despertar sentimentos também como artefatos, símbolos e sintomas, mas não podemos passar por alto o fato de que as discussões dramatúrgicas no que respeita à emoção têm negligenciado essas dimensões, ao se concentrar na noção de personagem como análoga à noção de pessoa. 

Autor – Personagem – Leitor: um vínculo empático

Comecei este artigo comentando a importância que os escritores dão ao exercício que, apesar dos riscos dado sua ampla margem de interpretação, chamarei de empático. Pois bem, a empatia, segundo Keen[17], “pode ser definida como uma partilha espontânea de sentimentos, incluindo sensações físicas no corpo, provocada por testemunhar ou ouvir sobre a condição de outra pessoa”[18]. Poderíamos, no nosso caso, acrescentar o verbo escrever.

Teóricos e especialistas do discurso que realizam pesquisas empíricas em leitura literária associam uma variedade de técnicas narrativas à empatia. Keen[19] explica que o principal recurso são as estratégias de identificação com as personagens, que incluem as escolhas sobre aspectos específicos da caracterização, tais como nomeação, descrição, implicação direta e indireta de traços, dependência de tipos, polaridades, redondeza, ações representadas, funções nas trajetórias, qualidade da fala atribuída e modo de representação da consciência.

Neste quesito, Smith[20] entra em divergência com Keen. Ele explica que, quando se fala em “identificação” com as personagens, tende-se a agrupar três fenômenos diferentes, mas interdependentes, a saber: reconhecimento (ser capaz de individualizá-los e identificá-los), alinhamento (em termos da vinculação espacial e o acesso objetivo e subjetivo que temos a informações sobre as personagens), lealdade (em termos morais e emocionais, pela maneira como a narrativa os representa). Para se referir à interação sistemática dos três, Smith criou o conceito de “estrutura da simpatia”.

O segundo grupo de estratégias narrativas associadas à empatia dizem respeito à situação narrativa (incluindo ponto de vista e perspectiva): a natureza da mediação entre autor e leitor, a pessoa da narração, a localização implícita do narrador, a relação do narrador para os personagens, a perspectiva interna ou externa dos personagens, incluindo em alguns casos o estilo de representação da consciência dos personagens.

Como vemos, cada uma das escolhas que o autor faz e que estão relacionadas com o exercício empático de escrever ficção, atravessam as quatro dimensões da personagem propostas por Eder, e não só a de personagem como figura análoga ao ser humano.

Embora, como escritor, eu queira afetar a mente do leitor – educar e iluminar, o que desejo ainda mais é sacudir o coração do leitor. Eu quero que minhas palavras abram um portal através do qual o leitor pode deixar o eu, migrar para algum outro céu humano e retornar “disposto” para a alteridade.[21] [22]

Quando a possibilidade, a habilidade e a disposição para inventar universos de faz de conta, se unem à oportunidade de circulação, pontes novas se criam; algumas delas, levadiças, outras, permanentes. Pontes entre nós, levantadas por esses estranhos artefatos feitos de letras e de tanto mais, chamados personagens, símbolos e sintomas de tanta vida e de tanta morte.  Personagem, que em sua etimologia vem do latim persona, que vem do etrusco phersu, “máscara teatral”, do grego prósopon, “face, máscara”. Em suma, um ser que se aproxima daquele “nunca real e sempre verdadeiro[23]”, que diria Artaud[24] sobre a arte.


[1] CANETTI, Elias. A consciência das palavras. São Paulo: Companhia das letras, 2011, s/p.

[2] A autora, comparada com entusiastas como Martha Nussbaum e Steven Pinker, é cética com relação a tais efeitos. Ela é enfática em sua posição: “Podemos afirmar a robustez da empatia narrativa, como uma transação afetiva realizada através da escrita e leitura da ficção, mas devemos hesitar em amarrar a empatia dos leitores a certos resultados da ação altruísta. A empatia narrativa não precisa necessariamente executar renovações da virtude cívica nem do comportamento individual para ser reconhecido como um componente central da resposta emocional à ficção, cuja perda deve ser lamentada”.

[3] KEEN, Suzanne. Empathy and the Novel. New York: Oxford University Press, 2007, p. 127.

[4] FREUD, 1907, apud KEEN op. cit.

[5] LODGE, David. Consciousness and the Novel: Connected Essays. Cambridge: Harvard University Press, 2002, p. 42.

[6] KUNDERA, Milan. A arte do romance. 2009, p. 136.

[7] EDER, Jens. Film Characters: Theory, Analysis, Interpretation (English outline of the German monograph: Jens Eder: Die Figur im Film. Grundlagen der Figurenanalyse). Marburg: Schüren, 2008, p. 6.

[8] Tradução livre do original: “The cultural significance of characters can hardly be overestimated. They serve individual and collective self-understanding, the mediation of images of humanity, of concepts of identity and social role; they serve imaginary exploratory action, the actualization of alternative modes of being, the development of empathic capabilities, entertainment purposes and emotional stimulation. Humans are probably the only animals capable of inventing artificial worlds, from the children’s role-playing to the production of complex media texts like plays, novels and feature films”.

[9] EDER, Jens. Film Characters: Theory, Analysis, Interpretation (English outline of the German monograph: Jens Eder: Die Figur im Film. Grundlagen der Figurenanalyse). Marburg: Schüren, 2008, p. 20 et seq.

[10] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 22 et seq.

[11] Tradução livre do original: With regard to symbolism, the question of what indirect meanings characters have then changes into the question of what meanings the viewers are supposed to infer. The viewers can further process the character information grasped in the process of mental model building. They can associate different meanings with the properties of a fictional being, such as social types and groups, general virtues and vices, repressed fears and desires, mythical and religious antetypes, or historical personalities.

[12] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 32.

[13] Tradução livre do original: “When considering films in the context of cultural criticism, the symptomatics of the characters again plays a more important role because it can elucidate cultural mentalities or the socio-cultural consequences of particular films. In all these cases, the analysis must fall back on the aspects treated previously: corporeality, psyche, sociality, and behavior; mode of representation and artifact properties; motivation and constellation form the foundation of investigating the symbolism and the symptomatics of characters”.

[14] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 32.

[15] Tradução livre do original: “we perceive the character depictions of the film, build up mental models of the characters, associate with these indirect meanings, and infer socio-cultural causes and effects”

[16] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 34.

[17] KEEN, Suzanne. Empathy and the Novel. New York: Oxford University Press, 2007, p. XX.

[18] Tradução livre do original: “a spontaneous sharing of feelings, including physical sensations in the body, provoked by witnessing or hearing about another’s condition”.

[19] KEEN, Suzanne. Empathy and the Novel. New York: Oxford University Press, 2007, p. 93.

[20] SMITH, Murray. Engaging Characters: Further reflections in EDER, Jens; FOTIS, Jannidis e SCHNEIDER, Ralf. Characters in Fictional Worlds. Revisionen 3. Berlin/New York: De Gruyter, 2010. p. 234.

[21] Tradução livre do original: “While, as a writer, I want to affect the reader’s mind—to educate and enlighten—what I wish for even more is to jolt the reader’s heart. I want my words to open a portal through which the reader may leave the self, migrate to some other human sky and return ‘disposed’ to otherness”.

[22] KIDD, 2005, apud KEEN, 2007, p. 124.

