Quantos decibéis perdeu Maracaibo?

Português, Relato

2008

O cemitério parece um hiato na vida desta cidade estrepitosa. Nós o chamamos de “El Cuadrado”, um parque gigante e morto, como uma chaga de lepra no tecido vivo demais do casco central. Existe também “El Redondo” e, pelo jeito, uma estranha mania de nos referirmos às coisas e aos lugares por sua forma e sua cor.

Temos também um péssimo sentido de coerência espaço-temporal, que nos leva a mim e a mais quarenta passageiros a estarmos, em pleno meio-dia na cidade mais quente da Venezuela, metidos como sardinhas neste ônibus-barraquinho, preso como sempre entre outras dezenas de improvisadas máquinas de emissão de dióxido de carbono, participantes ativos de um engarrafamento, gritão nesta hora como em qualquer outra hora, porque aqui as pessoas não têm horário para fazer um show.

Por um segundo, tenho vontade de descer do ônibus e terminar de chegar em casa a pé, atravessando o cemitério, cheio também, mas de gente aposentada do ruído. Quem que eu estou querendo enganar, se estou gargalhando por dentro com as fofocas das duas mulheres que, afortunadas, vão sentadas ao meu lado, ou melhor, quase embaixo de mim, porque dizer que eu vou em pé no corredor é uma sutileza muito falsa: eu estou esmagada, exprimida, quase em cima das mulheres que, por cortesia ou para evitar serem golpeadas numa freada, se ofereceram para levar minha bolsa e as minhas sacolas de compras, que agora me parecem grosseiras em número e em tamanho para quem, como eu, anda sempre de ônibus.

Não reclamo: gosto de andar de ônibus e gosto de gostar disso. Me pego pensando o quão esculhambado e ao mesmo tempo divertido, de uma retorcida e masoquista maneira, é o transporte público de Maracaibo, uma cidade de mais de dois milhões de habitantes, onde a lei é a informalidade e a esperteza, e desisto de querer que as pessoas não sejam escandalosas ou hostis, porque como não sê-lo, se até para pegar um ônibus você tem que se comprometer num combate corpo a corpo. Dou uma gargalha, desta vez, por fora, rindo sozinha, como os loucos, embora sinta alta a probabilidade de ter um piripaque daqui a pouco, prefiro ficar asardinhada entre os vivos do que caminhar entre os mortos alheios.

2020

O cemitério parece ficar cada vez mais longe. Antes, ao meio do caos da cidade cheia, não havia fendas para ver as distancias reais, os caminhos, o mapa, é como se sempre tivéssemos estado dirigindo de noite e com as luzes baixas e, de repente, tivessem varrido todas as construções e os carros e a gente, e nos tivessem jogado no meio de um caminho desolado, dentro de uma lata-velha cujas luzes altas não funcionam. Quanto mais vazios ficamos, viram maiores as dimensões deste espaço agora desfigurado e as dificuldades para percorrê-las.

Também não importam mais as horas nem os quandos, a cidade já não conhece de horários-pico e, por mais cedo que você saia de casa, a espera por um carro coletivo, uma lotação, ou mesmo um dos agoniantes e ressuscitados paus-de-arara, virou tão longa que esse sol agressivamente perpendicular sempre me calcina a moleira.

Mas alguma coisa passa, alguma coisa sempre passa para que eu possa ir te visitar na tua casa calada de “El Cuadrado”. Dessa vez foi um coletivo, por sorte. As portas fechadas do comércio, dos restaurantes, das padarias, passam pela minha janela como um filme de pós-guerra, o vento quente redemoinha no meu cabelo com suas poeiras antigas e debochadas. Um festival de ferrugem, lixo, fuligem. Um quase silêncio. Quantos decibéis perdeu Maracaibo? O tanto que você odiava os gritos e o trânsito desesperado, meu amigo. Hoje o único escândalo são os escombros e você não está aqui comigo para curtir esse silêncio, alívio amargo, que nos restou.

1990: o que fazer após a queda de um muro

Conto/Cuento, Português

O mar pardo. A areia dura. Uma bicicleta mais velha que todas as bicicletas. A casa azul no silêncio do não-turismo. Alice Souza tem dezesseis anos, dezesseis verãos amando essa praia e a certeza de que, com a venda do imóvel, morre uma parte de si.

Alice decide que deixará a bicicleta como patrimônio indissolúvel da vivenda. Ela deve renunciar a essa paisagem, e sua amada companheira não tem por que segui-la. Levar para a cidade uma bicicleta tão oceânica seria enganar-se, querer transformar o amor fugaz dos verãos num matrimônio. –Não, Estrela, minha amiga. Você fica.

Em toda a praia, só há dois lugares proibidos para pedalar, a caverna dos índios e o manguezal vermelho. Um é garantia de um pneu furado; o outro, ser uma mosca numa teia de aranha. E Alice, que bem sabe que todo fim de era está marcado por grandes conquistas, concede a Estrela o derradeiro desejo de explorar o inexplorado. Sabe que esse arrebatamento tem tanto de assassinato quanto de suicídio. Com Estrela ferida de morte, Alice empreende o regresso.

No crepúsculo, a casa não parece tão detonada como dizem seus pais. A cerca de conchas marinhas continua linda, perfeita para ficar se amassando com o garotão que vende ostras e acorda paixões precoces. O portão de madeira está surrado, sim, mas tem o charme dos postais velhos. E o quarto dos bricabraques, ah, quando teria de novo acesso a tanta diversão, centenas de objetos à espera da ressurreição; objetos dos que Estrela, com seu pneu furado e seu aro torto, começa a fazer parte.

Alice nina sua amiga entre as outras bicicletas desmembradas e segue até a cozinha, chamada pelo cheiro da ambrosia da Senhora Arminda, número um absoluto em seu inventário de nostalgias. Arminda, faxina do domingo. Arminda, “Senhora Diana, aqui têm seu cafezinho”. Arminda, marido pescador alcoólatra. Arminda, “cuidado com o bandido das ostras, Alicinha”. Essa mesma Arminda, quem durante dezesseis verãos chegou com ambrosias, canjicas e tortas de bolacha, e iluminou a casa com seu sorriso. Essa mesma Arminda, agora chora nos braços de seu pai.

Os milhões de vezes que ele recusou o mar e ficou sozinho na casa; as comidas, sempre as preferidas dele; a timidez exagerada de Arminda em sua presença e seus vestidos de vadia colona. Entre as elipses e os subtextos de suas lembranças, respira uma história submersa que acaba com a boca de seu pai beijando as lágrimas dessa mulher a quem –não cabe a menor dúvida– ama.

Pela janela, detrás da cena proibida, Alice descobre o carro na garagem. Em algum ponto do desconcerto, sua mãe chegou. Ela corre para o quarto, onde a encontra deitada na cama, lendo pela enésima vez Quem mexeu no meu queijo? –Não chore, meu anjo– lhe diz sem levantar a vista do livro. –O que eu posso fazer se nunca aprendi a fazer ambrosia?

Entre os caules do manguezal vermelho, Alice pune-se com a dor da estreia. Um primeiro sexo desajeitado e sem amor, com fedor de ovo podre. O vendedor de ostras lhe mente amores, encontros futuros, cartas semanais. Seus olhos se parecem com a lua que pendura do céu, plana e branca, como de cartolina. Lembram os de sua mãe, acomodada na cadeira de balanço, posando para a vida.

Um último beijo nas paredes azuis e adeus. No porta-malas do carro, vai Estrela, que convenceu Alice de que com uma mínima re-alfabetização, seria uma bicicleta do mundo. Entre os abacates e a coleção de conchas, vai o cadáver de seu sorriso infantil, não conseguiu deixá-lo entre os bricabraques; o quer com ela, como um postal de quando a vida era vida e não teatro; o quer perto de si, para aguentar o peso das máscaras. No assento dianteiro, seus pais conversam sobre os países da defunta União Soviética, cujas independências estão se contagiando como peças de dominó.

La magia útil

Conto/Cuento, Español

Odio los circos. Odio la idea de los circos. Odio la risa boba de los circos. Odio la gente que ríe la risa boba de los circos. Soy un balde de odio feroz. Un poco por los animales maltratados. Otro poco por los payasos que no dan risa. Pero principalmente por esos estafadores que se hacen llamar magos cuando su magia no es magia, sino truco vulgar. No se equivoquen, tuve una infancia feliz y una adolescencia tragicómica con final aceptable, aunque abierto. No tengo la imaginación atrofiada, es apenas que no soy una comeflor infantiloide. No sufrí un evento traumático, por lo menos no en carne propia. Pero claro que hubo un acontecimiento que transformó mi infantil y genuino desinterés en esta rabia rampante que ahora profeso. Mi odio es un odio con fecha, con nombre y apellido, con coordenadas geográficas.

