As histórias que (não) nos contam

Debate, Português

Em O Herói de mil faces, o exaustivo estudo sobre os mitos mundiais do Herói publicado em 1949, Joseph Campbell defende que todas as narrativas são, basicamente, a mesma história, contada e recontada infinitas vezes em infinitas variações e que todas, conscientemente ou não, seguem os antigos padrões do mito e podem ser entendidas dentro da estrutura que ele batizou como “A Jornada do Herói”. 

A ideia desse “monomito” como um padrão narrativo subjacente a toda e qualquer história que jamais se contou, se popularizou a níveis planetários e ganhou status de bíblia nos estúdios hollywoodianos, depois de que Christopher Vogler o retomara em seu best-seller A Jornada do Escritor: Estruturas Míticas para Escritores

O pensamento de Campbell parte das ideias do psicólogo suíço Carl G. Jung, em suas teorias sobre os arquétipos e o inconsciente coletivo da humanidade. Para Jung, os arquétipos atuam como “padrões de comportamento instintivo” e guiam a experiência humana, são uma fonte de símbolos psíquicos, da qual tiramos uma predisposição para reagir, agir e interagir de determinada forma. Assim, nas histórias que a humanidade conta desde suas origens, os arquétipos vão se repetindo ininterrumpidamente. 

Amplamente estudada e difundida desde sua aparição, a jornada do Herói parece irrefutável de tão maleável. 

In absentia

Uma das principais críticas ao modelo é sua falta de representatividade no que diz respeito à jornada das personagens femininas. 

“A Jornada do Herói é por vezes criticada por ser uma teoria masculina, engendrada pelos homens para impor seu domínio, e com pouca relevância em relação à jornada singular e bem diferente do sexo feminino. Pode haver algum viés masculino embutido na descrição do ciclo do Herói, já que muitos de seus teóricos eram homens, e admito abertamente: sou um homem e não consigo ver o mundo senão pelo filtro do meu gênero. Ainda assim, tentei levar em conta e explorar as maneiras em que a jornada da mulher difere da dos homens. Acredito que grande parte da jornada é igual para todos os seres humanos, visto que compartilhamos as mesmas realidades: nascimento, crescimento e declínio. Contudo, evidentemente, quando se trata de uma mulher isso impõe ciclos, ritmos, pressões e necessidades distintas” (VOGLER, 2006, p. 20). 

Parece uma postura bastante sensata, o leitor concordará comigo. Porém, esse mesmo autor deixa claro o machismo embutido em seu raciocínio quando, mais adiante, explica: “A necessidade masculina de sair e vencer obstáculos, realizar, conquistar e possuir pode ser substituída na jornada da mulher pelo empenho em preservar a família e a espécie, fazer um lar, dedicar-se às emoções, chegar a um acordo ou cultivar a beleza” (VOGLER, 2006, p. 16). 

Não parece essa frase uma outra maneira de dizer que a jornada da mulher é ser “Bela, recatada e ‘do lar'”, como foi descrita Marcela Temer, no perfil publicado pela revista Veja? Hoje, em pleno século XIX, uma jornalista escolhe apresentar a primeira dama ressaltando nela estas virtudes femininas que parecem extraídas de textos como “La perfecta casada” (1584), do fray Luis de León, ou “La instrucción de la mujer cristiana” (1528), de Juan Luis Vives, hoje tão carentes de sentido, por um lado, e ainda tão infeliz e assustadoramente vigentes nas nossas sociedades, por outro. 

Mas, se a história das mulheres evolui, como é possível que os modelos para contar nossas histórias não evoluam junto? Como é possível que, como diria De Oliveira (1991, p. 12), continuemos numa linguagem e num pensamento que nos pensa e nos descreve in absentia? Neste sentido, Maureen Murdock, autora de “The Heroine’s Journey” (1990, p. 56) defende: “Uma parte tão grande da verdade da mulher tem sido obscurecida pelos mitos patriarcais, novas formas, novos estilos e novas linguagens devem ser desenvolvidos pelas mulheres para expressar seu conhecimento”. 

Se nas histórias fundacionais da nossa civilização ocidental e patriarcal a divindade feminina foi apagada e relegada a papéis secundários (María, por exemplo), quando não vilanizados (que dizer de Eva, de Lilith?), como partir apenas delas para elaborar um modelo que se deseja único porém o suficientemente maleável para ser abrangente? Só se esse “único” quiser dizer, na verdade, masculino, e esse “abrangente” quiser dizer que o outro se mutila para que eu possa aceitá-lo.