[23] Tradução livre do original: “Jamais réel et toujours vrai, non pas de l’art, mais de la ra-tée du Soudan et du Dahomey”.

[24] ARTAUD, Antonin. Jamais réel et toujours vrai. Marseille: Musée Cantini,1945. Disponível em: < https://br.pinterest.com/pin/701717185659452457/?lp=true >. Acesso em: 03/08/18.

Fantasmas

Poema, Português

Eles gostam dos meus nomes.

Aplaudem a multidão que trago 

pendurada em sobrenomes e alcunhas

insígnias sobreviventes da ventania

demoram meu título em suas línguas 

músculos de magias violentas

María, a casa sem ele é uma casa vazia

María, a casa vazia é um país morto

María, a tua casa, o teu pai e o teu país 

não cabem mais nas palavras 

que você conhece.

Eles me deram um novo alfabeto.

Gostam de me chamar cedo

invariavelmente eu aceito o convite

após o café da manhã

arranco o sorriso as unhas a sede

deixo um volto logo

insinuado nas costas 

e saio sem porta sem muro 

sem ver a previsão do tempo

saio de mim com pressa

fio de Ariadne feito rabicó.

Eles modelam a minha prosódia.

Nunca sei se volto pronome 

às vezes me duelo

como duelen los verbos avulsos

alguns passeios com eles me deixam 

a sensação esburacada de complemento 

circunstancial de lugar de tempo de companhia 

saio de mim sem saber se regresso 

se nos reunimos todas eu 

no elo das quatro palavras 

que nos nomeiam.

Eles me fazem sentir bem-vinda.

As histórias que (não) nos contam

Debate, Português

Em O Herói de mil faces, o exaustivo estudo sobre os mitos mundiais do Herói publicado em 1949, Joseph Campbell defende que todas as narrativas são, basicamente, a mesma história, contada e recontada infinitas vezes em infinitas variações e que todas, conscientemente ou não, seguem os antigos padrões do mito e podem ser entendidas dentro da estrutura que ele batizou como “A Jornada do Herói”. 

A ideia desse “monomito” como um padrão narrativo subjacente a toda e qualquer história que jamais se contou, se popularizou a níveis planetários e ganhou status de bíblia nos estúdios hollywoodianos, depois de que Christopher Vogler o retomara em seu best-seller A Jornada do Escritor: Estruturas Míticas para Escritores

O pensamento de Campbell parte das ideias do psicólogo suíço Carl G. Jung, em suas teorias sobre os arquétipos e o inconsciente coletivo da humanidade. Para Jung, os arquétipos atuam como “padrões de comportamento instintivo” e guiam a experiência humana, são uma fonte de símbolos psíquicos, da qual tiramos uma predisposição para reagir, agir e interagir de determinada forma. Assim, nas histórias que a humanidade conta desde suas origens, os arquétipos vão se repetindo ininterrumpidamente. 

Amplamente estudada e difundida desde sua aparição, a jornada do Herói parece irrefutável de tão maleável. 

In absentia

Uma das principais críticas ao modelo é sua falta de representatividade no que diz respeito à jornada das personagens femininas. 

“A Jornada do Herói é por vezes criticada por ser uma teoria masculina, engendrada pelos homens para impor seu domínio, e com pouca relevância em relação à jornada singular e bem diferente do sexo feminino. Pode haver algum viés masculino embutido na descrição do ciclo do Herói, já que muitos de seus teóricos eram homens, e admito abertamente: sou um homem e não consigo ver o mundo senão pelo filtro do meu gênero. Ainda assim, tentei levar em conta e explorar as maneiras em que a jornada da mulher difere da dos homens. Acredito que grande parte da jornada é igual para todos os seres humanos, visto que compartilhamos as mesmas realidades: nascimento, crescimento e declínio. Contudo, evidentemente, quando se trata de uma mulher isso impõe ciclos, ritmos, pressões e necessidades distintas” (VOGLER, 2006, p. 20). 

Parece uma postura bastante sensata, o leitor concordará comigo. Porém, esse mesmo autor deixa claro o machismo embutido em seu raciocínio quando, mais adiante, explica: “A necessidade masculina de sair e vencer obstáculos, realizar, conquistar e possuir pode ser substituída na jornada da mulher pelo empenho em preservar a família e a espécie, fazer um lar, dedicar-se às emoções, chegar a um acordo ou cultivar a beleza” (VOGLER, 2006, p. 16). 

Não parece essa frase uma outra maneira de dizer que a jornada da mulher é ser “Bela, recatada e ‘do lar'”, como foi descrita Marcela Temer, no perfil publicado pela revista Veja? Hoje, em pleno século XIX, uma jornalista escolhe apresentar a primeira dama ressaltando nela estas virtudes femininas que parecem extraídas de textos como “La perfecta casada” (1584), do fray Luis de León, ou “La instrucción de la mujer cristiana” (1528), de Juan Luis Vives, hoje tão carentes de sentido, por um lado, e ainda tão infeliz e assustadoramente vigentes nas nossas sociedades, por outro. 

Mas, se a história das mulheres evolui, como é possível que os modelos para contar nossas histórias não evoluam junto? Como é possível que, como diria De Oliveira (1991, p. 12), continuemos numa linguagem e num pensamento que nos pensa e nos descreve in absentia? Neste sentido, Maureen Murdock, autora de “The Heroine’s Journey” (1990, p. 56) defende: “Uma parte tão grande da verdade da mulher tem sido obscurecida pelos mitos patriarcais, novas formas, novos estilos e novas linguagens devem ser desenvolvidos pelas mulheres para expressar seu conhecimento”. 

Se nas histórias fundacionais da nossa civilização ocidental e patriarcal a divindade feminina foi apagada e relegada a papéis secundários (María, por exemplo), quando não vilanizados (que dizer de Eva, de Lilith?), como partir apenas delas para elaborar um modelo que se deseja único porém o suficientemente maleável para ser abrangente? Só se esse “único” quiser dizer, na verdade, masculino, e esse “abrangente” quiser dizer que o outro se mutila para que eu possa aceitá-lo.

Com a expansão do poderio das religiões judaico-cristãs, essencialmente patriarcais, — onde não existe a imagem arquetípica da mulher — ficamos órfãs de modelos de heroísmo feminino. Marie-Louis Von Franz, em “O feminino nos contos de fadas” (1995, p. 16), explica as consequências dessa orfandade:

“A mulher fica incerta quanto à sua própria essência: não sabe nem o que é, nem o que poderia ser. Só lhe restam duas soluções: regredir a um modelo de comportamento instintivo e agarrar-se a ele para resistir às pressões que sofre por parte da civilização, (…) ou identificar-se inteiramente a ele, tentando construir uma imagem masculina de si mesma para compensar a incerteza que sente interiormente quanto à sua natureza. É assim que encontramos ‘a esposa devotada’, ‘a perfeita dona de casa’ e ‘a mãe que sacrifica tudo pelos filhos’, o que é bastante meritório se a mulher não tiver perdido aí toda sua personalidade e não fizer com que seu familiares paguem as frustrações sofridas para realizarem tais proezas. Ou, inversamente, tentará assemelhar-se aos homens, pondo tudo de si em sua carreira, em sua ambição, etc., para isso sacrificando toda vida sentimental e individual” (VON FRANZ, 1995. p. 16).

