1990: o que fazer após a queda de um muro

Conto/Cuento, Português

O mar pardo. A areia dura. Uma bicicleta mais velha que todas as bicicletas. A casa azul no silêncio do não-turismo. Alice Souza tem dezesseis anos, dezesseis verãos amando essa praia e a certeza de que, com a venda do imóvel, morre uma parte de si.

Alice decide que deixará a bicicleta como patrimônio indissolúvel da vivenda. Ela deve renunciar a essa paisagem, e sua amada companheira não tem por que segui-la. Levar para a cidade uma bicicleta tão oceânica seria enganar-se, querer transformar o amor fugaz dos verãos num matrimônio. –Não, Estrela, minha amiga. Você fica.

Em toda a praia, só há dois lugares proibidos para pedalar, a caverna dos índios e o manguezal vermelho. Um é garantia de um pneu furado; o outro, ser uma mosca numa teia de aranha. E Alice, que bem sabe que todo fim de era está marcado por grandes conquistas, concede a Estrela o derradeiro desejo de explorar o inexplorado. Sabe que esse arrebatamento tem tanto de assassinato quanto de suicídio. Com Estrela ferida de morte, Alice empreende o regresso.

No crepúsculo, a casa não parece tão detonada como dizem seus pais. A cerca de conchas marinhas continua linda, perfeita para ficar se amassando com o garotão que vende ostras e acorda paixões precoces. O portão de madeira está surrado, sim, mas tem o charme dos postais velhos. E o quarto dos bricabraques, ah, quando teria de novo acesso a tanta diversão, centenas de objetos à espera da ressurreição; objetos dos que Estrela, com seu pneu furado e seu aro torto, começa a fazer parte.

Alice nina sua amiga entre as outras bicicletas desmembradas e segue até a cozinha, chamada pelo cheiro da ambrosia da Senhora Arminda, número um absoluto em seu inventário de nostalgias. Arminda, faxina do domingo. Arminda, “Senhora Diana, aqui têm seu cafezinho”. Arminda, marido pescador alcoólatra. Arminda, “cuidado com o bandido das ostras, Alicinha”. Essa mesma Arminda, quem durante dezesseis verãos chegou com ambrosias, canjicas e tortas de bolacha, e iluminou a casa com seu sorriso. Essa mesma Arminda, agora chora nos braços de seu pai.

Os milhões de vezes que ele recusou o mar e ficou sozinho na casa; as comidas, sempre as preferidas dele; a timidez exagerada de Arminda em sua presença e seus vestidos de vadia colona. Entre as elipses e os subtextos de suas lembranças, respira uma história submersa que acaba com a boca de seu pai beijando as lágrimas dessa mulher a quem –não cabe a menor dúvida– ama.

Pela janela, detrás da cena proibida, Alice descobre o carro na garagem. Em algum ponto do desconcerto, sua mãe chegou. Ela corre para o quarto, onde a encontra deitada na cama, lendo pela enésima vez Quem mexeu no meu queijo? –Não chore, meu anjo– lhe diz sem levantar a vista do livro. –O que eu posso fazer se nunca aprendi a fazer ambrosia?

Entre os caules do manguezal vermelho, Alice pune-se com a dor da estreia. Um primeiro sexo desajeitado e sem amor, com fedor de ovo podre. O vendedor de ostras lhe mente amores, encontros futuros, cartas semanais. Seus olhos se parecem com a lua que pendura do céu, plana e branca, como de cartolina. Lembram os de sua mãe, acomodada na cadeira de balanço, posando para a vida.

Um último beijo nas paredes azuis e adeus. No porta-malas do carro, vai Estrela, que convenceu Alice de que com uma mínima re-alfabetização, seria uma bicicleta do mundo. Entre os abacates e a coleção de conchas, vai o cadáver de seu sorriso infantil, não conseguiu deixá-lo entre os bricabraques; o quer com ela, como um postal de quando a vida era vida e não teatro; o quer perto de si, para aguentar o peso das máscaras. No assento dianteiro, seus pais conversam sobre os países da defunta União Soviética, cujas independências estão se contagiando como peças de dominó.

A personagem, esse estranho artefato suspeito de carregar vida

Debate, Português

A ideia de se transformar em outro no exercício de escrever ficção é habitual entre escritores: uma espécie de desdobramento de si mesmo a serviço de um outro ser, feito de palavras e magicamente trazido à vida para transitar numa trama de uma história que será recebida por outros seres e terá algum impacto, ético e estético, neles.

Para Canetti[1], a função do poeta é ser guardião da possibilidade da metamorfose e, assim: “os poetas deveriam manter abertas as vias de acesso entre os homens. Deveriam ser capazes de se transformar em qualquer um, mesmo no mais ínfimo, no mais ingênuo, no mais impotente”.

É bastante possível que a maioria dos escritores endosse essa frase de Canetti, eu arrisco a assegurar. Os romancistas frequentemente comentam a escrita de ficção como um exercício empático ao falar sobre a criatividade e os possíveis efeitos[2] da leitura de romances. Em seu livro Empathy and the Novel[3], Suzanne Keen trabalha, entre outras, com a hipótese de que a atividade de escrita de ficção pode cultivar habilidades de atuação nos romancistas e torná-los mais habitualmente empáticas.

O valor desta hipótese vem crescendo com o inusitado apoio da psicologia do desenvolvimento. Em Creative Writers[4], Freud sugeriu que poderia haver um elo entre a criatividade dos escritores adultos de ficção e o jogo imaginário das crianças. Keen traz o exemplo do trabalho da psicóloga Marjorie Taylor, da Universidade de Oregon, que ajudou a reabilitar a prática infantil de ter amigos invisíveis, já não como um sinal de problemas psicológicos, mas como parte saudável do desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças. Taylor e seus colaboradores recentemente estenderam a pesquisa sobre a “ilusão de agência independente” para a área da criatividade adulta.

O crítico literário e romancista David Lodge[5], por exemplo, sugere que a capacidade que os romancistas têm para criar personagens, muitas vezes seres muito diferentes de si mesmos, e dar explicações detalhadas de suas consciências é uma habilidade que ajuda ao escritor a desenvolver poderes de empatia e simpatia na vida real.

Assim como Lodge, muitas entrevistas, memórias e comentários casuais de muitos escritores são relatos dessa ilusão, em que os personagens fictícios parecem ter seus próprios mentes e vontades, embora submetidos em última instância às vontades do autor. Milan Kundera, no glossário de A arte do romance[6], define o romance como “a grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência”. Prestemos atenção à abordagem que o autor faz da personagem: ego experimental, uma espécie de fantasia que o autor veste para transitar com ela uma trama. A personagem, para Kundera, é esse ser imaginário, simulação de um ser vivo, que serve para que o autor e, posteriormente, o leitor, investiguem essas áreas que o problematizam e o obcecam, esses temas que o acompanham e que, dentro do romance, viram os pilares fundamentais do conflito.

Destes apontamentos pode-se inferir uma certa, embora discutível, centralidade da personagem no que respeita ao envolvimento emocional do leitor ou espectador com a obra. Pelo menos, é dessa forma que esta que os fala, vê a ficção: a personagem como o principal veículo para nos comunicarmos através das histórias; como o artificio do qual nos valemos os ficcionistas para colocar em movimento tradutório nossas inquietações autorais.