El circo de los Hermanos Bombita llegó a mi barrio y se instaló en el mismo terreno donde se instalaba, por lo menos una vez al año, el parque de diversiones que dejaba a mi madre enferma de los nervios, por sus aparatos oxidados y su montaña rusa tambaleante. Los Bombita llegaron un miércoles y ya el viernes dieron la primera función. Mis amigos del barrio fueron toditos. Durante días no hablaron de nada que no fuera aquel circo majunche al que pasaron a ir todas las tardes, curiosos por conocer la vida gitana de aquella gente. Qué pereza me daban. Yo, para saciar mi mayor curiosidad, no necesitaba ni siquiera salir de casa. Un muro que no pasaba de la cintura de un adulto me separaba de un mundo que me despertaba muchas más fantasías. Nuestros vecinos, los Quintero. Mamá, papá, hija.

Mamá: Sra. Lola. Dueña de un poder de persuasión capaz de hacer dudar al credo mejor plantado y de una sensualidad que sobrevivía a cualquier tarea doméstica, a cualquier ropa, a cualquier aumento de peso. De día, amiga de largas conversas con mi madre. De noche, la cerca se crecía de moralismos y hasta el amor de los perritos, la de ella y el nuestro, era prohibido. Que esa gente se volvía loca con el alcohol. Que pasaba de todo en esa casa. Que hasta orgías. ¿Mami, qué es una orgía? ¡¿Ay, muchacha, cuándo entraste?! ¡Qué manía la tuya de llegar sin hacer ruido!

Papá: Sr. Alejandro. Pseudo galán a la Richard Gere. Llegaba en las noches, cuando la cerca que nos separaba parecía crecer y las luces se apagaban. “Un pobre hombre que se mataba trabajando” y que, según mis tías y vecinas, lo último que merecía era la esposa putona que tenía, siempre con ese escote de tetas en venta.

Hija: un poco mayor que yo y exótica como su nombre, Pamela. No había cumplido dieciséis y ya era, para mí y mis amigos bicicleteros, la rebelde de la cuadra. Saludaba a todos con un aire de estrella simpática, pero no hablaba con nadie. Ya sabía lo que quería en la vida y lo que quería era mandar a todos a la mierda. Luz de sus padres un día, peste en el siguiente. Mi ídola, ella que era mas bien fea pero en aquel momento nos parecía bella y sexy y ojalá siga siéndolo, que escuchaba Madonna y tenía una perra llamada Madonna y que era bruta en la escuela pero genia en la vida y que decían que era puta y me dolía que le dijeran puta, pero a ella no le dolía porque ser puta, en boca de mis tías, era lo mismo que decir que era libre y se lo daba a quien ella quería cuando ella quería, y si eso es ser puta, entonces está bien ser puta y está bien serlo desde chiquita.

Un circo particular, disponible para mí todas las noches, con publicidad gratis de mis tías y vecinas y que, si la publicidad era cierta, en cualquier momento me sorprendería con un número especial. (Una orgía, ojalá: lo que mi mami no lo explicó, el diccionario me lo cantó clarito). Jueves, viernes, sábado, domingo durante el día, uno que otro lunes: comenzaba la música, comenzaban a llegar los carros, la Sra. Lola que invitaba y mami que ay, gracias, será otro día, porque hoy tengo que, nosotros apurando la cena para guardarnos rapidito y quedar a salvo de las “cosas extrañas” que ocurrían en la casa de los Quintero. Y yo, que sólo esperaba que mi casa se apagara, para escabullirme hasta el patio y sentarme en mi butaca, público de un espectáculo promisor que hasta ahora no había ofrecido más que uno que otro beso infiel y sonidos que, especulando desde mis trece años mal cumplidos y mi repertorio de novelas, denunciaban sexo.

Pero en días de los Hermanos Bombita, mi circo particular también se encircaba. Y un día la Sra. Lola, con pena de mí, le preguntó a mami por qué no me habían llevado al circo todavía. Mi mamá, sintiéndose mal por no haberlo hecho antes, me preguntó si quería ir y yo me encogí de hombros. Sin ganas, entonces no vamos. Y me dio igual. Las ganas que yo venía acumulando desde que los Bombita llegaron eran de decirle al señor del transporte escolar que me esperara un momentico cuando pasábamos por el terreno del circo, mientras yo liberaba a todos los animalitos y los niños y no tan niños, hijos del circo, que ya tenían edad para estar avanzados en el colegio y que, en cambio, estaban ahí, día y noche, cuando no hacían un número, tenían una lista de tareas de mantenimiento que cumplir, según decían mis amigos. Padre payaso borracho y explotador. Madre trapecista deprimida que en cualquier momento se iba a suicidar en escena, lanzándose fuera de la red de seguridad desde el trapecio más alto. Mis ganas eran de prenderle fuego a la carpa de esa gente y decirles que lo que hacían no era gracioso. Mis ganas eran de dejar al descubierto para mis tías, que disfrutaban alegres del espectáculo, que esa gente no era mejor que los Quintero, que ellas encontraban tan monstruosos en sus shows secretos, tan secretos que sólo existían para ellas como conjeturas.

Pero la Sra. Lola no desistía con facilidad. Llegado el día de la última función del circo y todavía sin poder explicarse por qué yo no había ido, decidió invitarme. Antes de aceptar, pregunté si iría Pamela. ¡Claro! Entonces vamos a pedirle permiso a mami. Entonces vamos. Y como la sesión era temprano, mami y papi, amigos diurnos de los Quintero, me dejaron ir.

Pamela parecía tan fastidiada como yo con la fila enorme, pero ella mientras ella se refugiaba en Madonna, que cantaba desde el discman, yo me conformaba con la orquesta de llantos de bebé, carcajadas, regaños, gritos adolescentes de timbres indecisos y chismes en actualización. Pero ahí estaba yo, con mi ídola y su madre. Uña y mugre, a la vista de todos: punto para la chiquita. El olor de borracho sudado y de aceite quemado de los churros me ayudó a imitar la cara de ascofastidio de Pamela. Agarramos buenos puestos, dijo la Sra. Lola que porque ellos eran amigos de los artistas. El show abrió con los payasos y, mientras la platea de desternillaba de reír con sus chistes palurdos, repetidos por todos los malos comediantes del barrio, del país y del mundo, Pamela, con una intimidad sin precedentes, se dedicó a narrarme, personaje a personaje, quién era quién en ese espectáculo lamentable. Los payasos son hermanos, el viejo Bombita, padre de ellos, fue el que empezó el circo y era payaso también, hasta que lo encontraron con un tiro entre ceja y ceja en un puesto de gasolina en la carretera Falcón-Zulia y dicen todos que se lo mereció, hasta los hijos. El más borracho y más gordo, el de la risa gigante, es el marido de la trapecista, mírale el rostro, fíjate cómo no mira el trapecio, cómo no sonríe y cuando sonríe, lo hace como sin ganas imaginas que hoy sí se mate la pobre. Ellos son los padres de este chiquito que hace el número con los poodles, que de tanto andar con los animales ya se le pegó la manía del brinquito y de la alegría sin memoria, pobres perritos tan felices y tan ignorantes de su miseria, yo quiero ser un poodle.

― ¿Y él? ― pregunté.

Pamela había enmudecido con su entrada. Un mago adolescente serísimo, como por concentración o por rabia. Lindo de doler en los ojos. Desamparado en medio de esa gente. El rostro triste de los extraviados. El mago triste jugaba a despedazar a su madre, trapecista del número anterior y asistente de éste, donde su papel era hacerse la descuartizada sin sangre, acostada dentro de una caja.

De vez en cuando, él echaba una miradita al público, claramente buscando a alguien. Hasta que la encontró. Era ella, Pamela. Mi ejemplo a seguir no me defraudaba. Ellos se gustaban y yo los veía y me deleitaba como quien ve una novela en vivo y directo. Hasta que el mago terminó su número y, con él, el único espectáculo posible.

― Él es lo único que sirve en este circo ― me dijo.

Pamela, tristona, volvió a sus audífonos. Yo, sin saber qué decir, intenté concentrarme en los payasos que, una vez más, estaban en el escenario. Dato patético: eran los favoritos del público. De repente sentí que algo me rozaba la oreja. Pamela, cómplice, me prestaba uno de los lados de sus audífonos. “La isla bonita” retumbó en mi cabeza y sentí que a partir de ese momento, algo de su rebeldía/putería había entrado en mí junto con Madonna y agradecí a los Hermanos Bombita por haber auspiciado ese instante.

Cuando llegamos, ya mi madre se estaba poniendo nerviosa. Estaba cayendo la noche y, con ella, la orgificación de la familia Quintero. De hecho, el Sr. papá de Pamela, whisky en mano, estaba sacando las cornetas. Nos saludó con la lengua ya enrollada. Las chicas del can comenzaron a cantar y la pachanga prometía. ¿Seguras que no quieren venir? Gracias, pero no, mañana hay que madrugar. ¡Pero si hoy es viernes! Buenas noches, buenas noches, buenas noches y a guardarnos. Yo lo que más quería era aprovechar el puente que se había creado entre Pamela y yo y consolidarlo con conversas de amigas, con una pijamada, algo, ¡algo! Pero: A guardarnos, dije.