Murdock chega à mesma conclusão quando diz: “As mulheres emularam a jornada heróica masculina porque não havia outras imagens para emular; uma mulher era ‘bem sucedida’ na cultura orientada para o masculino ou dominada e dependente como fêmea” (1990, p. 10).

Aceitamos o suposto caráter unisex e universal da proposta de Vogler como parte das inércias que nos permitimos, na ilusão de uma igualdade que, nos termos que é apresentada, é mutilante, porque consiste na masculinização da mulher sem que aconteça a feminização do homem. 

Mas, então, qual seria a jornada que essa Heroína desprovista de modelos femininos poderia executar? Não obstante a resposta esteja em construção e a produção teórica ao respeito ainda não tenha uma voz capaz de competir, em termos de popularidade, com o best seller do Vogler, existem duas autoras que chamam minha atenção pelo olhar tão diverso e, ao mesmo tempo, complementar, com que discutem a jornada arquetípica da Mulher.

Maureen Murdock e “The Heroine’s Journey”

Quando se quer fazer um livro contestatário como o que Murdock tinha em mente, é impensável não começar por estudar a fundo aqueles autores canônicos no assunto que estivermos tratando. Por isso, quando Murdock estava trabalhando em seu livro, uma das primeiras coisas que fez foi atrás do Joseph Campbell, interessada em conhecer seu ponto de vista.

“Eu me surpreendi quando ele respondeu que as mulheres não precisavam fazer a viagem. “Em toda a tradição mitológica a mulher está lá. Tudo que ela precisa fazer é perceber que ela é o lugar ao que as pessoas estão tentando chegar. Quando uma mulher percebe a maravilhosa personagem que ela é, ela não fica confusa com a noção de ser pseudo macho”. Essa resposta me aturdiu; a encontrei profundamente insatisfatória. As mulheres que eu conheço e com as que trabalho não querem estar lá, naquele lugar ao que as pessoas estão tentando chegar. Elas não querem encarnar Penélope, esperando pacientemente, infinitamente tecendo e destecendo. Elas não querem ser servas da cultura masculina dominante, prestando serviço aos deuses. Elas não querem seguir o conselho do pregador fundamentalista e voltar para casa. Elas precisam um novo modelo que entenda quem é e o que é uma mulher.” (MURDOCK, 1990. p 2).

Com uma aproximação mais desde o terapéutico, mas lançando mão de uma riquíssima compilação que recupera os mais diversos e remotos mitos com protagonismo feminino, Maureen Murdock publicou este texto em 1990. Sua proposta é repensar a busca que a mulher empreende durante sua vida e oferecer um modelo capaz de entender essa busca desde a experiência coletiva e individual que define o feminino. Embora não seja o objetivo principal da autora, tal modelo pode ser usado para auxiliar na criação de personagens.

A trajetória da Heroína de Murdock começa com a busca da Heroína pela sua identidade, quando, em um momento que se mostra desolador, o ser antigo parece não caber mais nela. Nesta etapa acontece uma separação ou rejeição do feminino (através da figura da mãe), que tem sido desenhado, culturalmente, como passivo, manipulador e improdutivo, em outras palavras: inferior. 

Segue uma identificação com o masculino (na relação com o pai), em que a Heroína procura validação e sucesso na cultura patriarcal, através de aliados e mentores nesse mundo (que funciona em torno do fazer e negligencia o ser), onde ela terá que enfrentar uma série interminável de desafios adictivos e extenuantes de conquista, dominação e produção. Encontrará um sucesso e colherá seus frutos, mas será um sucesso ilusório e temporário, pois nada do que ela faça será suficiente porque, mesmo tendo alcançado seu objetivo, o fato dela ser mulher fará com que ela sempre tenha que provar que merece esse lugar. 

A Heroína, eventualmente, despertará dessa ilusão para se descobrir morta espiritualmente: na jornada pela aprovação masculina, ela tem sacrificado sua essência. A Heroína sentirá a urgência de se reconectar com o poder feminino esquecido e terá que acarretar com todas as consequências que isso implica: “Quando uma mulher decide não seguir mais as regras patriarcais, ela fica sem guias que lhe digam como agir ou como sentir. Quando ela se resiste a perpetuar formas arcaicas, a vida vira empolgante — e aterrorizante” (MURDOCK, 1990, p. 8).

A etapa final é a integração do masculino e do feminino e a recuperação da nossa dualidade natural. Nela, a mulher pode valorizar e responder a suas próprias necessidades em plenitude e, uma vez em controle e em paz consigo mesma, contribuir para a satisfação às necessidades dos outros a seu redor. 

Kim Hudson e “The Virgin’s Promise”

Neste livro de 2009 a autora faz a seguinte provocação: Se o Herói representa apenas uma das faces do processo de individuação, será que é possível encaixar todas as histórias dentro da trajetória que ele descreve? Podemos realmente assegurar que todos os arquétipos coincidem na mesma estrutura? Hudson considera que não. 

Em sua proposta alternativa, ela sugere que cada uma dessas fases do ser (união consigo mesmo, união com o outro e união com o cosmos), é representada por arquétipos diferentes e pode gerar diferentes trajetórias padrões. A partir da análise de obras literárias e cinematográficas, Hudson traça o percurso do arquétipo da Virgem, que seria a contraparte feminina do Herói.

A Virgem começa sua história no Mundo Dependente, onde se vê impelida a suprimir seu verdadeiro ser. No começo ela tem medo de ir contra a vontade da comunidade e realizar seu próprio sonho, então paga o preço da conformidade, que é ser infeliz. Mas então ela tem a Oportunidade para brilhar, um momento que permite a ela revelar seu sonho, seu talento, ou sua verdadeira natureza. Ela reconhece seu sonho ao vestir-se para o papel, mesmo que seja temporalmente. 

Uma vez que a Virgem vê seu desejo como uma realidade tangível, ela cria um Mundo Secreto no qual ela possa realizá-lo. Encorajada por essa primeira experiência, a Virgem vai para trás e para a frente, alimentando seu sonho no Mundo Secreto, enquanto o reprime no Mundo Dependente. Eventualmente, ela não consegue se encaixar no Mundo Dependente e é pega brilhando, o que faz com que seu desejo fique ao descoberto. Nesta crise, a Virgem tem um momento de clareza e abandona o que tem aprisionado ela até agora. Isso deixa o reino em caos e à espera de que ela volte à conduta adequada. 

A Virgem vagueia no deserto tratando de decidir se ela vai se minimizar de novo para fazer as pessoas felizes ou vai escolher viver seu sonho. A Virgem decide seguir seu sonho e se apresenta ao mundo dependente tal como ela é: escolhe sua luz. Ela perde a proteção e isso resulta terrível, mas o reino se reorganiza a si mesmo para acomodar à Virgem florescida, se transformando num reino mais brilhante. 

Se com Murdock temos a insatisfatória resposta do Campbell, com Hudson temos uma aparentemente boa reação do Vogler, que acabou escrevendo o prólogo do livro e reconhecendo que a jornada do Herói é deficiente na medida em que tem uma polarização para o masculino. “O que eu encontrei nestas páginas foi uma reveladora re-escrita da história universal humana desde a perspectiva feminina com uma linguagem e um pensamento que eu nunca teria considerado” (VOGLER, 2009 apud HUDSON, 2009, p. XIII-XIV. Tradução própria). E que, pelo jeito, continua sem considerar. As reedições de “A jornada do escritor” posteriores à publicação de Hudson não incluem absolutamente nenhuma mudança de perspectiva no que respeita às personagens femininas. 