A importância cultural dessas “figuras da ficção”, como são chamadas frequentemente, é indiscutível. Jens Eder[7], teórico que tem dedicado sua produção intelectual ao desenvolvimento de uma visão heurística sobre a personagem, aponta:

“O significado cultural dos personagens dificilmente pode ser superestimado. Eles servem à auto compreensão individual e coletiva, à mediação de imagens da humanidade, de conceitos de identidade e papel social; eles servem à ação exploratória imaginária, à atualização de modos alternativos de ser, ao desenvolvimento de capacidades empáticas, a propósitos de entretenimento e estimulação emocional. Os seres humanos são provavelmente os únicos animais capazes de inventar mundos artificiais, desde a dramatização de crianças até a produção de textos complexos de mídia, como peças de teatro, romances e longas-metragens”[8].

Sobre as muitas e meio surdas teorias da personagem

Ao se falar em uma “teoria da personagem”, se faz referência a uma história de mais de dois mil anos; entretanto, em muitos aspectos, os enfoques parecem paralisados em seus estágios iniciais. Projetos teóricos que abranjam as os temas fundamentais no que respeita à personagem são raros e mais raro ainda é o diálogo entre as diferentes tendências. Em uma tentativa de recolher de uma forma simplificada as diferentes abordagens, Eder[9] destaca os que considera os quatro grupos teóricos fundamentais nos estudos teóricos sobre a personagem, a saber:

A escola da hermenêutica, que opera predominantemente sob a orientação da intuição e apenas minimamente sob a direção de uma teoria, entende as personagens como imagens de seres humanos e ressalta a necessidade de levar em conta o contexto histórico tanto das personagens como de seus criadores. Questões como ontologia, constituição e recepção são deixadas de lado.

Posições psicanalíticas pressupõem uma analogia entre personagens e seres humanos, complementam a abordagem hermenêutica com modelos psicanalíticos de personalidade; assim, sua área central de interesse é a psique dos personagens e dos destinatários. As questões fundamentais da ontologia e da constituição textual dos personagens, como na hermenêutica, recebem pouca atenção.

Abordagens estruturalistas e semióticas, desenvolvidas nos anos 60 e dominantes por várias décadas, nasceram como reação às posturas hermenêutica e psicanalítica. Estes enfoques enfatizam a diferença entre seres humanos e personagens, quase sempre considerando estes como nada além de complexos de signos e estruturas textuais. O estudo da recepção e das propriedades fundamentais das personagens é marginalizado, e as conexões das personagens com temas e culturas só podem ser esboçadas de uma maneira muito abstrata e redutiva.

Desde a década de 1980, evoluíram as teorias cognitivas da personagem, que buscam se ancorar nas ciências cognitivas, em particular na psicologia e na filosofia analítica. Focalizam a modelagem mais exata dos processos cognitivos e afetivos no processamento geral da informação. Os personagens são concebidos como construtos da mente humana baseados em texto, cuja descrição requer modelos de compreensão de textos e também modelos da psique humana. Se distanciam da abordagem semiótica ao prestar mais atenção ao nível de recepção e da abordagem psicanalítica porque seus modelos da psique humana fazem uma representação mais detalhada dos processos mentais e têm uma associação mais forte com a psicologia empírica. Até agora, as teorias cognitivas concentraram seu trabalho na inter-relação entre personagem e recepção e não conseguiram estendê-lo ao nível da cultura.

Apesar de ter prevalecido uma rivalidade entre as teorias, com o passo do tempo também têm ficado em evidência as fatais consequências da polarização e a necessidade de criar interconexões entre elas para conseguir abordar integralmente aspectos dos estudos de personagens que, cada uma delas, agindo por separado e surdas aos ecos de aquelas que considera concorrentes, negligencia.

Á procura de oferecer uma teoria que integrasse as outras, Eder criou o que ele batizou como o “Relógio da Personagem”[10]. O autor apresenta um modelo que busca servir para fins analíticos, mas a leitura dele foi resultou tão instigante para mim, que tenho optado por abordá-lo a continuação como uma ferramenta útil não só para os teóricos e os críticos, mas também para os escritores durante o processo criativo da narrativa.

De acordo com esta heurística, as personagens têm quatro dimensões, que podem ser examinadas com base em pontos focais dos aspectos estéticos, miméticos, temáticos e causais:

A personagem como Artefato

Principal dimensão valorizada pelo estruturalismo e a semiótica, considera as personagens em suas relações com os dispositivos estilísticos e os tipos de informação oferecida, que geram as experiências perceptivas dos espectadores e, posteriormente, podem ser esteticamente refletidas por eles. Com base nessa reflexão, os caracteres são atribuídos a propriedades gerais de artefatos, como realismo ou multidimensionalidade. A pregunta a nos fazermos para pensar as nossas personagens como artefatos é: Como e por quais meios a personagem é representada?

A personagem como ser ficcional

Entre autores e consultores existe um certo consenso em entender a personagem em sua dimensão de análogo ao humano, endossando a tese de que a personagem tem o estatuto ontológico de ser ficcional. É o aspecto com o qual estamos mais familiarizados, por ser o que predomina como modelo analítico, herança da hermenêutica e da psicanálise, e como modelo de construção — basta pensar, por exemplo, nos manuais de roteiro cinematográfico de Seger, Field, McKee, ou lembrar da citação de Kundera na parte inicial deste artigo.

Pertencem a este aspecto todas as variações teórico-práticas que exigem, em maior ou menor medida, exercícios como a criação de biografias e perfis da personagem, pesquisa com pessoas reais que tenham questões em comum com a personagem, escrever uma carta para a personagem, escrever um monólogo desde ela, etc.

Assim, para pensar a dimensão humana do nosso personagem, as interrogantes giram em torno de: Que características e relações o personagem possui como habitante de um mundo ficcional? Como o personagem age e se comporta nesse mundo?

A personagem como Símbolo

O autor usa o termo “símbolo” num sentido amplo, capaz de abranger todas as formas de significados de nível superior, nas quais os caracteres podem funcionar como sinais de outra coisa. De que coisa, pode ser inferido de suas características como seres ficcionais e artefatos. Em palavras de Eder:

No que diz respeito ao simbolismo, a questão de quais significados indiretos as personagens têm então se transforma na questão de quais significados os espectadores devem inferir. Os espectadores podem processar ainda mais as informações de caracteres captadas no processo de construção do modelo mental. Eles podem associar diferentes significados às propriedades de um ser fictício, tais como tipos e grupos sociais, virtudes e vícios gerais, medos e desejos reprimidos, antítipos míticos e religiosos ou personalidades históricas.[11] [12]Para pensar a dimensão simbólica da nossa personagem, nos indagamos sobre: O que o personagem representa? Que significados indiretos ele transmite?

A personagem como Sintoma

Nessa perspectiva, as personagens são consideradas fatores causais ou consequências de elementos reais de comunicação; por exemplo, como o resultado do trabalho de seus criadores, como toda a carga contextual deles, ou como modelos para os leitores ou espectadores. Sobre esta dimensão, Eder explica:

“Ao considerar os filmes no contexto da crítica cultural, os atributos sintomáticos das personagens novamente desempenham um papel mais importante, pois podem elucidar as mentalidades culturais ou as consequências sócio-culturais de determinados filmes. Em todos esses casos, a análise deve recair sobre os aspectos tratados anteriormente: corporeidade, psique, sociabilidade e comportamento; modo de representação e propriedades de artefato; a motivação e a constelação formam a base da investigação do simbolismo e dos sintomáticos dos personagens.”[13] [14]

Para analisar a sintomatologia das nossas personagens, o recomendável seria fazer uma investigação íntima profunda e, se possível, estabelecer um diálogo crítico e criativo com pessoas diversas, que nos leve a responder (e a talvez nos surpreendermos com a resposta, que pode nos desvelar detalhes que não tínhamos nem imaginado): o que faz com que a personagem seja como é? Que efeitos ela produz?