Y yo, a masticarme la frustración debajo de la cobija. Al lado la música y las risas y el baile vibrando. Y de repente, aquella risa. Qué sueño ridículo. Aquella risa gigante del payaso borracho. Sueño, nada. Me asomé por la ventana: eran ellos. La familia Bombita a todo color. Confirmé que mis padres dormían y me vestí otra vez. Salí corriendo calladita y me entretuve mirando la fiesta desde el murito. Si me veían, seguro me llamarían, a esa hora ya a nadie le iban a importar las excusas de mi madre. Pero mis ganas de deshicieron rápido cuando no encontré a Pamela entre los participantes. No debió sorprenderme, ella, igual que yo, no quería nada con esa gente. Si quería, era con un espécimen muy específico dentro de aquel grupo vulgar. Fui hasta la ventana del cuarto de ella. Nadie. Entonces todo hizo sentido. Fui hasta el patio segura de que allí estarían. Y no me equivoqué. Ella debe haber percibido que alguien la miraba porque suspendió un segundo el beso que le daba al mago, ya no tan triste, para mirarme. Me picó el ojo. Y yo, torpemente, intenté picarlo de vuelta. La música camuflaba algo que parecía ser un grito y cuando logramos entender, ya él estaba allí. Pamela vio a su padre y salió corriendo, asustada como nunca pensé que se asustarían las heroínas. El mago, que no había percibido mi presencia, se quedó ahí, mascullando maldiciones en lo oscuro, mientras Pamela era alcanzada por su padre, más pseudo-galán que nunca, más pseudo-padre que nunca, que la enlazaba impertinente y manito suelta, ya borracho de arrastrarse.

Desde la cerca, los seguí hasta la puerta. La Sra. Lola, al ver entrar al marido y a la hija toqueteada, tuvo un segundo de entorpecimiento, de esquivar la mirada de la hija, y huyó a la cocina a preparar una nueva bebida. Y ahí sí, su sensualidad se me volvió piedra.

El mago triste regresó del patio y me vio, yo que ya no estaba ni escondida ni en penumbras, sino con una decepción de luces prendidas encima de mí.

― ¿Y tú, qué? ¿No deberías estar durmiendo? ― Habló más alto de lo que debía.

Le hice una señal pedigüeña para que guardara silencio.

― Yo vivo aquí al lado.

― ¿Estás escapada?

― Mas o menos.

― ¿Estás escapada y lo mejor que se te ocurre es venir aquí? Tú estás muy chiquita para estar tan loca.

― Tengo casi trece. Y no podía dormir.

― Y ahora vas a poder menos.

Sacó un cigarro y se puso a fumar lo que yo, años después, sabría que era marihuana.

― ¿Por qué tú estás siempre tan triste?

El mago adolescente triste me ofreció de su cigarrillo extraño y, no sé por qué, le dije que no. Tal vez fue la infancia queriendo resistir en mí, después de aquella imagen que me lanzaba de cabeza en un mundo adulto, sucio, inexplicable.

― ¿No te gusta ser mago? A mí me gustó el truco aquel, el de desaparecer gente.

― Yo lo quiero es desaparecer de verdad a tanta gente de mierda.

Él apagó el cigarrillo y lo guardó en un estuchito.

― ¿Pero cómo vas a saber quién merece desaparecer?

― De aquí, sólo se salvaría ella.

― Pero eso no es magia, eso es asesinato, secuestro, qué se yo.

― Es magia útil.

De mañana, la cerca que separaba mi casa de la de los Quintero, me pareció más alta que nunca. Desperté con la noticia y con mi madre haciéndose la señal de la cruz por haberme dejado salir con esas perdidas. Mis tías y vecinas, que confirmaron la calidad de monstruos de los Quintero pero que nunca supieron quién era quién en esa casa, tuvieron más razones todavía para decir que Pamela era puta, después de que, aquella madrugada, cuando ya yo dormía, ella y el mago antes triste se fugaron juntos. Juntos, con la alegría de haber encontrado un amparo, lejos de los trapecios y las madres descuartizadas, lejos de las omisiones dolorosas y de un padre que no supo ser padre, lejos del circo de afuera y del de adentro.

A personagem, esse estranho artefato suspeito de carregar vida

Debate, Português

A ideia de se transformar em outro no exercício de escrever ficção é habitual entre escritores: uma espécie de desdobramento de si mesmo a serviço de um outro ser, feito de palavras e magicamente trazido à vida para transitar numa trama de uma história que será recebida por outros seres e terá algum impacto, ético e estético, neles.

Para Canetti[1], a função do poeta é ser guardião da possibilidade da metamorfose e, assim: “os poetas deveriam manter abertas as vias de acesso entre os homens. Deveriam ser capazes de se transformar em qualquer um, mesmo no mais ínfimo, no mais ingênuo, no mais impotente”.

É bastante possível que a maioria dos escritores endosse essa frase de Canetti, eu arrisco a assegurar. Os romancistas frequentemente comentam a escrita de ficção como um exercício empático ao falar sobre a criatividade e os possíveis efeitos[2] da leitura de romances. Em seu livro Empathy and the Novel[3], Suzanne Keen trabalha, entre outras, com a hipótese de que a atividade de escrita de ficção pode cultivar habilidades de atuação nos romancistas e torná-los mais habitualmente empáticas.

O valor desta hipótese vem crescendo com o inusitado apoio da psicologia do desenvolvimento. Em Creative Writers[4], Freud sugeriu que poderia haver um elo entre a criatividade dos escritores adultos de ficção e o jogo imaginário das crianças. Keen traz o exemplo do trabalho da psicóloga Marjorie Taylor, da Universidade de Oregon, que ajudou a reabilitar a prática infantil de ter amigos invisíveis, já não como um sinal de problemas psicológicos, mas como parte saudável do desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças. Taylor e seus colaboradores recentemente estenderam a pesquisa sobre a “ilusão de agência independente” para a área da criatividade adulta.

O crítico literário e romancista David Lodge[5], por exemplo, sugere que a capacidade que os romancistas têm para criar personagens, muitas vezes seres muito diferentes de si mesmos, e dar explicações detalhadas de suas consciências é uma habilidade que ajuda ao escritor a desenvolver poderes de empatia e simpatia na vida real.

Assim como Lodge, muitas entrevistas, memórias e comentários casuais de muitos escritores são relatos dessa ilusão, em que os personagens fictícios parecem ter seus próprios mentes e vontades, embora submetidos em última instância às vontades do autor. Milan Kundera, no glossário de A arte do romance[6], define o romance como “a grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência”. Prestemos atenção à abordagem que o autor faz da personagem: ego experimental, uma espécie de fantasia que o autor veste para transitar com ela uma trama. A personagem, para Kundera, é esse ser imaginário, simulação de um ser vivo, que serve para que o autor e, posteriormente, o leitor, investiguem essas áreas que o problematizam e o obcecam, esses temas que o acompanham e que, dentro do romance, viram os pilares fundamentais do conflito.

Destes apontamentos pode-se inferir uma certa, embora discutível, centralidade da personagem no que respeita ao envolvimento emocional do leitor ou espectador com a obra. Pelo menos, é dessa forma que esta que os fala, vê a ficção: a personagem como o principal veículo para nos comunicarmos através das histórias; como o artificio do qual nos valemos os ficcionistas para colocar em movimento tradutório nossas inquietações autorais.

A importância cultural dessas “figuras da ficção”, como são chamadas frequentemente, é indiscutível. Jens Eder[7], teórico que tem dedicado sua produção intelectual ao desenvolvimento de uma visão heurística sobre a personagem, aponta:

“O significado cultural dos personagens dificilmente pode ser superestimado. Eles servem à auto compreensão individual e coletiva, à mediação de imagens da humanidade, de conceitos de identidade e papel social; eles servem à ação exploratória imaginária, à atualização de modos alternativos de ser, ao desenvolvimento de capacidades empáticas, a propósitos de entretenimento e estimulação emocional. Os seres humanos são provavelmente os únicos animais capazes de inventar mundos artificiais, desde a dramatização de crianças até a produção de textos complexos de mídia, como peças de teatro, romances e longas-metragens”[8].

Sobre as muitas e meio surdas teorias da personagem

Ao se falar em uma “teoria da personagem”, se faz referência a uma história de mais de dois mil anos; entretanto, em muitos aspectos, os enfoques parecem paralisados em seus estágios iniciais. Projetos teóricos que abranjam as os temas fundamentais no que respeita à personagem são raros e mais raro ainda é o diálogo entre as diferentes tendências. Em uma tentativa de recolher de uma forma simplificada as diferentes abordagens, Eder[9] destaca os que considera os quatro grupos teóricos fundamentais nos estudos teóricos sobre a personagem, a saber:

A escola da hermenêutica, que opera predominantemente sob a orientação da intuição e apenas minimamente sob a direção de uma teoria, entende as personagens como imagens de seres humanos e ressalta a necessidade de levar em conta o contexto histórico tanto das personagens como de seus criadores. Questões como ontologia, constituição e recepção são deixadas de lado.