A heroicidade que nos pertence

Hudson reconhece o arquétipo do Herói/Heroína como sendo de natureza masculina e defende que o arquétipo da Virgem é a sua contraparte feminina — sendo que essa natureza é independente do gênero. Ela, em seus exemplos, não se baseia no sexo da personagem e sim no pólo ao qual ela se aproxima mais; se for o masculino, será um Herói/Heroína, e se a tendência for para o feminino, será uma Virgem/Príncipe. Nesse raciocínio, Hudson afirma, por exemplo, que Rocky, o popular lutador de boxe, é uma Virgem. 

Me pergunto se não vale a pena repensar o conceito de heroicidade, feminizá-lo como faz Murdock, em vez de dizer que ela é predominantemente masculina? A ideia não é tirar espaços ao feminino e sim recuperar aqueles dos que foi banido.

“É necessário redefinir herói e heroína em nossas vidas de hoje. A busca heróica não é pelo poder, pela conquista e a dominação; é uma busca para trazer balance para nossas vidas através do matrimônio dos aspectos feminino e masculino de nossa natureza. A heroína moderna tem que confrontar o medo de recuperar sua natureza feminina; seu poder pessoal; sua habilidade de sentir, curar, criar, mudar estruturas sociais e moldar seu futuro.” (MURDOCK, 1990, p. 129).

Os próprios substantivos “Virgem” ou “Princesa”, mesmo que tenham origens mitológicas e sejam os empregados por Jung, têm um peso gigante relacionado com o que se espera de uma mulher e, já que estamos tentando reescrever a nossa história, o ideal sería, me parece, cuidar também as palavras com as quais nós, mulheres, nos nomeamos. Neste sentido, descrever a trajetória feminina como a trajetória de uma Virgem (uma mulher que ainda não conhece o prazer), é altamente problemático e paradoxal. 

Num extremo oposto a Murdock, Hudson foge de qualquer ideia pela qual ela possa ser tildada de feminista. Pensando no mercado hollywoodiano em que seu livro pretendia circular, é compreensível que ela tivesse ressalvas. Sua reflexão, mesmo que caia no erro de Vogler de homogeneizar as experiências feminina e masculina, ao obviar séculos de apagamento e opressão, não deixa de oferecer caminhos interessantes para pensar a mulher na ficção. No que respeita à jornada em si, o trabalho de Hudson é libertador e de uma clareza invejável. 

Ambos trabalhos surgem de uma sensação de insatisfação com relação aos modelos existentes, todos de fonte masculina, nos quais identificaram incompatibilidades e insuficiências relacionadas à trajetória das personagens femininas. Murdock baseia sua reflexão nas mitologias e na psicologia jungiana, como Campbell, Hudson busca oferecer uma contraparte a Vogler e, nesse sentido, ambos compartilham a vocação manualística que levou “A jornada do escritor” à categoria de livro fundamental para quem se dedica à escrita. 

As histórias que nos contam

Se nos permitissemos um exercício de simplificação do arcabouço teórico de ambas autoras, veríamos como, em essência, a jornada de transformação da Virgem de Hudson e a da Heroína de Murdock têm muito em comum. As duas autoras percebem como a mulher, na realidade e na ficção, deve ser, não o que ela deseja, mas o que os outros esperam dela, para manter o seu entorno estável (família, casal, empresa, universidade), enquanto ela se mutila. 

Diferente do Herói masculino, convocado a proteger sua comunidade de uma ameaça externa numa jornada de auto-sacrifício e conquista, a ameaça que a Heroína/Virgem enfrenta está em seu próprio entorno, hostil para o desenvolvimento de sua verdadeira natureza ou desejo; sua jornada é na procura pelo autoconhecimento e realização;  sua luta, pelo direito a ser (que nos remete à vida interna) e não só a agir (que nos remete à vida externa).

Seja sob a figura da Heroína ou sob a da Virgem, na experiência coletiva das mulheres, nossas jornadas de transformação trazem caos e mudanças às nossas comunidades, que precisam ser “chacoalhadas” e mudar para melhor. Já a aventura do Herói traz estabilidade e segurança a seu entorno, que ele não precisa transformar, porque está feito a sua imagem e semelhança. 

As autoras também coincidem nas nefastas consequências que têm para a Heroína/Virgem não fazer a viagem. Hudson explica que os arquétipos têm um lado luminoso e outro escuro, e é o fato de realizar ou não nossa jornada de transformação que tendemos para um extremo ou para o outro. As personagens femininas que ficam no lado sombrio, seja por não executar a jornada ou por fracassar nela, são retratadas sob as figuras da mulher louca, da mulher depressiva e da mulher suicida, padrões que, com maior ou menor consciência, são frequentemente reforçados nos relatos.

Assim como somos fruto dos exemplos aos quais nos remetemos e dos ineditismos aos que nos aventuramos, somos, também, desde a expressão artística e acadêmica, responsáveis pela produção e a perpetuação de umas narrativas em favor de uma visão de mundo e em detrimento de outras. Na vida real e na ficcional escolhemos nossos objetos de mimese e essa é uma opção política. Nós, escritores, não estamos, de jeito nenhum, isentos de responsabilidade. 

A quantidade de personagens femininas que acabam em insanidade, depressão e suicídio é tão alta que virou clichê. Talvez seja mais fácil contar a mulher que não se atreve a desafiar seu entorno para levar a cabo sua viagem. Talvez seja, apenas, mais conveniente. Quem sabe continuamos contando essa história porque, privadas de modelos femininos aos quais emular, e presas numa cultura que, a paso muito lento estamos feminizando, crescemos com uma falta ontológica e arquetípica de bússola identitária.

Lá é longe, lá é depois, lá é incerto — nós estamos aqui

Para Hudson, para Murdock, e me atrevo a assegurar que para qualquer mulher que leia os textos delas, a experiência descrita é tão conhecida que parece, inclusive, óbvia. Mas a necessidade de criarmos esses outros modelos fica clara quando vemos que para os maiores nomes na área, aqueles que produziram os textos “fundacionais” dos estudos sobre o Herói, a trajetória da Heroína é uma zona nebulosa sobre a qual eles não tem se dado à tarefa de refletir em verdadeira profundidade. 

Custa acreditar que as mulheres realmente estejamos naquele “lá” ideal de que Campbell falava em sua resposta a Murdock. Estar já no destino quer dizer que devemos ficar estáticas porque o que estamos vivendo é tudo que o mundo tem para nos oferecer.  

Não será a postura do Campbell um eco desse olhar que tem a mulher como musa dos poetas, como figura conformada que precisa se preservar do jeito irreal que o patriarcado acha que ela é  — bela, casta, passiva, calada? Não é essa a postura que prevaleceu na Idade Média e no Renascimento e que significou o estabelecimento absoluto do ilusão da supremacia do masculino? Esse argumento não se parece demais com o conformismo que o catolicismo tem nos vendido, com direito ao estoicismo de oferecer a segunda bochecha para um novo soco, tudo sob a promessa da vida eterna? 