De uma forma geral, os aspectos simbólicos e sintomáticos da personagem carregam o peso temático do livro ou do filme. Carregam, também, a postura ética do seu autor e é neste sentido que esta dimensão é tida como uma questão externa à obra e com a qual o autor não devia se preocupar.

Velhas novas discussões

Voltamos aqui ao velho, mas cada vez mais aceso, debate entre as duas posturas: os que defendem a obra per se, cujo autor não tem compromisso nenhum, exceto o compromisso com sua arte; e os que apontam para o entendimento da obra como uma construção com causas e efeitos histórica, social, económica e culturalmente contextualizadas e, por tanto, com uma responsabilidade social que perpassa a obra e da qual o autor não pode se isentar. Esse debate, sobra dizer, está longe de chegar a um consenso.

Na construção das personagens, o autor decide os atributos das mesmas, ele seleciona uns traços em detrimento de outros, dota essa figura de virtudes e defeitos, posiciona ela num contexto e não em outro, e todas essas decisões demiúrgicas dialogam entre si para criar um construto que, querendo o autor não, é uma intrincada rede de espelhos identitários para o público.

A pergunta não é apenas quais são os motivos que levam o autor a colocar essa combinação de informações em jogo na sua personagem, esse reservatório de atributos humanos, mas também (e talvez principalmente) se ele está fazendo essas decisões em plena consciência e até que ponto ele está deixando a inércia trabalhar por ele e repetir padrões opressivos e estereótipos que hoje não passam impunemente pelo leitor ou espectador, essa entidade que está entendendo, cada vez mais, seu lugar de poder como receptor daquele discurso.

Desse grau de consciência dependerá, me parece, a capacidade do autor de seguir adiante com sua obra e endossar as atitudes de suas personagens na sobrevida que elas possam chegar a ter uma vez que se fecha o livro.

Se quisermos entender como os personagens afetam seus receptores, precisamos entender de que maneira eles podem desencadear sentimentos. Eder oferece o seguinte modelo de recepção: “Percebemos as representações do personagem do filme, construímos modelos mentais dos personagens, associamos a esses significados indiretos e inferimos causas e efeitos socioculturais”. [15] [16]

Para o autor, esse processo de surgimento das respostas emotivas no receptor não aconteceria apenas na dimensão da personagem enquanto ser ficcional, mas tipos específicos de emoção estariam ligados a cada nível de recepção. Pode parecer uma obviedade dizer neste ponto que as personagens também podem despertar sentimentos também como artefatos, símbolos e sintomas, mas não podemos passar por alto o fato de que as discussões dramatúrgicas no que respeita à emoção têm negligenciado essas dimensões, ao se concentrar na noção de personagem como análoga à noção de pessoa. 

Autor – Personagem – Leitor: um vínculo empático

Comecei este artigo comentando a importância que os escritores dão ao exercício que, apesar dos riscos dado sua ampla margem de interpretação, chamarei de empático. Pois bem, a empatia, segundo Keen[17], “pode ser definida como uma partilha espontânea de sentimentos, incluindo sensações físicas no corpo, provocada por testemunhar ou ouvir sobre a condição de outra pessoa”[18]. Poderíamos, no nosso caso, acrescentar o verbo escrever.

Teóricos e especialistas do discurso que realizam pesquisas empíricas em leitura literária associam uma variedade de técnicas narrativas à empatia. Keen[19] explica que o principal recurso são as estratégias de identificação com as personagens, que incluem as escolhas sobre aspectos específicos da caracterização, tais como nomeação, descrição, implicação direta e indireta de traços, dependência de tipos, polaridades, redondeza, ações representadas, funções nas trajetórias, qualidade da fala atribuída e modo de representação da consciência.

Neste quesito, Smith[20] entra em divergência com Keen. Ele explica que, quando se fala em “identificação” com as personagens, tende-se a agrupar três fenômenos diferentes, mas interdependentes, a saber: reconhecimento (ser capaz de individualizá-los e identificá-los), alinhamento (em termos da vinculação espacial e o acesso objetivo e subjetivo que temos a informações sobre as personagens), lealdade (em termos morais e emocionais, pela maneira como a narrativa os representa). Para se referir à interação sistemática dos três, Smith criou o conceito de “estrutura da simpatia”.

O segundo grupo de estratégias narrativas associadas à empatia dizem respeito à situação narrativa (incluindo ponto de vista e perspectiva): a natureza da mediação entre autor e leitor, a pessoa da narração, a localização implícita do narrador, a relação do narrador para os personagens, a perspectiva interna ou externa dos personagens, incluindo em alguns casos o estilo de representação da consciência dos personagens.

Como vemos, cada uma das escolhas que o autor faz e que estão relacionadas com o exercício empático de escrever ficção, atravessam as quatro dimensões da personagem propostas por Eder, e não só a de personagem como figura análoga ao ser humano.

Embora, como escritor, eu queira afetar a mente do leitor – educar e iluminar, o que desejo ainda mais é sacudir o coração do leitor. Eu quero que minhas palavras abram um portal através do qual o leitor pode deixar o eu, migrar para algum outro céu humano e retornar “disposto” para a alteridade.[21] [22]

Quando a possibilidade, a habilidade e a disposição para inventar universos de faz de conta, se unem à oportunidade de circulação, pontes novas se criam; algumas delas, levadiças, outras, permanentes. Pontes entre nós, levantadas por esses estranhos artefatos feitos de letras e de tanto mais, chamados personagens, símbolos e sintomas de tanta vida e de tanta morte.  Personagem, que em sua etimologia vem do latim persona, que vem do etrusco phersu, “máscara teatral”, do grego prósopon, “face, máscara”. Em suma, um ser que se aproxima daquele “nunca real e sempre verdadeiro[23]”, que diria Artaud[24] sobre a arte.


[1] CANETTI, Elias. A consciência das palavras. São Paulo: Companhia das letras, 2011, s/p.

[2] A autora, comparada com entusiastas como Martha Nussbaum e Steven Pinker, é cética com relação a tais efeitos. Ela é enfática em sua posição: “Podemos afirmar a robustez da empatia narrativa, como uma transação afetiva realizada através da escrita e leitura da ficção, mas devemos hesitar em amarrar a empatia dos leitores a certos resultados da ação altruísta. A empatia narrativa não precisa necessariamente executar renovações da virtude cívica nem do comportamento individual para ser reconhecido como um componente central da resposta emocional à ficção, cuja perda deve ser lamentada”.

[3] KEEN, Suzanne. Empathy and the Novel. New York: Oxford University Press, 2007, p. 127.

[4] FREUD, 1907, apud KEEN op. cit.

[5] LODGE, David. Consciousness and the Novel: Connected Essays. Cambridge: Harvard University Press, 2002, p. 42.

[6] KUNDERA, Milan. A arte do romance. 2009, p. 136.

[7] EDER, Jens. Film Characters: Theory, Analysis, Interpretation (English outline of the German monograph: Jens Eder: Die Figur im Film. Grundlagen der Figurenanalyse). Marburg: Schüren, 2008, p. 6.