Posições psicanalíticas pressupõem uma analogia entre personagens e seres humanos, complementam a abordagem hermenêutica com modelos psicanalíticos de personalidade; assim, sua área central de interesse é a psique dos personagens e dos destinatários. As questões fundamentais da ontologia e da constituição textual dos personagens, como na hermenêutica, recebem pouca atenção.

Abordagens estruturalistas e semióticas, desenvolvidas nos anos 60 e dominantes por várias décadas, nasceram como reação às posturas hermenêutica e psicanalítica. Estes enfoques enfatizam a diferença entre seres humanos e personagens, quase sempre considerando estes como nada além de complexos de signos e estruturas textuais. O estudo da recepção e das propriedades fundamentais das personagens é marginalizado, e as conexões das personagens com temas e culturas só podem ser esboçadas de uma maneira muito abstrata e redutiva.

Desde a década de 1980, evoluíram as teorias cognitivas da personagem, que buscam se ancorar nas ciências cognitivas, em particular na psicologia e na filosofia analítica. Focalizam a modelagem mais exata dos processos cognitivos e afetivos no processamento geral da informação. Os personagens são concebidos como construtos da mente humana baseados em texto, cuja descrição requer modelos de compreensão de textos e também modelos da psique humana. Se distanciam da abordagem semiótica ao prestar mais atenção ao nível de recepção e da abordagem psicanalítica porque seus modelos da psique humana fazem uma representação mais detalhada dos processos mentais e têm uma associação mais forte com a psicologia empírica. Até agora, as teorias cognitivas concentraram seu trabalho na inter-relação entre personagem e recepção e não conseguiram estendê-lo ao nível da cultura.

Apesar de ter prevalecido uma rivalidade entre as teorias, com o passo do tempo também têm ficado em evidência as fatais consequências da polarização e a necessidade de criar interconexões entre elas para conseguir abordar integralmente aspectos dos estudos de personagens que, cada uma delas, agindo por separado e surdas aos ecos de aquelas que considera concorrentes, negligencia.

Á procura de oferecer uma teoria que integrasse as outras, Eder criou o que ele batizou como o “Relógio da Personagem”[10]. O autor apresenta um modelo que busca servir para fins analíticos, mas a leitura dele foi resultou tão instigante para mim, que tenho optado por abordá-lo a continuação como uma ferramenta útil não só para os teóricos e os críticos, mas também para os escritores durante o processo criativo da narrativa.

De acordo com esta heurística, as personagens têm quatro dimensões, que podem ser examinadas com base em pontos focais dos aspectos estéticos, miméticos, temáticos e causais:

A personagem como Artefato

Principal dimensão valorizada pelo estruturalismo e a semiótica, considera as personagens em suas relações com os dispositivos estilísticos e os tipos de informação oferecida, que geram as experiências perceptivas dos espectadores e, posteriormente, podem ser esteticamente refletidas por eles. Com base nessa reflexão, os caracteres são atribuídos a propriedades gerais de artefatos, como realismo ou multidimensionalidade. A pregunta a nos fazermos para pensar as nossas personagens como artefatos é: Como e por quais meios a personagem é representada?

A personagem como ser ficcional

Entre autores e consultores existe um certo consenso em entender a personagem em sua dimensão de análogo ao humano, endossando a tese de que a personagem tem o estatuto ontológico de ser ficcional. É o aspecto com o qual estamos mais familiarizados, por ser o que predomina como modelo analítico, herança da hermenêutica e da psicanálise, e como modelo de construção — basta pensar, por exemplo, nos manuais de roteiro cinematográfico de Seger, Field, McKee, ou lembrar da citação de Kundera na parte inicial deste artigo.

Pertencem a este aspecto todas as variações teórico-práticas que exigem, em maior ou menor medida, exercícios como a criação de biografias e perfis da personagem, pesquisa com pessoas reais que tenham questões em comum com a personagem, escrever uma carta para a personagem, escrever um monólogo desde ela, etc.

Assim, para pensar a dimensão humana do nosso personagem, as interrogantes giram em torno de: Que características e relações o personagem possui como habitante de um mundo ficcional? Como o personagem age e se comporta nesse mundo?

A personagem como Símbolo

O autor usa o termo “símbolo” num sentido amplo, capaz de abranger todas as formas de significados de nível superior, nas quais os caracteres podem funcionar como sinais de outra coisa. De que coisa, pode ser inferido de suas características como seres ficcionais e artefatos. Em palavras de Eder:

No que diz respeito ao simbolismo, a questão de quais significados indiretos as personagens têm então se transforma na questão de quais significados os espectadores devem inferir. Os espectadores podem processar ainda mais as informações de caracteres captadas no processo de construção do modelo mental. Eles podem associar diferentes significados às propriedades de um ser fictício, tais como tipos e grupos sociais, virtudes e vícios gerais, medos e desejos reprimidos, antítipos míticos e religiosos ou personalidades históricas.[11] [12]Para pensar a dimensão simbólica da nossa personagem, nos indagamos sobre: O que o personagem representa? Que significados indiretos ele transmite?

A personagem como Sintoma

Nessa perspectiva, as personagens são consideradas fatores causais ou consequências de elementos reais de comunicação; por exemplo, como o resultado do trabalho de seus criadores, como toda a carga contextual deles, ou como modelos para os leitores ou espectadores. Sobre esta dimensão, Eder explica:

“Ao considerar os filmes no contexto da crítica cultural, os atributos sintomáticos das personagens novamente desempenham um papel mais importante, pois podem elucidar as mentalidades culturais ou as consequências sócio-culturais de determinados filmes. Em todos esses casos, a análise deve recair sobre os aspectos tratados anteriormente: corporeidade, psique, sociabilidade e comportamento; modo de representação e propriedades de artefato; a motivação e a constelação formam a base da investigação do simbolismo e dos sintomáticos dos personagens.”[13] [14]

Para analisar a sintomatologia das nossas personagens, o recomendável seria fazer uma investigação íntima profunda e, se possível, estabelecer um diálogo crítico e criativo com pessoas diversas, que nos leve a responder (e a talvez nos surpreendermos com a resposta, que pode nos desvelar detalhes que não tínhamos nem imaginado): o que faz com que a personagem seja como é? Que efeitos ela produz?

De uma forma geral, os aspectos simbólicos e sintomáticos da personagem carregam o peso temático do livro ou do filme. Carregam, também, a postura ética do seu autor e é neste sentido que esta dimensão é tida como uma questão externa à obra e com a qual o autor não devia se preocupar.

Velhas novas discussões

Voltamos aqui ao velho, mas cada vez mais aceso, debate entre as duas posturas: os que defendem a obra per se, cujo autor não tem compromisso nenhum, exceto o compromisso com sua arte; e os que apontam para o entendimento da obra como uma construção com causas e efeitos histórica, social, económica e culturalmente contextualizadas e, por tanto, com uma responsabilidade social que perpassa a obra e da qual o autor não pode se isentar. Esse debate, sobra dizer, está longe de chegar a um consenso.

Na construção das personagens, o autor decide os atributos das mesmas, ele seleciona uns traços em detrimento de outros, dota essa figura de virtudes e defeitos, posiciona ela num contexto e não em outro, e todas essas decisões demiúrgicas dialogam entre si para criar um construto que, querendo o autor não, é uma intrincada rede de espelhos identitários para o público.

A pergunta não é apenas quais são os motivos que levam o autor a colocar essa combinação de informações em jogo na sua personagem, esse reservatório de atributos humanos, mas também (e talvez principalmente) se ele está fazendo essas decisões em plena consciência e até que ponto ele está deixando a inércia trabalhar por ele e repetir padrões opressivos e estereótipos que hoje não passam impunemente pelo leitor ou espectador, essa entidade que está entendendo, cada vez mais, seu lugar de poder como receptor daquele discurso.

Desse grau de consciência dependerá, me parece, a capacidade do autor de seguir adiante com sua obra e endossar as atitudes de suas personagens na sobrevida que elas possam chegar a ter uma vez que se fecha o livro.

Se quisermos entender como os personagens afetam seus receptores, precisamos entender de que maneira eles podem desencadear sentimentos. Eder oferece o seguinte modelo de recepção: “Percebemos as representações do personagem do filme, construímos modelos mentais dos personagens, associamos a esses significados indiretos e inferimos causas e efeitos socioculturais”. [15] [16]

Para o autor, esse processo de surgimento das respostas emotivas no receptor não aconteceria apenas na dimensão da personagem enquanto ser ficcional, mas tipos específicos de emoção estariam ligados a cada nível de recepção. Pode parecer uma obviedade dizer neste ponto que as personagens também podem despertar sentimentos também como artefatos, símbolos e sintomas, mas não podemos passar por alto o fato de que as discussões dramatúrgicas no que respeita à emoção têm negligenciado essas dimensões, ao se concentrar na noção de personagem como análoga à noção de pessoa. 