Não estamos “lá” porque estamos longe de ser tudo que podemos ser. Ainda são muitos os apagamentos, as opressões, as violências e os silenciamentos. Ainda muitos nos querem belas, recatadas e do lar.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

DE OLIVEIRA, Rosiska Darcy. Elogio da diferença. O feminino emergente. São Paulo: Brasiliense. 1991. 150 p.

CAMPBELL, Joseph. El héroe de las mil caras. México: Fondo de Cultura Económica, 1972. 241 p. 

DE LEÓN, Fray Luis. La perfecta casada. 1584. Disponível em: <http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/la-perfecta-casada–1/html/ffbbf57a-82b1-11df-acc7-002185ce6064_3.html&gt; Acesso em: 31/07/2017.

JUNG, Carl Gustav. Los arquetipos y el inconsciente colectivo. Buenos Aires: Paidós, 1988. 182 p.

HUDSON, Kim. The virgin’s promise: writing stories of feminine creative, spiritual, and sexual awakening. Los Angeles: Michael Wiese Productions, 2009. 192 p.

LINHARES, Juliana. Marcela Temer: bela, recatada e “do lar”. Revista Veja, 18 abr 2016. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/brasil/marcela-temer-bela-recatada-e-do-lar/&gt;. Acesso: 31/07/2017.

MURDOCK, Maureen. The Heroine’s Journey. Boulder: Shambhala, 1990. 204 p.

VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. 301 p.

VON FRANZ, Marie-Louise. O feminino nos contos de fadas. Rio de Janeiro: Vozes. 1995. 262 p.

Como é coisa da vida dos mortos, viajar

Conto/Cuento, Português

Antes viajei tão pouco que me sinto roubado pela vida, pai. É sério. E olha que tentei, mas como é caro viajar; como é sempre um luxo viajar; como é coisa da vida dos outros, viajar. Por isso agora, com a mulher na Venezuela, uma filha no Brasil e outra na Alemanha, estou saldando uma dívida antiga comigo mesmo. Não do jeito que eu teria desejado, mas já é algo.

Tinha anos me preparando para essa aposentadoria. Mas é uma grande mentira que alguém possa se preparar coisa nenhuma. Tinha sido necessária tanta degradação, tanto ensañamiento? No começo, para mim só existiu o não entender e o não saber se tinha alguém a quem pedir explicações. Logo vi que não tinha ninguém. Eu sempre tive certeza disso, mas, nos últimos tempos, assustado, comecei a duvidar. O que eu podia fazer agora, no meu novo estado, quais eram minhas novas atribuições, quais as vantagens e quais as limitações? Aliás, tinha limitações? Era o choque da folga prematura.

Aquela sala fria, fechada, metálica, me oprimia. Me mandaram esperar, mas ninguém vinha me dizer nada. Então uma força, uma sucção, me levou de um pulo até um jardim. E lá estavam elas três, La Nené, María e Nana, sendo abraçadas e acariciadas, três rostinhos arrasados, três corações amarrotados como uvas passas. A mesma força que me levou até aí, de repente me fez começar a fazer a dancinha que, tempos atrás, eu tinha convertido em símbolo durante uma viagem familiar a Cuba, numa tentativa de tirar da minha bengala, última aquisição do quebranto, esse peso de velhice e pouca mobilidade, só que agora eu fazia aquilo e só ela, só Maria, me via enquanto eu dançava engraçadinho e terminava com jazz hands e meu tradicional “qué hubo?”.

Me aproximei, invisível e volátil, entre os presentes, e devo confessar que não foi um bom passeio. Não tinha como sê-lo. Ainda bem que durou pouco. De novo fui puxado até o jardim e meu corpo começou a se mexer vez mais e mais outra, num loop dançante e os “que hubo?” como uma espécie de remix sentimental. Era ela, María, que se abstraía de tudo e me fazia acontecer do jeito que ela queria. Eu, chegando dançante no meu funeral, de chapéu de aba curta, bengala e sorrisão.

Deduzi então que existia uma sobrevida, mas que ela não dependia já da minha vontade, e sim daqueles que me pensavam. Batizei esses momentos como “convocações”. Pena que não consigo sistematizar o processo e fazer algum manual para ajudar aos colegas que ainda estão do outro lado da cerca.

Boa menina, tua neta, pai. Me pensar dançando é o melhor jeito de me pensar.

*

Mas, luto é luto, e de um luto pós hospital, pós hospital público de sala e imundícias compartilhadas, não se sai ileso. Nos dias seguintes, os convites foram desastrosos. Os pesadelos se apoderaram das meninas e de La Nené. Aí não tive outra opção a não ser ficar pulando de uma para outra e fugir da agonia que os subconscientes teimavam em lembrar. Mesmo que eu quisesse – e eu não queria – não conseguia ficar muito tempo com ninguém que tivesse vivido a agonia junto comigo.

Então ia visitar a Mamá Ucha, que desde o primeiro dia recuperou as imagens mais bonitas e refrescantes e as usou como tábua de salvação. Eu criança, jogando baseball com meus irmãos sem quase conseguir segurar o taco de beisebol direito. Eu, adolescente, defendendo com unhas e dentes e toda a rebeldia que cabia em meus hormônios meu direito a deixar crescer o cabelo. Eu, na universidade, namorando La Nené, com seu cabelão comprido e pretíssimo, com seu ar tímido-elegante e sua cintura fininha; eu levando-a para conhecer a família.

Foi um refúgio habitar as lembranças dispersas da minha mãe, da minha velha e impossivelmente triste mãe. Coitada da velhinha. Nenhuma mãe no mundo devia sobreviver aos filhos. Isso é um erro da natureza, da física e das metafísicas. Mamá Ucha também escorregava, é claro. Volta e meia se deixava arrastar a imagens do lado besta da saúde e então eu fugia. Ficar era reviver algo que já não me doía no corpo, mas que me espichava a alma, e alma é tudo que eu tenho agora.

*

Demorei um tanto para entender que minha relativa autonomia não se limitava a escolher qual convocação atender, mas que se estendia inclusive a me antecipar e eu mesmo possibilitar as situações. Existia a opção de semear sonhos e lembranças? Esse já era outro patamar. O além começou a ficar mais interessante.

Os colegas daqui, você os conhece bem, pai, são uma quadrilha de defuntos por vocação, alguns realmente queridos e divertidos, e outros — que eram uma praga da que eu fugia em vida e com a que nunca imaginei ter que compartilhar a eternidade —, ficam dando pitaco, exigindo que eu assuma o novo estado e (re)conheça pessoas.

Abuela Herminia manda eles calarem a boca e me aconselha a exercitar mais as convocações autônomas, coisa que ela mesma teria gostado de fazer mais, mas naquela época tinha muita interferência das orações que os parentes faziam para a paz de sua alma e tudo aquilo e ela se deixou convencer daquela ideia do descanso eterno e o céu e ficou esperando e esperando, até que foi tarde demais. Quando percebeu a cilada em que tinha se metido, era tarde: já não era convocada com tanta frequência (embora cada invocação fosse agigantada e amorosa) e tinha sérios problemas para criar ela mesma os momentos; por teimosa, não tinha exercido a devida prática, não tinha o ofício, como se diz, de promover encontros nos sonhos. Então, eu prefiro ouvir a minha avó – umas das poucas pessoas, junto contigo, pai, que, em vida, me faziam querer morrer para encontrá-la.