[8] Tradução livre do original: “The cultural significance of characters can hardly be overestimated. They serve individual and collective self-understanding, the mediation of images of humanity, of concepts of identity and social role; they serve imaginary exploratory action, the actualization of alternative modes of being, the development of empathic capabilities, entertainment purposes and emotional stimulation. Humans are probably the only animals capable of inventing artificial worlds, from the children’s role-playing to the production of complex media texts like plays, novels and feature films”.

[9] EDER, Jens. Film Characters: Theory, Analysis, Interpretation (English outline of the German monograph: Jens Eder: Die Figur im Film. Grundlagen der Figurenanalyse). Marburg: Schüren, 2008, p. 20 et seq.

[10] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 22 et seq.

[11] Tradução livre do original: With regard to symbolism, the question of what indirect meanings characters have then changes into the question of what meanings the viewers are supposed to infer. The viewers can further process the character information grasped in the process of mental model building. They can associate different meanings with the properties of a fictional being, such as social types and groups, general virtues and vices, repressed fears and desires, mythical and religious antetypes, or historical personalities.

[12] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 32.

[13] Tradução livre do original: “When considering films in the context of cultural criticism, the symptomatics of the characters again plays a more important role because it can elucidate cultural mentalities or the socio-cultural consequences of particular films. In all these cases, the analysis must fall back on the aspects treated previously: corporeality, psyche, sociality, and behavior; mode of representation and artifact properties; motivation and constellation form the foundation of investigating the symbolism and the symptomatics of characters”.

[14] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 32.

[15] Tradução livre do original: “we perceive the character depictions of the film, build up mental models of the characters, associate with these indirect meanings, and infer socio-cultural causes and effects”

[16] EDER, Jens. Understanding Characters. Projections. Volume 4, Issue 1, Summer 2010: 16–40. Berghahn Journals, 2010, p. 34.

[17] KEEN, Suzanne. Empathy and the Novel. New York: Oxford University Press, 2007, p. XX.

[18] Tradução livre do original: “a spontaneous sharing of feelings, including physical sensations in the body, provoked by witnessing or hearing about another’s condition”.

[19] KEEN, Suzanne. Empathy and the Novel. New York: Oxford University Press, 2007, p. 93.

[20] SMITH, Murray. Engaging Characters: Further reflections in EDER, Jens; FOTIS, Jannidis e SCHNEIDER, Ralf. Characters in Fictional Worlds. Revisionen 3. Berlin/New York: De Gruyter, 2010. p. 234.

[21] Tradução livre do original: “While, as a writer, I want to affect the reader’s mind—to educate and enlighten—what I wish for even more is to jolt the reader’s heart. I want my words to open a portal through which the reader may leave the self, migrate to some other human sky and return ‘disposed’ to otherness”.

[22] KIDD, 2005, apud KEEN, 2007, p. 124.

[23] Tradução livre do original: “Jamais réel et toujours vrai, non pas de l’art, mais de la ra-tée du Soudan et du Dahomey”.

[24] ARTAUD, Antonin. Jamais réel et toujours vrai. Marseille: Musée Cantini,1945. Disponível em: < https://br.pinterest.com/pin/701717185659452457/?lp=true >. Acesso em: 03/08/18.

La resistencia

Conto/Cuento, Español

En un resumen de noticias, les advierto que la espera me ha dejado con tres sofás con tos y dos mesas con artritis, una nevera con hedentina de aguas olvidadas y un aire acondicionado con metástasis. El ventilador remó y remó sus aspas para secar los charcos de la última lluvia, pero no logró salvar las ropas que ustedes, irresponsables, dejaron en las gavetas más bajas, y a mí no me vengan a reclamar de estos mundos de musgo que están naciendo entre las mangas y los ruedos, porque quién los mandó a irse solamente con lo que tenían puesto. ¿Cómo les digo a las malparidas polillas que respeten por lo menos los rostros de los viejos y el cuaderno de papá, que se coman mejor el álbum de aquel congreso extraño o la pila de periódicos viejos que está debajo de la batea? ¿Qué me hago yo con toda esta gente guardada en las cajas, ahora que esos animaluchos están acabando álbum por álbum con las promesas que ustedes eran?

Gente, mi gente, ¿cuándo es que van a llegar? Mientras ustedes no vuelvan y no tengan el valor de estar aquí dentro y decirme que a pesar de nuestra historia me están dejando, yo voy a esperar, yo me debo a ustedes, yo soy toda fidelidad, toda carencia y prefiero implotarme antes que dejarme invadir.

Si grito socorro es porque la marabunta no tarda en llegar, grito socorro, socorro y no escucho que ustedes vengan. Me desgañito pidiendo salvación y no llegan las risas los gritos la música la corneta del carro el saludo al vecino. Me ardo la tráquea en desespero, pero somos tantos los que aullamos, que nos volvimos canción de ultratumba que los vivos ya no escuchan, porque escuchar duele en la punta de los dedos cuando se está lejos, y ustedes no se despidieron pero alguna idea me hago porque he estado aquí el tiempo suficiente como para saber cuando el paseo es corto y cuando la flecha se curva y se traga a sí misma y uno se vuelve el lugar al que se va de visita a veces, cuando la nostalgia muerde los tobillos.

Me he vuelto esta vergonzosa carencia, un ruido de piedra rota, sueno a legiones de polvo, a mocos mugrosos de hollín, a flema de ácaros y cucarachas gritonas y hambrientas, que por más hambrientas que sean no les ganan a esos que vienen, que están cada vez más cerca, ya siento su tibieza y no se parece a la de ustedes y ¿dónde están ustedes? ¿Dónde están ustedes, si ustedes son aquí y aquí está vacío? ¿Quiénes son ustedes, si ustedes son esto y en esto ya no los veo?

Ya, ya, ya comienzan las miradas, los acercamientos, el tanteo. Ahora están ellos forzando la entrada y no son dos ni tres, ni quince, son muchos, son más y más y siguen llegando. Son fuertes, son bravos, son tercos y me están rodeando ya con saliva en la boca y poros alebrestados.

Yo pido auxilio en mí nombre y en el de nosotros, aunque ya no sepa bien de cuál nosotros hablo, porque me deshago en tantos ripios que no sé cuáles son mis ruinas y cuáles las de mis cosas, pero eso acaba de desimportar porque en vez de llegar ustedes, llegaron ellos, y yo aquí sola, vulnerable, atacable, habitable, con defensas de cartón e importancia de papel periódico meado por perros, y ya me rasgaron la vieja y guerrera piel que tantos besos adolescentes veló y ya me están cortando una oreja y la otra y ya no es suficiente pedir cuidado, porque ahora la ley es pedir clemencia.

¿Donde ustedes están no existe la urgencia? Me han arrancado pestañas uñas cabellos, estoy herida, estoy jadeante, estoy cojeando y ustedes dónde están, que me prometieron más luces, mucho verde, menos rejas, y yo no olvido deudas, yo emplazo, yo exijo.

Dicen que es más seguro dejarse hacer porque si uno grita puede ser peor, pero yo voy a gritar, yo voy a hacerlos llorar de ruido, yo voy a chirriar con cada tubería cable bloque columna viga y cállate, niña intrusa, cállate ya y no me mires, no me toques, niña, que mientras mis dueños no lleguen yo seré una casa en huelga, una casa en guerra, una casa en retirada, niña, no estés cansada, no, no te duermas, no te pienses al fin en paz en mí, niña, no, que yo no tengo ya más corazón para nuevas despedidas.