Autor – Personagem – Leitor: um vínculo empático

Comecei este artigo comentando a importância que os escritores dão ao exercício que, apesar dos riscos dado sua ampla margem de interpretação, chamarei de empático. Pois bem, a empatia, segundo Keen[17], “pode ser definida como uma partilha espontânea de sentimentos, incluindo sensações físicas no corpo, provocada por testemunhar ou ouvir sobre a condição de outra pessoa”[18]. Poderíamos, no nosso caso, acrescentar o verbo escrever.

Teóricos e especialistas do discurso que realizam pesquisas empíricas em leitura literária associam uma variedade de técnicas narrativas à empatia. Keen[19] explica que o principal recurso são as estratégias de identificação com as personagens, que incluem as escolhas sobre aspectos específicos da caracterização, tais como nomeação, descrição, implicação direta e indireta de traços, dependência de tipos, polaridades, redondeza, ações representadas, funções nas trajetórias, qualidade da fala atribuída e modo de representação da consciência.

Neste quesito, Smith[20] entra em divergência com Keen. Ele explica que, quando se fala em “identificação” com as personagens, tende-se a agrupar três fenômenos diferentes, mas interdependentes, a saber: reconhecimento (ser capaz de individualizá-los e identificá-los), alinhamento (em termos da vinculação espacial e o acesso objetivo e subjetivo que temos a informações sobre as personagens), lealdade (em termos morais e emocionais, pela maneira como a narrativa os representa). Para se referir à interação sistemática dos três, Smith criou o conceito de “estrutura da simpatia”.

O segundo grupo de estratégias narrativas associadas à empatia dizem respeito à situação narrativa (incluindo ponto de vista e perspectiva): a natureza da mediação entre autor e leitor, a pessoa da narração, a localização implícita do narrador, a relação do narrador para os personagens, a perspectiva interna ou externa dos personagens, incluindo em alguns casos o estilo de representação da consciência dos personagens.

Como vemos, cada uma das escolhas que o autor faz e que estão relacionadas com o exercício empático de escrever ficção, atravessam as quatro dimensões da personagem propostas por Eder, e não só a de personagem como figura análoga ao ser humano.

Embora, como escritor, eu queira afetar a mente do leitor – educar e iluminar, o que desejo ainda mais é sacudir o coração do leitor. Eu quero que minhas palavras abram um portal através do qual o leitor pode deixar o eu, migrar para algum outro céu humano e retornar “disposto” para a alteridade.[21] [22]

Quando a possibilidade, a habilidade e a disposição para inventar universos de faz de conta, se unem à oportunidade de circulação, pontes novas se criam; algumas delas, levadiças, outras, permanentes. Pontes entre nós, levantadas por esses estranhos artefatos feitos de letras e de tanto mais, chamados personagens, símbolos e sintomas de tanta vida e de tanta morte.  Personagem, que em sua etimologia vem do latim persona, que vem do etrusco phersu, “máscara teatral”, do grego prósopon, “face, máscara”. Em suma, um ser que se aproxima daquele “nunca real e sempre verdadeiro[23]”, que diria Artaud[24] sobre a arte.


[1] CANETTI, Elias. A consciência das palavras. São Paulo: Companhia das letras, 2011, s/p.

[2] A autora, comparada com entusiastas como Martha Nussbaum e Steven Pinker, é cética com relação a tais efeitos. Ela é enfática em sua posição: “Podemos afirmar a robustez da empatia narrativa, como uma transação afetiva realizada através da escrita e leitura da ficção, mas devemos hesitar em amarrar a empatia dos leitores a certos resultados da ação altruísta. A empatia narrativa não precisa necessariamente executar renovações da virtude cívica nem do comportamento individual para ser reconhecido como um componente central da resposta emocional à ficção, cuja perda deve ser lamentada”.

[3] KEEN, Suzanne. Empathy and the Novel. New York: Oxford University Press, 2007, p. 127.

[4] FREUD, 1907, apud KEEN op. cit.

[5] LODGE, David. Consciousness and the Novel: Connected Essays. Cambridge: Harvard University Press, 2002, p. 42.

[6] KUNDERA, Milan. A arte do romance. 2009, p. 136.

[7] EDER, Jens. Film Characters: Theory, Analysis, Interpretation (English outline of the German monograph: Jens Eder: Die Figur im Film. Grundlagen der Figurenanalyse). Marburg: Schüren, 2008, p. 6.

[8] Tradução livre do original: “The cultural significance of characters can hardly be overestimated. They serve individual and collective self-understanding, the mediation of images of humanity, of concepts of identity and social role; they serve imaginary exploratory action, the actualization of alternative modes of being, the development of empathic capabilities, entertainment purposes and emotional stimulation. Humans are probably the only animals capable of inventing artificial worlds, from the children’s role-playing to the production of complex media texts like plays, novels and feature films”.

[9] EDER, Jens. Film Characters: Theory, Analysis, Interpretation (English outline of the German monograph: Jens Eder: Die Figur im Film. Grundlagen der Figurenanalyse). Marburg: Schüren, 2008, p. 20 et seq.

[10] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 22 et seq.

[11] Tradução livre do original: With regard to symbolism, the question of what indirect meanings characters have then changes into the question of what meanings the viewers are supposed to infer. The viewers can further process the character information grasped in the process of mental model building. They can associate different meanings with the properties of a fictional being, such as social types and groups, general virtues and vices, repressed fears and desires, mythical and religious antetypes, or historical personalities.

[12] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 32.

[13] Tradução livre do original: “When considering films in the context of cultural criticism, the symptomatics of the characters again plays a more important role because it can elucidate cultural mentalities or the socio-cultural consequences of particular films. In all these cases, the analysis must fall back on the aspects treated previously: corporeality, psyche, sociality, and behavior; mode of representation and artifact properties; motivation and constellation form the foundation of investigating the symbolism and the symptomatics of characters”.

[14] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 32.

[15] Tradução livre do original: “we perceive the character depictions of the film, build up mental models of the characters, associate with these indirect meanings, and infer socio-cultural causes and effects”

[16] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 34.

[17] KEEN, Suzanne. Empathy and the Novel. New York: Oxford University Press, 2007, p. XX.

[18] Tradução livre do original: “a spontaneous sharing of feelings, including physical sensations in the body, provoked by witnessing or hearing about another’s condition”.

[19] KEEN, Suzanne. Empathy and the Novel. New York: Oxford University Press, 2007, p. 93.

[20] SMITH, Murray. Engaging Characters: Further reflections in EDER, Jens; FOTIS, Jannidis e SCHNEIDER, Ralf. Characters in Fictional Worlds. Revisionen 3. Berlin/New York: De Gruyter, 2010. p. 234.

[21] Tradução livre do original: “While, as a writer, I want to affect the reader’s mind—to educate and enlighten—what I wish for even more is to jolt the reader’s heart. I want my words to open a portal through which the reader may leave the self, migrate to some other human sky and return ‘disposed’ to otherness”.

[22] KIDD, 2005, apud KEEN, 2007, p. 124.

[23] Tradução livre do original: “Jamais réel et toujours vrai, non pas de l’art, mais de la ra-tée du Soudan et du Dahomey”.

[24] ARTAUD, Antonin. Jamais réel et toujours vrai. Marseille: Musée Cantini,1945. Disponível em: < https://br.pinterest.com/pin/701717185659452457/?lp=true >. Acesso em: 03/08/18.

La resistencia

Conto/Cuento, Español

En un resumen de noticias, les advierto que la espera me ha dejado con tres sofás con tos y dos mesas con artritis, una nevera con hedentina de aguas olvidadas y un aire acondicionado con metástasis. El ventilador remó y remó sus aspas para secar los charcos de la última lluvia, pero no logró salvar las ropas que ustedes, irresponsables, dejaron en las gavetas más bajas, y a mí no me vengan a reclamar de estos mundos de musgo que están naciendo entre las mangas y los ruedos, porque quién los mandó a irse solamente con lo que tenían puesto. ¿Cómo les digo a las malparidas polillas que respeten por lo menos los rostros de los viejos y el cuaderno de papá, que se coman mejor el álbum de aquel congreso extraño o la pila de periódicos viejos que está debajo de la batea? ¿Qué me hago yo con toda esta gente guardada en las cajas, ahora que esos animaluchos están acabando álbum por álbum con las promesas que ustedes eran?

Gente, mi gente, ¿cuándo es que van a llegar? Mientras ustedes no vuelvan y no tengan el valor de estar aquí dentro y decirme que a pesar de nuestra historia me están dejando, yo voy a esperar, yo me debo a ustedes, yo soy toda fidelidad, toda carencia y prefiero implotarme antes que dejarme invadir.