Você poderia tentar fazer o mesmo que eu, pai. Dá até para tentar ir juntos. Já pensou, você e eu visitando Mamá Ucha? A velhinha ia adorar.

*

Decidi acompanhar María em sua volta ao Brasil, onde ela morava fazia três anos, com Rafael, meu genro, um cara que sorri de dente pelado e de quem eu gosto muito porque ele faz por merecer minha filha.

Claro que eu poderia ir direto, mas lembrei que ela dorme pouco durante os voos e pensei que podia ser uma boa ideia ir de avião, com ela. Foi durante a viagem que fiquei sabendo. Aconteceu que ela não estava dormindo, mas, mesmo assim, me via, me via! Fixava seus olhos em mim e me dirigia cada palavra do monólogo fragmentário de seu pensamento. Eu não só conseguia convocar em sonhos ou lembranças, como nós dois éramos capazes de criar novos momentos, que em vida não vivemos, só pela força das nossas vontades?  Se eu achava que a saudade era a tristeza derivada da incapacidade de criar novas memórias com os seres amados, então nós tínhamos encontrado a forma de matar a saudade.

Você podia ter me contado, pai, dos alcances da comunicação com o além, né? Tudo bem que a gente aprende mais quando experimenta, mas ia me economizar um tempo. Já sei, nem precisa me dizer nada. Tempo é só o que temos, então para que economizar.

Com a nova faculdade em pleno funcionamento, eu queria fazer de conta que estava tudo certo, normal, durante o voo, mas eu não tinha assento. É verdade que eu poderia me sentar em cima de qualquer um no avião, que ninguém ia sentir, mas ela estava me vendo e isso ia deixa-la mais nervosa ainda. Decidi ficar como papagaio no encosto do assento. E ela querendo que eu me sentasse. Lá pelas tantas, me deitei no espaço da saída de emergência e só então ela conseguiu dormir.

O Brasil me chamava mais a atenção porque lá, nas convocações de María, eu permanecia menos gasto, menos doente. Ao ter vivido a parte mais cruenta da minha doença desde a distância, ela estava mais a salvo do horror e por isso seus convites logo ficaram limpas de hospital e viraram as mais felizes. Embora eu sentisse nela, em cada encontro, um remorso que não sabia como desfazer.

No desembarque, em pleno estresse de recuperar as malas, ela se distraiu e eu fui parar de novo com meus colegas. De novo viajando, Morán? Maldita inveja de outro mundo, é igualzinha em tudo que é lugar.

*

Aconteceu então que um dia as minhas três mulheres me chamaram ao mesmo tempo. La Nené, num sonho tranquilo, desses em que a morte e o reencontro não são o assunto principal. Nana, numa lembrança interrompida por imagens de réquiem, mas bonita, afinal. María, numa falsa ou uma nova lembrança.

Isso já tinha acontecido antes, mas até então eu achava que precisava escolher. Assumi que a tele transportação era uma virtude natural do estado defunto, talvez pela tradição que aprendi em vida. Mas a ubiquidade era um assunto novo. Nunca me detive para pensar isso, inclusive porque, até pouco tempo antes de mudar de estado, eu achava que morrer era um ponto final. Nunca contei com esta simpática, embora desajeitada, sobrevida onírico-memorial-performática. O ponto é que aí estávamos, os três eus, em três idades distintas. Você não vai acreditar, pai. Imagina só a cena:

Caminho com Nené em Rubio, onde as ruas que antes percorríamos, na realidade da vigília, alguns anos atrás, hoje são como de E.V.A. e ela tira os sapatos porque diz que quer sentir o fofinho e eu, que não posso ficar para atrás e que não perco oportunidade de desafiar as noções locais de ridículo, também os tiro e não só os tiro como protesto por não ter tido essa ideia antes. É bem fofo mesmo. E é limpo, coisa que minha grima de andar descalço agradece. Como se a cidade toda fosse uma grande escolinha ou um tatame.

Revivo com Nana o momento em que cheguei de Ciudad Ojeda, dirigindo o carro recém-comprado, um mustang prata de duas portas, de 83. Vejo as caras de Nana e de María e são de um brilho que não há dicionário que consiga ter palavras para contar. Primeiro carro da vida delas. Tivemos algum outro quando María era bebê, mas disso nem eu lembro muito bem, imagine ela.

E com María, me permito minha já testada capacidade de invocar soberanamente novas situações. Fazia dias, ela andava me convocando em suas tristezas, entre outras coisas, porque estava prestes a trocar de apartamento e de repente percebeu que esse espaço tinha sido a última morada dela em que eu, de fato (o de vida, digamos), estive presente. O que que eu fiz? Escrevi e encenei (que é o mesmo que viver, no caso) todo um sonho mirabolante, cheio de aventuras imobiliárias, de surrealismos e plasticidades, bem do jeito que ela gosta, que terminava com ela chegando a uma casa chique que ela, ou uma versão rica dela, estava cogitando alugar e quem é que estava lá, na piscina, com os olhos vermelhos e a pele já enrugada de tanto ficar de molho, segurando um mojito na mão? O mesmo que fala. Euzinho, desdobrado e poderoso. Sucesso total e rotundo. Ela parou de se atormentar com esses detalhes técnicos de ir para uma casa que eu não tivesse conhecido; pegou certinho a mensagem: eu estou onde ela estiver e isso nem se discute.

*

Você acha que eu convoquei o senhor o suficiente, pai? Com o tempo, os convites são menos, fala a verdade… Ainda bem que eu deixei uma legião de fãs lá, somando a família e a parentela, os amigos e os conhecidos, as centenas de estudantes que passaram por minhas aulas. Genética boa para a simpatia, mas vergonhosa para a saúde cardiovascular, né, Seu Gonzalo?

Acho que não exagero com minhas expectativas de trotamundos. Nos últimos três anos, fiz ótimos passeios que todo mundo ficou com vontade de repetir. No Brasilzão, já não sou mais um desconhecido. Brinco com meu português aprendido com Zeca Baleiro e aprimorado na base de muito Caetano e Novos Baianos e muitas aulas de literatura e grupos de estudo em que acompanho María, que não termina uma coisa quando já está engatando outra e quando eu for ver já vai estar fazendo pós doc vai saber onde e La Nené e eu só esperando os netinhos.

Com Nana, estou conhecendo uma Europa que nunca pensei que fosse gostar tanto. O alemão está melhorando, mas devo aceitar que daquele lado eu aprendia mais rápido. Também, né, os coleguinhas e parentes deste lado são uma preguiça só e a preguiça é uma doença animicamente transmissível.