Fantasmas

Poema, Português

Eles gostam dos meus nomes.

Aplaudem a multidão que trago 

pendurada em sobrenomes e alcunhas

insígnias sobreviventes da ventania

demoram meu título em suas línguas 

músculos de magias violentas

María, a casa sem ele é uma casa vazia

María, a casa vazia é um país morto

María, a tua casa, o teu pai e o teu país 

não cabem mais nas palavras 

que você conhece.

Eles me deram um novo alfabeto.

Gostam de me chamar cedo

invariavelmente eu aceito o convite

após o café da manhã

arranco o sorriso as unhas a sede

deixo um volto logo

insinuado nas costas 

e saio sem porta sem muro 

sem ver a previsão do tempo

saio de mim com pressa

fio de Ariadne feito rabicó.

Eles modelam a minha prosódia.

Nunca sei se volto pronome 

às vezes me duelo

como duelen los verbos avulsos

alguns passeios com eles me deixam 

a sensação esburacada de complemento 

circunstancial de lugar de tempo de companhia 

saio de mim sem saber se regresso 

se nos reunimos todas eu 

no elo das quatro palavras 

que nos nomeiam.

Eles me fazem sentir bem-vinda.

Como é coisa da vida dos mortos, viajar

Conto/Cuento, Português

Antes viajei tão pouco que me sinto roubado pela vida, pai. É sério. E olha que tentei, mas como é caro viajar; como é sempre um luxo viajar; como é coisa da vida dos outros, viajar. Por isso agora, com a mulher na Venezuela, uma filha no Brasil e outra na Alemanha, estou saldando uma dívida antiga comigo mesmo. Não do jeito que eu teria desejado, mas já é algo.

Tinha anos me preparando para essa aposentadoria. Mas é uma grande mentira que alguém possa se preparar coisa nenhuma. Tinha sido necessária tanta degradação, tanto ensañamiento? No começo, para mim só existiu o não entender e o não saber se tinha alguém a quem pedir explicações. Logo vi que não tinha ninguém. Eu sempre tive certeza disso, mas, nos últimos tempos, assustado, comecei a duvidar. O que eu podia fazer agora, no meu novo estado, quais eram minhas novas atribuições, quais as vantagens e quais as limitações? Aliás, tinha limitações? Era o choque da folga prematura.

Aquela sala fria, fechada, metálica, me oprimia. Me mandaram esperar, mas ninguém vinha me dizer nada. Então uma força, uma sucção, me levou de um pulo até um jardim. E lá estavam elas três, La Nené, María e Nana, sendo abraçadas e acariciadas, três rostinhos arrasados, três corações amarrotados como uvas passas. A mesma força que me levou até aí, de repente me fez começar a fazer a dancinha que, tempos atrás, eu tinha convertido em símbolo durante uma viagem familiar a Cuba, numa tentativa de tirar da minha bengala, última aquisição do quebranto, esse peso de velhice e pouca mobilidade, só que agora eu fazia aquilo e só ela, só Maria, me via enquanto eu dançava engraçadinho e terminava com jazz hands e meu tradicional “qué hubo?”.

Me aproximei, invisível e volátil, entre os presentes, e devo confessar que não foi um bom passeio. Não tinha como sê-lo. Ainda bem que durou pouco. De novo fui puxado até o jardim e meu corpo começou a se mexer vez mais e mais outra, num loop dançante e os “que hubo?” como uma espécie de remix sentimental. Era ela, María, que se abstraía de tudo e me fazia acontecer do jeito que ela queria. Eu, chegando dançante no meu funeral, de chapéu de aba curta, bengala e sorrisão.

Deduzi então que existia uma sobrevida, mas que ela não dependia já da minha vontade, e sim daqueles que me pensavam. Batizei esses momentos como “convocações”. Pena que não consigo sistematizar o processo e fazer algum manual para ajudar aos colegas que ainda estão do outro lado da cerca.

Boa menina, tua neta, pai. Me pensar dançando é o melhor jeito de me pensar.

*

Mas, luto é luto, e de um luto pós hospital, pós hospital público de sala e imundícias compartilhadas, não se sai ileso. Nos dias seguintes, os convites foram desastrosos. Os pesadelos se apoderaram das meninas e de La Nené. Aí não tive outra opção a não ser ficar pulando de uma para outra e fugir da agonia que os subconscientes teimavam em lembrar. Mesmo que eu quisesse – e eu não queria – não conseguia ficar muito tempo com ninguém que tivesse vivido a agonia junto comigo.

Então ia visitar a Mamá Ucha, que desde o primeiro dia recuperou as imagens mais bonitas e refrescantes e as usou como tábua de salvação. Eu criança, jogando baseball com meus irmãos sem quase conseguir segurar o taco de beisebol direito. Eu, adolescente, defendendo com unhas e dentes e toda a rebeldia que cabia em meus hormônios meu direito a deixar crescer o cabelo. Eu, na universidade, namorando La Nené, com seu cabelão comprido e pretíssimo, com seu ar tímido-elegante e sua cintura fininha; eu levando-a para conhecer a família.

Foi um refúgio habitar as lembranças dispersas da minha mãe, da minha velha e impossivelmente triste mãe. Coitada da velhinha. Nenhuma mãe no mundo devia sobreviver aos filhos. Isso é um erro da natureza, da física e das metafísicas. Mamá Ucha também escorregava, é claro. Volta e meia se deixava arrastar a imagens do lado besta da saúde e então eu fugia. Ficar era reviver algo que já não me doía no corpo, mas que me espichava a alma, e alma é tudo que eu tenho agora.

*

Demorei um tanto para entender que minha relativa autonomia não se limitava a escolher qual convocação atender, mas que se estendia inclusive a me antecipar e eu mesmo possibilitar as situações. Existia a opção de semear sonhos e lembranças? Esse já era outro patamar. O além começou a ficar mais interessante.

Os colegas daqui, você os conhece bem, pai, são uma quadrilha de defuntos por vocação, alguns realmente queridos e divertidos, e outros — que eram uma praga da que eu fugia em vida e com a que nunca imaginei ter que compartilhar a eternidade —, ficam dando pitaco, exigindo que eu assuma o novo estado e (re)conheça pessoas.

Abuela Herminia manda eles calarem a boca e me aconselha a exercitar mais as convocações autônomas, coisa que ela mesma teria gostado de fazer mais, mas naquela época tinha muita interferência das orações que os parentes faziam para a paz de sua alma e tudo aquilo e ela se deixou convencer daquela ideia do descanso eterno e o céu e ficou esperando e esperando, até que foi tarde demais. Quando percebeu a cilada em que tinha se metido, era tarde: já não era convocada com tanta frequência (embora cada invocação fosse agigantada e amorosa) e tinha sérios problemas para criar ela mesma os momentos; por teimosa, não tinha exercido a devida prática, não tinha o ofício, como se diz, de promover encontros nos sonhos. Então, eu prefiro ouvir a minha avó – umas das poucas pessoas, junto contigo, pai, que, em vida, me faziam querer morrer para encontrá-la.

Você poderia tentar fazer o mesmo que eu, pai. Dá até para tentar ir juntos. Já pensou, você e eu visitando Mamá Ucha? A velhinha ia adorar.