Si grito socorro es porque la marabunta no tarda en llegar, grito socorro, socorro y no escucho que ustedes vengan. Me desgañito pidiendo salvación y no llegan las risas los gritos la música la corneta del carro el saludo al vecino. Me ardo la tráquea en desespero, pero somos tantos los que aullamos, que nos volvimos canción de ultratumba que los vivos ya no escuchan, porque escuchar duele en la punta de los dedos cuando se está lejos, y ustedes no se despidieron pero alguna idea me hago porque he estado aquí el tiempo suficiente como para saber cuando el paseo es corto y cuando la flecha se curva y se traga a sí misma y uno se vuelve el lugar al que se va de visita a veces, cuando la nostalgia muerde los tobillos.

Me he vuelto esta vergonzosa carencia, un ruido de piedra rota, sueno a legiones de polvo, a mocos mugrosos de hollín, a flema de ácaros y cucarachas gritonas y hambrientas, que por más hambrientas que sean no les ganan a esos que vienen, que están cada vez más cerca, ya siento su tibieza y no se parece a la de ustedes y ¿dónde están ustedes? ¿Dónde están ustedes, si ustedes son aquí y aquí está vacío? ¿Quiénes son ustedes, si ustedes son esto y en esto ya no los veo?

Ya, ya, ya comienzan las miradas, los acercamientos, el tanteo. Ahora están ellos forzando la entrada y no son dos ni tres, ni quince, son muchos, son más y más y siguen llegando. Son fuertes, son bravos, son tercos y me están rodeando ya con saliva en la boca y poros alebrestados.

Yo pido auxilio en mí nombre y en el de nosotros, aunque ya no sepa bien de cuál nosotros hablo, porque me deshago en tantos ripios que no sé cuáles son mis ruinas y cuáles las de mis cosas, pero eso acaba de desimportar porque en vez de llegar ustedes, llegaron ellos, y yo aquí sola, vulnerable, atacable, habitable, con defensas de cartón e importancia de papel periódico meado por perros, y ya me rasgaron la vieja y guerrera piel que tantos besos adolescentes veló y ya me están cortando una oreja y la otra y ya no es suficiente pedir cuidado, porque ahora la ley es pedir clemencia.

¿Donde ustedes están no existe la urgencia? Me han arrancado pestañas uñas cabellos, estoy herida, estoy jadeante, estoy cojeando y ustedes dónde están, que me prometieron más luces, mucho verde, menos rejas, y yo no olvido deudas, yo emplazo, yo exijo.

Dicen que es más seguro dejarse hacer porque si uno grita puede ser peor, pero yo voy a gritar, yo voy a hacerlos llorar de ruido, yo voy a chirriar con cada tubería cable bloque columna viga y cállate, niña intrusa, cállate ya y no me mires, no me toques, niña, que mientras mis dueños no lleguen yo seré una casa en huelga, una casa en guerra, una casa en retirada, niña, no estés cansada, no, no te duermas, no te pienses al fin en paz en mí, niña, no, que yo no tengo ya más corazón para nuevas despedidas.

Fantasmas

Poema, Português

Eles gostam dos meus nomes.

Aplaudem a multidão que trago 

pendurada em sobrenomes e alcunhas

insígnias sobreviventes da ventania

demoram meu título em suas línguas 

músculos de magias violentas

María, a casa sem ele é uma casa vazia

María, a casa vazia é um país morto

María, a tua casa, o teu pai e o teu país 

não cabem mais nas palavras 

que você conhece.

Eles me deram um novo alfabeto.

Gostam de me chamar cedo

invariavelmente eu aceito o convite

após o café da manhã

arranco o sorriso as unhas a sede

deixo um volto logo

insinuado nas costas 

e saio sem porta sem muro 

sem ver a previsão do tempo

saio de mim com pressa

fio de Ariadne feito rabicó.

Eles modelam a minha prosódia.

Nunca sei se volto pronome 

às vezes me duelo

como duelen los verbos avulsos

alguns passeios com eles me deixam 

a sensação esburacada de complemento 

circunstancial de lugar de tempo de companhia 

saio de mim sem saber se regresso 

se nos reunimos todas eu 

no elo das quatro palavras 

que nos nomeiam.

Eles me fazem sentir bem-vinda.

Patria

Conto/Cuento, Español
"Y los caminos de ida, en caminos de regreso se transforman, porque eso, una puerta giratoria, no más que eso, es la historia". Jorge Drexler

Mientras la fila de chilenos llegando a Santiago zigzagueaba en varios pliegues, la de extranjeros se resumía a dos mormones color rosado camarón, una mujer que buscaba algo en su cartera desesperadamente y su niña-copia-somnolienta que no pasaba de los cinco años.

Apenas Nina puso el ojo en ellas, supo que sus pasaportes eran de latitudes tropicales. No sabía decir bien por qué, esta vez no eran los rasgos evidentes que, aunque le dolía, tenía que reconocer, como la voluptuosidad, el embutimiento en el vestuario ni el maquillaje en aquel límite delicado entre la perfección y el abuso. La mujer y su pequeña hija tenían algo así como la impronta, para otros imperceptible, del mucho merengue bailado, del bairro desordenado al que nunca llegará la clasificación de la basura, del afecto que se desparrama en gritos y carcajadas y besos y chistes en las aceras, palcos irrefutables de la historia mínima caribeña.

―¿Próximo? ―pidió Nina, desde atrás del vidrio de su taquilla, aumentando la ansiedad de la mujer, que se acercó con pasos tambaleantes, repartiendo la atención entre seguir revolviendo dentro de la cartera y no perder de vista a su nena.

―Buenas noches. Pasaporte, por favor.

―Buenas noches ―musitó la mujer de sonrisa avergonzada.

La viajante le pasó a Nina los pasaportes, junto con el formulario de migración: Venezuela, de nuevo.

―Necesito el permiso de viaje de la niña.

―Yo sé que está por aquí, ya se lo paso ―dijo la mujer, con la voz ya mojada de llanto.

―¿Primera vez en Chile?

―Sí.

―¿Viene por turismo?

―Sí.

―¿Y cuánto tiempo va a durar su visita?

―Mami, apura, tengo sueño… apúrate ―insistió la nena, restregando la cara contra la cadera de su madre.

―Un mes solamente ―respondió con una voz que comenzó a sonar mendicante. Era tan evidente la artimaña y tan prostituida en los últimos meses que Nina ya no sentía la conmiseración de otros tiempos.

―¡Ah, mire, aquí está el bendito papel!

Aliviada, la mujer le pasó el documento a Nina, que ya preparaba la siguiente exigencia.

―Pero usted no tiene el pasaje de regreso.

―¿Ah?

―Usted sólo tiene el pasaje de venida, no compró el de retorno.

―Ah, sí, sí. Tengo la reserva aquí, pero es que quien lo va a pagar es mi amigo… aquí.

Nina la miró desconfiada. Siempre que salían con la vieja historia de la reserva, ella aprovechaba la bella oportunidad de disfrutar de la parcela de poder que su carrera le ofrecía.

―En el check-in deberían haberle exigido el boleto de regreso.

―Es que mi amigo va a pagarlo en estos días…

―Yo no puedo darle entrada sin el pasaje de regreso.

Desde su efímera cúpula, Nina vio quebrarse a la mujer, que se encurvó sobre la taquilla como si de repente el pánico le hubiera torcido las vértebras.

―¿Mami, por qué estás llorando? ―dijo la niña imitando el llanto de la madre.

―Señora, por favor…

La fila de chilenos miraba atentamente el episodio; de sólo dar una miradita rápida, quedaba claro que la mujer contaba con una hinchada importante entre los colegas pasajeros del vuelo.

―Usted no sabe todo lo que yo he pasado, usted no se imagina…

Mientras mujer e hija lloraban amarga y sonoramente, Nina demoró examinando una y otra vez los documentos, estudió informaciones innecesarias en la pantalla del computador,  fue a hablar con otros funcionarios y azuzó el terror psicológico al señalar desde lejos a la mujer.

―Por favor, por lo que usted más quiera, déjenos entrar.

Y entonces se completaron los cinco eternos minutos que Nina consideraba necesarios para que el susto tuviera su efecto y la historia de la llegada de esa mujer a su futura nueva patria tuviera la gracia del suspenso. Nina estaba convencida de que, sin la mítica de la aventura, los extranjeros podían sufrir del síndrome de la fuga fácil, que los atormenta durante años, haciéndolos sentir poco meritorios del estatus de refugiados. Así había sido con sus padres chilenos cuando llegaron a Venezuela en el 73, después del golpe, y así había sido con ella misma cuando volvió a Chile después del Caracazo. La facilidad de la historia de ellos era una vergüenza en la comunidad mundial de exiliados.

―Bienvenidas.

Sólo varios minutos después del sello mojar las páginas del pasaporte, la mujer logró sonreír. Y entonces Nina sintió que su trabajo estaba hecho.