Enfim, que sou a inveja dos parceirinhos lá do além, por esta minha sede de mundo e por ter quem me ajude a saciá-la. O corpo que eu tinha virou pó cinzento que foi parar em Paraguaná, na Venezuela; no Guaíba, no Brasil; no Mediterrâneo, na Espanha; e em Varadero, em nossa querida Cuba. Pequenas cerimônias que elas acharam necessárias. E eu, que estava mais nelas do que nas cinzas, dei um jeito de participar ativamente: em Paraguaná, criei toda uma aventura burocrática a partir da necessidade de encontrar uma lancha porque, de outra forma, com a corrente em direção à terra, o pozinho acabaria nas barraquinhas dos turistas e não no alto mar, e ninguém quer isso, por favor. Já na lancha, quando era para o pozinho cair na água, assoprei um vento travesso no sentido contrário e o rostinho de Javier, meu sobrinho, ficou coberto de pó, causando uma gargalhada geral que todo mundo estava precisando, ao meio dessa coisa dilacerante que é uma despedida. Rasgar a cortina de dor que asfixia nesses primeiros dias. O riso que abre os pulmões e as ideias.

No Mediterrâneo, roubei um balão vermelho de uma criança – que ficou chorando horas a desgraçada – e o arrastei até onde estava Nana e o deixei por aí, dançando para ela. A coitada estava frustrada, nunca foi boa com trabalhos manuais, então o pobre do barquinho em que colocou minhas cinzas parecia mais uma balsa-maravilha da engenharia da miséria caribenha, daquelas que os cubanos faziam para chegar a Miami. E como não chorar por uma nova despedida, e como não rir de ver a tentativa-de-barquinho se afundar a escassos centímetros enquanto um balão parece, inexplicavelmente, imantado ao píer.

Em Varadero rimos demais. Maria levou as cinzas num tubo de ensaio. Bem coisa de La Nené fazer isso: roubar um tubo de ensaio do laboratório da universidade e botar as cinzas do professor Morán nele para serem transportadas ilegalmente de um país a outro. O assunto é que lá eu nem precisei mexer no set. Acontece que água salgada entrava e saía sem levar consigo mais do que alguns pontinhos de pó. Se recusava a se misturar. E eu juro que eu não fiz nada. María e Rafa ficaram um tempão tentando “me esvaziar”. Os primeiros minutos, ela ficou tensa, frustrada, mas logo veio o riso, uma luta fodida contra as ondas, mexendo o tubinho, virando o tubinho, submergindo o tubinho, assoprando o tubinho. Altas gargalhadas. Toda tristeza em nós é tragicômica. Uma guachafa absoluta, como em nossos melhores momentos.  

Só no Guaíba, me deixei ir, triste, num barquinho, desta vez bem feitinho. Aí, nem eu estava animado. O dia era cinza e Porto Alegre era uma cidade em que eu queria ter vivido e não deu tempo. Do outro lado também temos nossos altos e baixos. Você sabe bem disso, pai. É claro que ninguém queria ter morrido tão cedo. E menos eu, que tinha uma bucket list que rendia umas cinco ou seis vidas ordinárias. Mas passa. Passa. E tem suas vantagens.

A ubiquidade é um negócio fascinante, pai. Sem passagem, custos de hospedagem nem de alimentação – essa parte eu não gosto, nós, deste lado, não precisamos comer, aliás, não podemos comer, então eu sinto uma fome que não é fome verdadeira senão uma gula da pior categoria, queria comer até explodir de tanta coisa por aí, agora que não preciso me cuidar mais, queria beber toda a água e os sucos e a cerveja e o vinho e todo o líquido que a doença me roubou durante os últimos anos de vida de vivo.

Apesar das reclamações de alguns colegas do além, que querem que eu tenha uma vida de morto sedentário, de jogar dominó e cartas, de passear só com horário agendado, de filosofar a morte, mais chatos em morte do que eram em vida, viajar é o que mais faço. Ah, pai, como é bom viajar; como é coisa da vida dos mortos, viajar.

Turmalina

Português, Relato

Dezenove horas. Viajo com R e com meu sogro (que faz algumas semanas está viajando para Porto Alegre a trabalho) para Passo Fundo. Eles falam enquanto eu faço uma outra viagem (vertical, diria Vila-Matas), um deslocamento rarefeito pelo limiar sono-vigília, em que, durante um período de tempo irreal que pode ser um ou dez ou trinta minutos, me sinto alheia ao carro, à estrada, a eles, a mim mesma. Inadequada, flutuante. Um corpo de súbito falso, de quem eu viro refém. Uma cena em que um eu se vê a si mesmo lá embaixo, existindo com uma concreção tão exata que parece inegável, incontestável. E que, mesmo assim, não sabe explicar nenhum porquê.

*

Acordo tarde como faz meses não o fazia. Quase meio-dia. Mistura do frio com a ruptura da rotina. Numa sonolência que não termina de passar, os temas que me habitam já nem tentam se revezar, agora se conformam com justapor-se. Papá, cadê tu? Minha mãe sozinha lá. Venezuela apocalíptica. Distopia mal escrita. Os abraços diluídos no tempo, já esquecendo do calor. Naná há 18 meses no universo alemão. Pausa no devaneio para injetar café na veia. Sem muito efeito cafeínico, R me faz admitir que estou estressada (ele chegou à conclusão de que eu sofro de “fuga”: quando estou triste/ansiosa/estressada entro num estado de sono permanente) e me convida a provar o colchão mágico de seus pais, que faz massagem e tem ímãs, pó de turmalina preta, infravermelho, energia quântica e, se bobear, até ondas de reconstituição genética para combater o câncer.

Com expectativa zero, me deito com ele. A superfície vibra com força, fazendo um barulho grave, que contribui com a sensação geral de estar sendo submetido a algum treinamento pré viagem espacial. Esqueço de tudo. O colchão é mágico, mesmo: me tele transporto com uma rapidez e uma eficiência invejável. Estou na Venezuela, em algum momento de 2010, fazendo terapia para curar uma tendinite no ombro numa SRI (Sala de Rehabilitación Integral), do programa nacional de saúde preventiva Barrio Adentro, um dos maiores orgulhos da revolução, hoje tão desassistido como a rede tradicional de hospitais públicos e até dos particulares, privados de todo tipo de insumos. O médico cubano me avisa que já posso passar da sala de infravermelho para a de eletroterapia. E já não é o médico cubano na Venezuela quem me fala, mas o médico cubano do hospital de San Antonio de los Baños, en Cuba. Continuei o tratamento lá, quando voltei das férias, para continuar na escola de cinema. O doutor Máximo, da enfermagem da escola, me levou todo dia, durante duas semanas, à fisioterapia. Paguei quanto? Um abraço e vários “muito obrigada”. Acaba a massagem com uma vida inteira virada de cabeça em apenas oito anos. Acho que vou ter que dormir mais mesmo.

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Não sei bem o porquê, mas me irrita a ideia da literatura como remédio ou salvação. Meu remédio, minha salvação, minha estratégia e ferramenta de libertação ela é, sem dúvida, mas não a do mundo. Acreditar isso me parece ingenuidade, quando não egolatria.

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O placebo e a panaceia estão a um otimismo de distância.

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À noite, topo ir para Sertão, no interior do interior, no plano mais aleatório dos últimos dias. Vou acompanhar meus sogros numa palestra de apresentação de uns colchões “terapêuticos”. Chegamos no salão de eventos do povoadinho. Umas vinte famílias da colônia estão prestes a escutar o dono da empresa, um cara parecido com Ed O’Neill em Modern Family, cujas referências de showman se movem entre Faustão e Ted Talks. Dois colchões em exibição, cartazes, vídeo, power point. Mil imprecisões científicas, com promessas enganosas e alívios cômicos feitos de piadinhas machistas, tudo amplificado com um head set de última geração. Um mix bizarro que, bizarramente, lhe vem rendendo boas vendas e boas risadas da audiência. Posso falar de tudo, mas não posso negar que o cara conhece seu público. 