*

Decidi acompanhar María em sua volta ao Brasil, onde ela morava fazia três anos, com Rafael, meu genro, um cara que sorri de dente pelado e de quem eu gosto muito porque ele faz por merecer minha filha.

Claro que eu poderia ir direto, mas lembrei que ela dorme pouco durante os voos e pensei que podia ser uma boa ideia ir de avião, com ela. Foi durante a viagem que fiquei sabendo. Aconteceu que ela não estava dormindo, mas, mesmo assim, me via, me via! Fixava seus olhos em mim e me dirigia cada palavra do monólogo fragmentário de seu pensamento. Eu não só conseguia convocar em sonhos ou lembranças, como nós dois éramos capazes de criar novos momentos, que em vida não vivemos, só pela força das nossas vontades?  Se eu achava que a saudade era a tristeza derivada da incapacidade de criar novas memórias com os seres amados, então nós tínhamos encontrado a forma de matar a saudade.

Você podia ter me contado, pai, dos alcances da comunicação com o além, né? Tudo bem que a gente aprende mais quando experimenta, mas ia me economizar um tempo. Já sei, nem precisa me dizer nada. Tempo é só o que temos, então para que economizar.

Com a nova faculdade em pleno funcionamento, eu queria fazer de conta que estava tudo certo, normal, durante o voo, mas eu não tinha assento. É verdade que eu poderia me sentar em cima de qualquer um no avião, que ninguém ia sentir, mas ela estava me vendo e isso ia deixa-la mais nervosa ainda. Decidi ficar como papagaio no encosto do assento. E ela querendo que eu me sentasse. Lá pelas tantas, me deitei no espaço da saída de emergência e só então ela conseguiu dormir.

O Brasil me chamava mais a atenção porque lá, nas convocações de María, eu permanecia menos gasto, menos doente. Ao ter vivido a parte mais cruenta da minha doença desde a distância, ela estava mais a salvo do horror e por isso seus convites logo ficaram limpas de hospital e viraram as mais felizes. Embora eu sentisse nela, em cada encontro, um remorso que não sabia como desfazer.

No desembarque, em pleno estresse de recuperar as malas, ela se distraiu e eu fui parar de novo com meus colegas. De novo viajando, Morán? Maldita inveja de outro mundo, é igualzinha em tudo que é lugar.

*

Aconteceu então que um dia as minhas três mulheres me chamaram ao mesmo tempo. La Nené, num sonho tranquilo, desses em que a morte e o reencontro não são o assunto principal. Nana, numa lembrança interrompida por imagens de réquiem, mas bonita, afinal. María, numa falsa ou uma nova lembrança.

Isso já tinha acontecido antes, mas até então eu achava que precisava escolher. Assumi que a tele transportação era uma virtude natural do estado defunto, talvez pela tradição que aprendi em vida. Mas a ubiquidade era um assunto novo. Nunca me detive para pensar isso, inclusive porque, até pouco tempo antes de mudar de estado, eu achava que morrer era um ponto final. Nunca contei com esta simpática, embora desajeitada, sobrevida onírico-memorial-performática. O ponto é que aí estávamos, os três eus, em três idades distintas. Você não vai acreditar, pai. Imagina só a cena:

Caminho com Nené em Rubio, onde as ruas que antes percorríamos, na realidade da vigília, alguns anos atrás, hoje são como de E.V.A. e ela tira os sapatos porque diz que quer sentir o fofinho e eu, que não posso ficar para atrás e que não perco oportunidade de desafiar as noções locais de ridículo, também os tiro e não só os tiro como protesto por não ter tido essa ideia antes. É bem fofo mesmo. E é limpo, coisa que minha grima de andar descalço agradece. Como se a cidade toda fosse uma grande escolinha ou um tatame.

Revivo com Nana o momento em que cheguei de Ciudad Ojeda, dirigindo o carro recém-comprado, um mustang prata de duas portas, de 83. Vejo as caras de Nana e de María e são de um brilho que não há dicionário que consiga ter palavras para contar. Primeiro carro da vida delas. Tivemos algum outro quando María era bebê, mas disso nem eu lembro muito bem, imagine ela.

E com María, me permito minha já testada capacidade de invocar soberanamente novas situações. Fazia dias, ela andava me convocando em suas tristezas, entre outras coisas, porque estava prestes a trocar de apartamento e de repente percebeu que esse espaço tinha sido a última morada dela em que eu, de fato (o de vida, digamos), estive presente. O que que eu fiz? Escrevi e encenei (que é o mesmo que viver, no caso) todo um sonho mirabolante, cheio de aventuras imobiliárias, de surrealismos e plasticidades, bem do jeito que ela gosta, que terminava com ela chegando a uma casa chique que ela, ou uma versão rica dela, estava cogitando alugar e quem é que estava lá, na piscina, com os olhos vermelhos e a pele já enrugada de tanto ficar de molho, segurando um mojito na mão? O mesmo que fala. Euzinho, desdobrado e poderoso. Sucesso total e rotundo. Ela parou de se atormentar com esses detalhes técnicos de ir para uma casa que eu não tivesse conhecido; pegou certinho a mensagem: eu estou onde ela estiver e isso nem se discute.

*

Você acha que eu convoquei o senhor o suficiente, pai? Com o tempo, os convites são menos, fala a verdade… Ainda bem que eu deixei uma legião de fãs lá, somando a família e a parentela, os amigos e os conhecidos, as centenas de estudantes que passaram por minhas aulas. Genética boa para a simpatia, mas vergonhosa para a saúde cardiovascular, né, Seu Gonzalo?

Acho que não exagero com minhas expectativas de trotamundos. Nos últimos três anos, fiz ótimos passeios que todo mundo ficou com vontade de repetir. No Brasilzão, já não sou mais um desconhecido. Brinco com meu português aprendido com Zeca Baleiro e aprimorado na base de muito Caetano e Novos Baianos e muitas aulas de literatura e grupos de estudo em que acompanho María, que não termina uma coisa quando já está engatando outra e quando eu for ver já vai estar fazendo pós doc vai saber onde e La Nené e eu só esperando os netinhos.

Com Nana, estou conhecendo uma Europa que nunca pensei que fosse gostar tanto. O alemão está melhorando, mas devo aceitar que daquele lado eu aprendia mais rápido. Também, né, os coleguinhas e parentes deste lado são uma preguiça só e a preguiça é uma doença animicamente transmissível.

Enfim, que sou a inveja dos parceirinhos lá do além, por esta minha sede de mundo e por ter quem me ajude a saciá-la. O corpo que eu tinha virou pó cinzento que foi parar em Paraguaná, na Venezuela; no Guaíba, no Brasil; no Mediterrâneo, na Espanha; e em Varadero, em nossa querida Cuba. Pequenas cerimônias que elas acharam necessárias. E eu, que estava mais nelas do que nas cinzas, dei um jeito de participar ativamente: em Paraguaná, criei toda uma aventura burocrática a partir da necessidade de encontrar uma lancha porque, de outra forma, com a corrente em direção à terra, o pozinho acabaria nas barraquinhas dos turistas e não no alto mar, e ninguém quer isso, por favor. Já na lancha, quando era para o pozinho cair na água, assoprei um vento travesso no sentido contrário e o rostinho de Javier, meu sobrinho, ficou coberto de pó, causando uma gargalhada geral que todo mundo estava precisando, ao meio dessa coisa dilacerante que é uma despedida. Rasgar a cortina de dor que asfixia nesses primeiros dias. O riso que abre os pulmões e as ideias.