Cuando terminó su turno, vio que la mujer y la niña, dormida vuelta un bojotico en la hilera de sillas duras, esperaban para ser atendidas en la Oficina de Extranjería, aquel cubículo con luz fría y la bandera de Chile, donde uno va a pedir refugio y a sentirse mal sólo de mirar aquel pedazo de tela nacional que no es el mismo que uno dibujó en la escuela y sobre el que no sabe qué más sentir.

Poco le importaba a Nina que la huída de sus padres y la suya propia fueran en el sentido contrario al de la brújula política de esa mujer. Poco le importaba porque ella sabía que había que estar muy desesperado para aventurarse a llegar sola a un país que nunca se ha pisado, sin pasaje de regreso y con un hijo a cuestas.

Confiada de no haber hecho más que su obligación moral con una compañera migrante que comenzaba su jornada de exilio, se sentó a su lado e intentó ser acogedora.

―¿Difícil dejar la patria, no?

La mujer miró a Nina y Nina quiso ver en ella el desamparo, la incertidumbre, el pedido de socorro ajeno, pero lo que encontró fue el suyo propio.

―Mi patria era mi madre y se me murió. Ahora mi patria es mi hija y ella está conmigo.

Nina, que no tenía ya padres y que ya no planeaba tener hijos, que no tenía perro y había botado al marido, de repente se vio desamparada de una forma irreparablemente nueva. Súbita huérfana de aquel deseo de volver a Venezuela que, treinta años después, aún alimentaba. Huérfana de aquella su patria, porque su patria era en verdad el sueño de su patria y había llegado la hora de aceptar que ese sueño estaba agonizando.

Como é coisa da vida dos mortos, viajar

Conto/Cuento, Português

Antes viajei tão pouco que me sinto roubado pela vida, pai. É sério. E olha que tentei, mas como é caro viajar; como é sempre um luxo viajar; como é coisa da vida dos outros, viajar. Por isso agora, com a mulher na Venezuela, uma filha no Brasil e outra na Alemanha, estou saldando uma dívida antiga comigo mesmo. Não do jeito que eu teria desejado, mas já é algo.

Tinha anos me preparando para essa aposentadoria. Mas é uma grande mentira que alguém possa se preparar coisa nenhuma. Tinha sido necessária tanta degradação, tanto ensañamiento? No começo, para mim só existiu o não entender e o não saber se tinha alguém a quem pedir explicações. Logo vi que não tinha ninguém. Eu sempre tive certeza disso, mas, nos últimos tempos, assustado, comecei a duvidar. O que eu podia fazer agora, no meu novo estado, quais eram minhas novas atribuições, quais as vantagens e quais as limitações? Aliás, tinha limitações? Era o choque da folga prematura.

Aquela sala fria, fechada, metálica, me oprimia. Me mandaram esperar, mas ninguém vinha me dizer nada. Então uma força, uma sucção, me levou de um pulo até um jardim. E lá estavam elas três, La Nené, María e Nana, sendo abraçadas e acariciadas, três rostinhos arrasados, três corações amarrotados como uvas passas. A mesma força que me levou até aí, de repente me fez começar a fazer a dancinha que, tempos atrás, eu tinha convertido em símbolo durante uma viagem familiar a Cuba, numa tentativa de tirar da minha bengala, última aquisição do quebranto, esse peso de velhice e pouca mobilidade, só que agora eu fazia aquilo e só ela, só Maria, me via enquanto eu dançava engraçadinho e terminava com jazz hands e meu tradicional “qué hubo?”.

Me aproximei, invisível e volátil, entre os presentes, e devo confessar que não foi um bom passeio. Não tinha como sê-lo. Ainda bem que durou pouco. De novo fui puxado até o jardim e meu corpo começou a se mexer vez mais e mais outra, num loop dançante e os “que hubo?” como uma espécie de remix sentimental. Era ela, María, que se abstraía de tudo e me fazia acontecer do jeito que ela queria. Eu, chegando dançante no meu funeral, de chapéu de aba curta, bengala e sorrisão.

Deduzi então que existia uma sobrevida, mas que ela não dependia já da minha vontade, e sim daqueles que me pensavam. Batizei esses momentos como “convocações”. Pena que não consigo sistematizar o processo e fazer algum manual para ajudar aos colegas que ainda estão do outro lado da cerca.

Boa menina, tua neta, pai. Me pensar dançando é o melhor jeito de me pensar.

*

Mas, luto é luto, e de um luto pós hospital, pós hospital público de sala e imundícias compartilhadas, não se sai ileso. Nos dias seguintes, os convites foram desastrosos. Os pesadelos se apoderaram das meninas e de La Nené. Aí não tive outra opção a não ser ficar pulando de uma para outra e fugir da agonia que os subconscientes teimavam em lembrar. Mesmo que eu quisesse – e eu não queria – não conseguia ficar muito tempo com ninguém que tivesse vivido a agonia junto comigo.

Então ia visitar a Mamá Ucha, que desde o primeiro dia recuperou as imagens mais bonitas e refrescantes e as usou como tábua de salvação. Eu criança, jogando baseball com meus irmãos sem quase conseguir segurar o taco de beisebol direito. Eu, adolescente, defendendo com unhas e dentes e toda a rebeldia que cabia em meus hormônios meu direito a deixar crescer o cabelo. Eu, na universidade, namorando La Nené, com seu cabelão comprido e pretíssimo, com seu ar tímido-elegante e sua cintura fininha; eu levando-a para conhecer a família.

Foi um refúgio habitar as lembranças dispersas da minha mãe, da minha velha e impossivelmente triste mãe. Coitada da velhinha. Nenhuma mãe no mundo devia sobreviver aos filhos. Isso é um erro da natureza, da física e das metafísicas. Mamá Ucha também escorregava, é claro. Volta e meia se deixava arrastar a imagens do lado besta da saúde e então eu fugia. Ficar era reviver algo que já não me doía no corpo, mas que me espichava a alma, e alma é tudo que eu tenho agora.

*

Demorei um tanto para entender que minha relativa autonomia não se limitava a escolher qual convocação atender, mas que se estendia inclusive a me antecipar e eu mesmo possibilitar as situações. Existia a opção de semear sonhos e lembranças? Esse já era outro patamar. O além começou a ficar mais interessante.

Os colegas daqui, você os conhece bem, pai, são uma quadrilha de defuntos por vocação, alguns realmente queridos e divertidos, e outros — que eram uma praga da que eu fugia em vida e com a que nunca imaginei ter que compartilhar a eternidade —, ficam dando pitaco, exigindo que eu assuma o novo estado e (re)conheça pessoas.

Abuela Herminia manda eles calarem a boca e me aconselha a exercitar mais as convocações autônomas, coisa que ela mesma teria gostado de fazer mais, mas naquela época tinha muita interferência das orações que os parentes faziam para a paz de sua alma e tudo aquilo e ela se deixou convencer daquela ideia do descanso eterno e o céu e ficou esperando e esperando, até que foi tarde demais. Quando percebeu a cilada em que tinha se metido, era tarde: já não era convocada com tanta frequência (embora cada invocação fosse agigantada e amorosa) e tinha sérios problemas para criar ela mesma os momentos; por teimosa, não tinha exercido a devida prática, não tinha o ofício, como se diz, de promover encontros nos sonhos. Então, eu prefiro ouvir a minha avó – umas das poucas pessoas, junto contigo, pai, que, em vida, me faziam querer morrer para encontrá-la.

Você poderia tentar fazer o mesmo que eu, pai. Dá até para tentar ir juntos. Já pensou, você e eu visitando Mamá Ucha? A velhinha ia adorar.

*

Decidi acompanhar María em sua volta ao Brasil, onde ela morava fazia três anos, com Rafael, meu genro, um cara que sorri de dente pelado e de quem eu gosto muito porque ele faz por merecer minha filha.

Claro que eu poderia ir direto, mas lembrei que ela dorme pouco durante os voos e pensei que podia ser uma boa ideia ir de avião, com ela. Foi durante a viagem que fiquei sabendo. Aconteceu que ela não estava dormindo, mas, mesmo assim, me via, me via! Fixava seus olhos em mim e me dirigia cada palavra do monólogo fragmentário de seu pensamento. Eu não só conseguia convocar em sonhos ou lembranças, como nós dois éramos capazes de criar novos momentos, que em vida não vivemos, só pela força das nossas vontades?  Se eu achava que a saudade era a tristeza derivada da incapacidade de criar novas memórias com os seres amados, então nós tínhamos encontrado a forma de matar a saudade.

Você podia ter me contado, pai, dos alcances da comunicação com o além, né? Tudo bem que a gente aprende mais quando experimenta, mas ia me economizar um tempo. Já sei, nem precisa me dizer nada. Tempo é só o que temos, então para que economizar.