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Depois de UMA HORA E MEIA DE PALESTRA, os assistentes ganham um churrasco. Me entupo de carne e maionese como se minha vida dependesse dessa refeição. E o tempo passa e passa e o Al Bundy falso continua lá, se achando o dono do pedaço, fazendo comentários inapropriados e contando causos como se alguém se importasse. Vou é comer mais e mais e mais. Quero que ele me devolva em alimento todo o tempo que me sugou. A vingança mais indireta e contraproducente que eu já executei.

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O tio de Rafa sempre me faz lembrar dos últimos dias de vida de mi papá. Faz dois anos e pouco, o homem passou por um susto daqueles. A gente o visitou quando ele recém estava saindo do hospital e tinha o olhar ainda arrasado pelo medo da morte. Foi uma visita dolorosa, que me fez reviver a agonia do meu pai e me fez sentir raiva, como sempre me acontecia naqueles dias, de que outras pessoas se salvassem e não ele. O que fez que o tio de Rafa fugisse da morte e meu pai, que tanto se aferrava à vida, não? Não me curei ainda dessa raiva. Apenas aprendi a disfarçá-la melhor.

Hoje ele está muito bem, com a pele rosinha e as bochechas mais cheias. Há algo nele que me deixa numa disposição diferente, como se de repente estivesse valendo a pena o show dos colchões. O examino e logo percebo a ação secreta: o cabelinho grisalho por baixo do boné, o peito vermelho curtido do muito sol aguentado, as orelhas compridas dos Morán, a estatura exata do meu pai. Um surto de vontade de abraçá-lo me acomete. Abraçar meu pai, nele. Me paraliso na conversa. Concentro minhas energias em sossegar a dor desse desejo para sempre insatisfeito.

Um chiado agudo se amplifica pelo alto-falante. Parece que a palestra segue.

Liga para a Defesa da Maldade com Objetivos Supérfluos (LIDEMOS) – Terceira parte

Conto/Cuento, Português

AÇÃO 3.7

Conduta em corrida esportiva

Com seu excesso de saúde e força, os atletas são miseráveis e cafonas, como todo ostentador. Uma pequena dose de turismo antidesportivo, transmitido ao vivo pelas TVs e rádios, gerará, aliada à polêmica e à falsa indignação do grande público, reflexões sobre a real importância daquele evento em particular e o absurdo de glorificar pessoas que correm sem precisar ir a lugar nenhum, apenas pela vontade de demonstrar seu poderio quase maquinal.

Instruções:

1.   Dias antes do evento, vá até o lugar e avalie em detalhe as características do mesmo (especial atenção merecem o relevo, o tipo de solo, a altura da calçada).

2.   Estude e pratique em casa possíveis formas de abordagem do alvo, em função de sua condição física e, claro, em relação com as do atleta. Rolamentos e torções de artes marciais como o hapkidô podem resultar muito úteis.

3.   Analise personagens de telenovela que lidem com doenças mentais. Memorize e pratique algumas frases e tiques padrão.

4.   No dia prévio ao evento, quando já estejam sendo colocadas as marcações e preparadas as arquibancadas áreas em que o público poderá ficar, escolha o ponto mais cercado à linha da meta.

5.   Avalie os dispositivos de segurança que separam o público dos corredores, caso existam.

6.   Estude quais os caminhos mais rápidos e seguros até o ponto escolhido e procure informações sobre os horários em que o público começa a chegar no evento, com o objetivo de garantir a disponibilidade do ponto estratégico escolhido.

7.   Se você tiver feito o passo anterior corretamente, como seguramente o fez, você não deve se deparar com surpresas no grande dia. Ocupe seu lugar e espere. Tenha água e lanches à mão: é imprescindível que você esteja em ótimas condições

8.   Localize-se no lugar estratégico escolhido. Desfrute a corrida, mas esteja atento. Seja como um caçador que cuida, a uma distância prudente, sua presa.

9.   Quatro ou cinco metros antes do indiscutível vencedor atingir a meta final, atire-se em cima do atleta e faça-o rolar pelo chão, como aprendido durante o treinamento, enquanto o segundo e terceiro lugar completam o trajeto.

10.  De um beijo no seu alvo e levante-se.

11.  Não se resista: você será levado pela segurança do evento e poderá ser prendido pela polícia. Em câmbio, use o que aprendeu no passo 3: finja demência.

12.  Ofereça as devidas entrevistas e coletivas de imprensa. Sorria e agradeça a todos aqueles que fizeram possível sua façanha. Reivindique as bandeiras da LIDEMOS.

13.  Durma com a felicidade do dever cumprido. Você é um caso raro e deve se sentir exultante; glorioso anti-herói nacional, libertador dos fracos e dos preguiçosos. Você é exemplo a seguir nas nossas lutas.

Liga para a Defesa da Maldade com Objetivos Supérfluos (LIDEMOS) – Segunda parte

Conto/Cuento, Português

AÇÃO 1.5: Conduta nos supermercados

Uma última apimentada no dia do trabalhador regular, para fazê-lo refletir sobre a impossibilidade ontológica da calma: onde termina a jornada laboral, começa a doméstica. Novos imbróglios, novos desafios. Sempre uma nova oportunidade para expandir a paciência.

Instruções:

1.   Analisar o estado geral do estabelecimento: vigilantes, funcionários das diferentes áreas, distribuidores em seus kiosquezinhos de lombo suíno fumegante ou de café latte hiper edulcorado. É muito importante, também, identificar as saídas, as câmeras de segurança, os acessos ao estacionamento, sanitários e demais caminhos de fuga existentes.

2.   Fazer reconhecimento de alvos potenciais. Dar preferência aos clientes que deixam estacionados seus carinhos e, à procura de outros produtos, deixam o mesmo momentaneamente abandonado enquanto se aventuram a caminhar um mínimo de cinco metros.

3.   Escolher o alvo. Difícil decisão que exige do vilão um certo malabarismo entre os dados objetivos obtidos no passo 1 e as infinitas possibilidades do acaso.

4.   Esperar que o alvo esteja com o carrinho cheio. OBS: se o alvo escolhido der sinais de estar terminando a compra e ainda não ter mais de 15 produtos, descartá-lo e escolher novo alvo. Defendemos o impacto menor, não o inexistente.

5.   Esperar a pessoa se distrair e roubar o carrinho dela. O melhor lugar para executar o assalto é na seção de vegetais e frutas, por ser aquela de maiores complicações para transitar e onde os clientes tendem a se concentrar mais na escolha do produto.

6.   Se afastar com a pilhagem, deixá-la em outro ponto do mercado. Se possível, e para ampliar o impacto da ação para além do alvo, deixar cada um dos produtos escolhidos pelo alvo em prateleiras aleatórias do mercado, sempre tomando cuidado de que o lugar de origem do produto se encontre, no mínimo, a quatro corredores de distância do lugar em que está sendo depositado.

7. Sair do estabelecimento com o peito inchado de orgulho pelo honorável desempenho.