No Mediterrâneo, roubei um balão vermelho de uma criança – que ficou chorando horas a desgraçada – e o arrastei até onde estava Nana e o deixei por aí, dançando para ela. A coitada estava frustrada, nunca foi boa com trabalhos manuais, então o pobre do barquinho em que colocou minhas cinzas parecia mais uma balsa-maravilha da engenharia da miséria caribenha, daquelas que os cubanos faziam para chegar a Miami. E como não chorar por uma nova despedida, e como não rir de ver a tentativa-de-barquinho se afundar a escassos centímetros enquanto um balão parece, inexplicavelmente, imantado ao píer.

Em Varadero rimos demais. Maria levou as cinzas num tubo de ensaio. Bem coisa de La Nené fazer isso: roubar um tubo de ensaio do laboratório da universidade e botar as cinzas do professor Morán nele para serem transportadas ilegalmente de um país a outro. O assunto é que lá eu nem precisei mexer no set. Acontece que água salgada entrava e saía sem levar consigo mais do que alguns pontinhos de pó. Se recusava a se misturar. E eu juro que eu não fiz nada. María e Rafa ficaram um tempão tentando “me esvaziar”. Os primeiros minutos, ela ficou tensa, frustrada, mas logo veio o riso, uma luta fodida contra as ondas, mexendo o tubinho, virando o tubinho, submergindo o tubinho, assoprando o tubinho. Altas gargalhadas. Toda tristeza em nós é tragicômica. Uma guachafa absoluta, como em nossos melhores momentos.  

Só no Guaíba, me deixei ir, triste, num barquinho, desta vez bem feitinho. Aí, nem eu estava animado. O dia era cinza e Porto Alegre era uma cidade em que eu queria ter vivido e não deu tempo. Do outro lado também temos nossos altos e baixos. Você sabe bem disso, pai. É claro que ninguém queria ter morrido tão cedo. E menos eu, que tinha uma bucket list que rendia umas cinco ou seis vidas ordinárias. Mas passa. Passa. E tem suas vantagens.

A ubiquidade é um negócio fascinante, pai. Sem passagem, custos de hospedagem nem de alimentação – essa parte eu não gosto, nós, deste lado, não precisamos comer, aliás, não podemos comer, então eu sinto uma fome que não é fome verdadeira senão uma gula da pior categoria, queria comer até explodir de tanta coisa por aí, agora que não preciso me cuidar mais, queria beber toda a água e os sucos e a cerveja e o vinho e todo o líquido que a doença me roubou durante os últimos anos de vida de vivo.

Apesar das reclamações de alguns colegas do além, que querem que eu tenha uma vida de morto sedentário, de jogar dominó e cartas, de passear só com horário agendado, de filosofar a morte, mais chatos em morte do que eram em vida, viajar é o que mais faço. Ah, pai, como é bom viajar; como é coisa da vida dos mortos, viajar.

Liga para a Defesa da Maldade com Objetivos Supérfluos (LIDEMOS) – Terceira parte

Conto/Cuento, Português

AÇÃO 3.7

Conduta em corrida esportiva

Com seu excesso de saúde e força, os atletas são miseráveis e cafonas, como todo ostentador. Uma pequena dose de turismo antidesportivo, transmitido ao vivo pelas TVs e rádios, gerará, aliada à polêmica e à falsa indignação do grande público, reflexões sobre a real importância daquele evento em particular e o absurdo de glorificar pessoas que correm sem precisar ir a lugar nenhum, apenas pela vontade de demonstrar seu poderio quase maquinal.

Instruções:

1.   Dias antes do evento, vá até o lugar e avalie em detalhe as características do mesmo (especial atenção merecem o relevo, o tipo de solo, a altura da calçada).

2.   Estude e pratique em casa possíveis formas de abordagem do alvo, em função de sua condição física e, claro, em relação com as do atleta. Rolamentos e torções de artes marciais como o hapkidô podem resultar muito úteis.

3.   Analise personagens de telenovela que lidem com doenças mentais. Memorize e pratique algumas frases e tiques padrão.

4.   No dia prévio ao evento, quando já estejam sendo colocadas as marcações e preparadas as arquibancadas áreas em que o público poderá ficar, escolha o ponto mais cercado à linha da meta.

5.   Avalie os dispositivos de segurança que separam o público dos corredores, caso existam.

6.   Estude quais os caminhos mais rápidos e seguros até o ponto escolhido e procure informações sobre os horários em que o público começa a chegar no evento, com o objetivo de garantir a disponibilidade do ponto estratégico escolhido.

7.   Se você tiver feito o passo anterior corretamente, como seguramente o fez, você não deve se deparar com surpresas no grande dia. Ocupe seu lugar e espere. Tenha água e lanches à mão: é imprescindível que você esteja em ótimas condições

8.   Localize-se no lugar estratégico escolhido. Desfrute a corrida, mas esteja atento. Seja como um caçador que cuida, a uma distância prudente, sua presa.

9.   Quatro ou cinco metros antes do indiscutível vencedor atingir a meta final, atire-se em cima do atleta e faça-o rolar pelo chão, como aprendido durante o treinamento, enquanto o segundo e terceiro lugar completam o trajeto.

10.  De um beijo no seu alvo e levante-se.

11.  Não se resista: você será levado pela segurança do evento e poderá ser prendido pela polícia. Em câmbio, use o que aprendeu no passo 3: finja demência.

12.  Ofereça as devidas entrevistas e coletivas de imprensa. Sorria e agradeça a todos aqueles que fizeram possível sua façanha. Reivindique as bandeiras da LIDEMOS.

13.  Durma com a felicidade do dever cumprido. Você é um caso raro e deve se sentir exultante; glorioso anti-herói nacional, libertador dos fracos e dos preguiçosos. Você é exemplo a seguir nas nossas lutas.

Liga para a Defesa da Maldade com Objetivos Supérfluos (LIDEMOS) – Segunda parte

Conto/Cuento, Português

AÇÃO 1.5: Conduta nos supermercados

Uma última apimentada no dia do trabalhador regular, para fazê-lo refletir sobre a impossibilidade ontológica da calma: onde termina a jornada laboral, começa a doméstica. Novos imbróglios, novos desafios. Sempre uma nova oportunidade para expandir a paciência.

Instruções:

1.   Analisar o estado geral do estabelecimento: vigilantes, funcionários das diferentes áreas, distribuidores em seus kiosquezinhos de lombo suíno fumegante ou de café latte hiper edulcorado. É muito importante, também, identificar as saídas, as câmeras de segurança, os acessos ao estacionamento, sanitários e demais caminhos de fuga existentes.

2.   Fazer reconhecimento de alvos potenciais. Dar preferência aos clientes que deixam estacionados seus carinhos e, à procura de outros produtos, deixam o mesmo momentaneamente abandonado enquanto se aventuram a caminhar um mínimo de cinco metros.

3.   Escolher o alvo. Difícil decisão que exige do vilão um certo malabarismo entre os dados objetivos obtidos no passo 1 e as infinitas possibilidades do acaso.

4.   Esperar que o alvo esteja com o carrinho cheio. OBS: se o alvo escolhido der sinais de estar terminando a compra e ainda não ter mais de 15 produtos, descartá-lo e escolher novo alvo. Defendemos o impacto menor, não o inexistente.