Com a nova faculdade em pleno funcionamento, eu queria fazer de conta que estava tudo certo, normal, durante o voo, mas eu não tinha assento. É verdade que eu poderia me sentar em cima de qualquer um no avião, que ninguém ia sentir, mas ela estava me vendo e isso ia deixa-la mais nervosa ainda. Decidi ficar como papagaio no encosto do assento. E ela querendo que eu me sentasse. Lá pelas tantas, me deitei no espaço da saída de emergência e só então ela conseguiu dormir.

O Brasil me chamava mais a atenção porque lá, nas convocações de María, eu permanecia menos gasto, menos doente. Ao ter vivido a parte mais cruenta da minha doença desde a distância, ela estava mais a salvo do horror e por isso seus convites logo ficaram limpas de hospital e viraram as mais felizes. Embora eu sentisse nela, em cada encontro, um remorso que não sabia como desfazer.

No desembarque, em pleno estresse de recuperar as malas, ela se distraiu e eu fui parar de novo com meus colegas. De novo viajando, Morán? Maldita inveja de outro mundo, é igualzinha em tudo que é lugar.

*

Aconteceu então que um dia as minhas três mulheres me chamaram ao mesmo tempo. La Nené, num sonho tranquilo, desses em que a morte e o reencontro não são o assunto principal. Nana, numa lembrança interrompida por imagens de réquiem, mas bonita, afinal. María, numa falsa ou uma nova lembrança.

Isso já tinha acontecido antes, mas até então eu achava que precisava escolher. Assumi que a tele transportação era uma virtude natural do estado defunto, talvez pela tradição que aprendi em vida. Mas a ubiquidade era um assunto novo. Nunca me detive para pensar isso, inclusive porque, até pouco tempo antes de mudar de estado, eu achava que morrer era um ponto final. Nunca contei com esta simpática, embora desajeitada, sobrevida onírico-memorial-performática. O ponto é que aí estávamos, os três eus, em três idades distintas. Você não vai acreditar, pai. Imagina só a cena:

Caminho com Nené em Rubio, onde as ruas que antes percorríamos, na realidade da vigília, alguns anos atrás, hoje são como de E.V.A. e ela tira os sapatos porque diz que quer sentir o fofinho e eu, que não posso ficar para atrás e que não perco oportunidade de desafiar as noções locais de ridículo, também os tiro e não só os tiro como protesto por não ter tido essa ideia antes. É bem fofo mesmo. E é limpo, coisa que minha grima de andar descalço agradece. Como se a cidade toda fosse uma grande escolinha ou um tatame.

Revivo com Nana o momento em que cheguei de Ciudad Ojeda, dirigindo o carro recém-comprado, um mustang prata de duas portas, de 83. Vejo as caras de Nana e de María e são de um brilho que não há dicionário que consiga ter palavras para contar. Primeiro carro da vida delas. Tivemos algum outro quando María era bebê, mas disso nem eu lembro muito bem, imagine ela.

E com María, me permito minha já testada capacidade de invocar soberanamente novas situações. Fazia dias, ela andava me convocando em suas tristezas, entre outras coisas, porque estava prestes a trocar de apartamento e de repente percebeu que esse espaço tinha sido a última morada dela em que eu, de fato (o de vida, digamos), estive presente. O que que eu fiz? Escrevi e encenei (que é o mesmo que viver, no caso) todo um sonho mirabolante, cheio de aventuras imobiliárias, de surrealismos e plasticidades, bem do jeito que ela gosta, que terminava com ela chegando a uma casa chique que ela, ou uma versão rica dela, estava cogitando alugar e quem é que estava lá, na piscina, com os olhos vermelhos e a pele já enrugada de tanto ficar de molho, segurando um mojito na mão? O mesmo que fala. Euzinho, desdobrado e poderoso. Sucesso total e rotundo. Ela parou de se atormentar com esses detalhes técnicos de ir para uma casa que eu não tivesse conhecido; pegou certinho a mensagem: eu estou onde ela estiver e isso nem se discute.

*

Você acha que eu convoquei o senhor o suficiente, pai? Com o tempo, os convites são menos, fala a verdade… Ainda bem que eu deixei uma legião de fãs lá, somando a família e a parentela, os amigos e os conhecidos, as centenas de estudantes que passaram por minhas aulas. Genética boa para a simpatia, mas vergonhosa para a saúde cardiovascular, né, Seu Gonzalo?

Acho que não exagero com minhas expectativas de trotamundos. Nos últimos três anos, fiz ótimos passeios que todo mundo ficou com vontade de repetir. No Brasilzão, já não sou mais um desconhecido. Brinco com meu português aprendido com Zeca Baleiro e aprimorado na base de muito Caetano e Novos Baianos e muitas aulas de literatura e grupos de estudo em que acompanho María, que não termina uma coisa quando já está engatando outra e quando eu for ver já vai estar fazendo pós doc vai saber onde e La Nené e eu só esperando os netinhos.

Com Nana, estou conhecendo uma Europa que nunca pensei que fosse gostar tanto. O alemão está melhorando, mas devo aceitar que daquele lado eu aprendia mais rápido. Também, né, os coleguinhas e parentes deste lado são uma preguiça só e a preguiça é uma doença animicamente transmissível.

Enfim, que sou a inveja dos parceirinhos lá do além, por esta minha sede de mundo e por ter quem me ajude a saciá-la. O corpo que eu tinha virou pó cinzento que foi parar em Paraguaná, na Venezuela; no Guaíba, no Brasil; no Mediterrâneo, na Espanha; e em Varadero, em nossa querida Cuba. Pequenas cerimônias que elas acharam necessárias. E eu, que estava mais nelas do que nas cinzas, dei um jeito de participar ativamente: em Paraguaná, criei toda uma aventura burocrática a partir da necessidade de encontrar uma lancha porque, de outra forma, com a corrente em direção à terra, o pozinho acabaria nas barraquinhas dos turistas e não no alto mar, e ninguém quer isso, por favor. Já na lancha, quando era para o pozinho cair na água, assoprei um vento travesso no sentido contrário e o rostinho de Javier, meu sobrinho, ficou coberto de pó, causando uma gargalhada geral que todo mundo estava precisando, ao meio dessa coisa dilacerante que é uma despedida. Rasgar a cortina de dor que asfixia nesses primeiros dias. O riso que abre os pulmões e as ideias.

No Mediterrâneo, roubei um balão vermelho de uma criança – que ficou chorando horas a desgraçada – e o arrastei até onde estava Nana e o deixei por aí, dançando para ela. A coitada estava frustrada, nunca foi boa com trabalhos manuais, então o pobre do barquinho em que colocou minhas cinzas parecia mais uma balsa-maravilha da engenharia da miséria caribenha, daquelas que os cubanos faziam para chegar a Miami. E como não chorar por uma nova despedida, e como não rir de ver a tentativa-de-barquinho se afundar a escassos centímetros enquanto um balão parece, inexplicavelmente, imantado ao píer.

Em Varadero rimos demais. Maria levou as cinzas num tubo de ensaio. Bem coisa de La Nené fazer isso: roubar um tubo de ensaio do laboratório da universidade e botar as cinzas do professor Morán nele para serem transportadas ilegalmente de um país a outro. O assunto é que lá eu nem precisei mexer no set. Acontece que água salgada entrava e saía sem levar consigo mais do que alguns pontinhos de pó. Se recusava a se misturar. E eu juro que eu não fiz nada. María e Rafa ficaram um tempão tentando “me esvaziar”. Os primeiros minutos, ela ficou tensa, frustrada, mas logo veio o riso, uma luta fodida contra as ondas, mexendo o tubinho, virando o tubinho, submergindo o tubinho, assoprando o tubinho. Altas gargalhadas. Toda tristeza em nós é tragicômica. Uma guachafa absoluta, como em nossos melhores momentos.  

Só no Guaíba, me deixei ir, triste, num barquinho, desta vez bem feitinho. Aí, nem eu estava animado. O dia era cinza e Porto Alegre era uma cidade em que eu queria ter vivido e não deu tempo. Do outro lado também temos nossos altos e baixos. Você sabe bem disso, pai. É claro que ninguém queria ter morrido tão cedo. E menos eu, que tinha uma bucket list que rendia umas cinco ou seis vidas ordinárias. Mas passa. Passa. E tem suas vantagens.

A ubiquidade é um negócio fascinante, pai. Sem passagem, custos de hospedagem nem de alimentação – essa parte eu não gosto, nós, deste lado, não precisamos comer, aliás, não podemos comer, então eu sinto uma fome que não é fome verdadeira senão uma gula da pior categoria, queria comer até explodir de tanta coisa por aí, agora que não preciso me cuidar mais, queria beber toda a água e os sucos e a cerveja e o vinho e todo o líquido que a doença me roubou durante os últimos anos de vida de vivo.

Apesar das reclamações de alguns colegas do além, que querem que eu tenha uma vida de morto sedentário, de jogar dominó e cartas, de passear só com horário agendado, de filosofar a morte, mais chatos em morte do que eram em vida, viajar é o que mais faço. Ah, pai, como é bom viajar; como é coisa da vida dos mortos, viajar.