5.   Esperar a pessoa se distrair e roubar o carrinho dela. O melhor lugar para executar o assalto é na seção de vegetais e frutas, por ser aquela de maiores complicações para transitar e onde os clientes tendem a se concentrar mais na escolha do produto.

6.   Se afastar com a pilhagem, deixá-la em outro ponto do mercado. Se possível, e para ampliar o impacto da ação para além do alvo, deixar cada um dos produtos escolhidos pelo alvo em prateleiras aleatórias do mercado, sempre tomando cuidado de que o lugar de origem do produto se encontre, no mínimo, a quatro corredores de distância do lugar em que está sendo depositado.

7. Sair do estabelecimento com o peito inchado de orgulho pelo honorável desempenho. 

Liga para a Defesa da Maldade com Objetivos Supérfluos (LIDEMOS) – Primeira parte

Conto/Cuento, Português

Assembleia geral – Maio/II 2018

MESTRE DE CERIMÔNIAS:

Com a palavra, o cidadão Secretário de Assuntos Externos, Excelentíssimo senhor Manuel Estanillo, líder absoluto no ranking de vilanias menores no perímetro da cidade.

MANUEL ESTANILLO:

Porque a adversidade sempre soube criar caráter e todos nós bem sabemos disso, venho agora convidar vocês, meus colegas de inomináveis e inestimáveis talentos marginais, a unirmos forças em prol do reconhecimento do nosso vilipendiado labor.

A situação é insustentável: não podemos assistir impávidos a este panorama bipartidário em que ondas de maldade de alto calibre se revezam com enjoativa meiguice, numa clara tentativa de apagar as vozes de aqueles que não se identificam com os extremos. O que resta aos apáticos? Aos que carecem de talento suficiente para a infâmia ou para a bondade rasa? O que sobra para nós? Ser taxados de ruins como os colegas mais ortodoxos e radicais da arte da maldade? Ou ser defendidos qual vítimas e ver nossos atos malignos relativizados, diminuída sua potência a mau-caratismo? Colegas, tais opções obtusas não podem nos satisfazer! O que devemos, nós, vilões de pequeno porte, fazer defronte a tamanho maniqueísmo?

Minha proposta é orquestrar, desde as bases da LIDEMOS, uma grande ofensiva nacional, executada através de atos como alguns dos que estão descritos no memorando que agora mesmo começará a circular entre vocês. Tais ações, meticulosamente desenhadas e articuladas, seriam executadas simultaneamente ao longo do território nacional, no que eu tenho batizado como GRANDE JORNADA PELA DEMOCRACIA DE CARÁTER, e têm o objetivo fundamental de chamar a atenção para a importância de nosso trabalho no destino da nação e de seus cidadãos. Devemos arrinconar de tal forma aos inimigos que não sobre quem não reconheça a importância das maldades de curto alcance para manter em funcionamento a roda da cotidianidade: sem a burocracia que com singular dedicação criamos, sem o trânsito que tão devotamente desorganizamos, sem as manias que com tanta tenacidade espalhamos, o mundo como todos o conhecem não existiria.

SALVE A MALDADE DE CURTO ALCANCE!  SALVE OS OBJETIVOS SUPÉRFLUOS! SALVE A VILANIA DE PEQUENO PORTE!

Ancla

Español, Relato

La marabunta llega siempre como una invasión magnífica. Sea un pueblito de traficantes o de artesanos o de pescadores, como es el caso, la estrategia de abordaje no cambia nunca porque no existe. Es llegar y husmear con simpatía. Block de notas, bolígrafo y cámara bastan para que el más discreto acabe confesando su vida y obra, sin economía de sordideces y hambres. Tienen la denuncia atorada en gargantas por donde pasa más fácil el ron que la comida. ¿Ya viste vos a cómo está el quilo de carne o un cartón de huevos? Rondando la escena, siempre hay algunos dados al sí pero no, escondiendo sonrisas bonachonas y eventos no noticiables en las cabezas salitrosas. Y ahí van los muchachos a convencer de hablar, a anotar, a grabar, a fotografiar, a compartir por un instante la ilusión de aquellas gentes que creen que un estudiante de periodismo puede hacer algo por sus vidas. ¿Cuándo va a salir eso? ¿Ustedes son del canal cuatro o del dos? La marabunta llega siempre así, como promesa.

La marabunta tiene quien odie formar parte de una marabunta. Del grupo de doce, al menos cinco no quieren ser periodistas, aunque algunos aún no lo sepan. De esos cinco, una será una reportera premiada, infeliz pero serena. Otro ocupará la zona burocrática y turbia de la profesión para siempre jamás. Un tercero no terminará la carrera y será artesano vanguardista de la estética que dará origen al hipsterdom. La cuarta dará a los padres el diploma para ser colgado en la sala, junto con el de sus hermanos, y se irá a respirar el mundo con los budistas. Mientras estos cuatro desenamorados concuerdan en que esas salidas de campo son la parte más estimulante de la carrera, la quinta las detesta.

Apartada del grupo, ella está sentada debajo de la sombra pichirre de una mata de uvita de playa, con la mirada clavada en un único pescador que continúa en el mar, sentado inmóvil en su lancha, a merced de la violencia de las olas, como en un ejercicio de estoicismo. Está interrogándole va a saber dios qué incertidumbres, qué milagro o qué mierda al horizonte de la península. Tal vez ese hombre sea una fotografía que valga la pena. Una fotografía o algo más. La cámara le parece grosera de repente, un intruso impúdico, no apto para el silencio del hombre suspenso. Una criatura conjetura a salvo por un momento de su condición de pobre denunciado y denunciante. Una criatura de tal vez escapando de su destino de levantarse a las tres de la mañana y hacer jornadas a oscuras y terminarlas a punta de ron barato, cerveza y cocuy. Una criatura quién que busca silencio quién sabe queriendo recapturar su alma cuando esa veterana se quiere hundir con todo y redes.

“¿Y vos qué, ya hiciste el trabajo?”, un entusiasta la interrumpe, se sienta a su lado en actitud de conquista. Ella se irrita, pero se le pasa rápido: es bonito el muchacho, tiene una tozudez tierna que hace que se le disculpe lo inoportuno. Cuando vuelve del coqueteo, ya no existe más la imagen de la lancha y el hombre. No allá. Aquí: una criatura toda para ella, superficie vacante, íntima de tan hipotética.

Entonces juega un rato a ser aprendiz de periodista, hace unas pocas fotos, se engancha en una conversa poco o nada reporteril, no anota nada, pero puede decir que ejercicio cumplido. Los muchachos se van y resta el entusiasta, que insiste en acompañarla. Con un restito de periodismo encima, ella todavía espera el regreso de aquella lancha que cuanto más tiempo pasa más fantasma se vuelve. Mientras ella bebe toda la cerveza que le invitan los pescadores, el muchachito se entrena en perseverancia.

Toman el bus, ella ya achispada, una mezcla de alcohol y de encantamiento. Le pregunta al entusiasta si le parece bonita la idea del pescador anclado en el mar y el muchacho se ríe, sin entender. Ella quiere contarle del paréntesis de irrealidad que él causó y de todos los derrumbes que eso pronostica, pero él pregunta si ella ya está borracha porque él no sabe de qué demonios está hablando. Ella tampoco, pero algo intuye. En el esplendor del último bus de Ruta 6 de la noche, ella le planta un beso feliz, rápidamente tridimensional, antesala de más y más y más hallazgos.