Com a expansão do poderio das religiões judaico-cristãs, essencialmente patriarcais, — onde não existe a imagem arquetípica da mulher — ficamos órfãs de modelos de heroísmo feminino. Marie-Louis Von Franz, em “O feminino nos contos de fadas” (1995, p. 16), explica as consequências dessa orfandade:

“A mulher fica incerta quanto à sua própria essência: não sabe nem o que é, nem o que poderia ser. Só lhe restam duas soluções: regredir a um modelo de comportamento instintivo e agarrar-se a ele para resistir às pressões que sofre por parte da civilização, (…) ou identificar-se inteiramente a ele, tentando construir uma imagem masculina de si mesma para compensar a incerteza que sente interiormente quanto à sua natureza. É assim que encontramos ‘a esposa devotada’, ‘a perfeita dona de casa’ e ‘a mãe que sacrifica tudo pelos filhos’, o que é bastante meritório se a mulher não tiver perdido aí toda sua personalidade e não fizer com que seu familiares paguem as frustrações sofridas para realizarem tais proezas. Ou, inversamente, tentará assemelhar-se aos homens, pondo tudo de si em sua carreira, em sua ambição, etc., para isso sacrificando toda vida sentimental e individual” (VON FRANZ, 1995. p. 16).

Murdock chega à mesma conclusão quando diz: “As mulheres emularam a jornada heróica masculina porque não havia outras imagens para emular; uma mulher era ‘bem sucedida’ na cultura orientada para o masculino ou dominada e dependente como fêmea” (1990, p. 10).

Aceitamos o suposto caráter unisex e universal da proposta de Vogler como parte das inércias que nos permitimos, na ilusão de uma igualdade que, nos termos que é apresentada, é mutilante, porque consiste na masculinização da mulher sem que aconteça a feminização do homem. 

Mas, então, qual seria a jornada que essa Heroína desprovista de modelos femininos poderia executar? Não obstante a resposta esteja em construção e a produção teórica ao respeito ainda não tenha uma voz capaz de competir, em termos de popularidade, com o best seller do Vogler, existem duas autoras que chamam minha atenção pelo olhar tão diverso e, ao mesmo tempo, complementar, com que discutem a jornada arquetípica da Mulher.

Maureen Murdock e “The Heroine’s Journey”

Quando se quer fazer um livro contestatário como o que Murdock tinha em mente, é impensável não começar por estudar a fundo aqueles autores canônicos no assunto que estivermos tratando. Por isso, quando Murdock estava trabalhando em seu livro, uma das primeiras coisas que fez foi atrás do Joseph Campbell, interessada em conhecer seu ponto de vista.

“Eu me surpreendi quando ele respondeu que as mulheres não precisavam fazer a viagem. “Em toda a tradição mitológica a mulher está lá. Tudo que ela precisa fazer é perceber que ela é o lugar ao que as pessoas estão tentando chegar. Quando uma mulher percebe a maravilhosa personagem que ela é, ela não fica confusa com a noção de ser pseudo macho”. Essa resposta me aturdiu; a encontrei profundamente insatisfatória. As mulheres que eu conheço e com as que trabalho não querem estar lá, naquele lugar ao que as pessoas estão tentando chegar. Elas não querem encarnar Penélope, esperando pacientemente, infinitamente tecendo e destecendo. Elas não querem ser servas da cultura masculina dominante, prestando serviço aos deuses. Elas não querem seguir o conselho do pregador fundamentalista e voltar para casa. Elas precisam um novo modelo que entenda quem é e o que é uma mulher.” (MURDOCK, 1990. p 2).

Com uma aproximação mais desde o terapéutico, mas lançando mão de uma riquíssima compilação que recupera os mais diversos e remotos mitos com protagonismo feminino, Maureen Murdock publicou este texto em 1990. Sua proposta é repensar a busca que a mulher empreende durante sua vida e oferecer um modelo capaz de entender essa busca desde a experiência coletiva e individual que define o feminino. Embora não seja o objetivo principal da autora, tal modelo pode ser usado para auxiliar na criação de personagens.

A trajetória da Heroína de Murdock começa com a busca da Heroína pela sua identidade, quando, em um momento que se mostra desolador, o ser antigo parece não caber mais nela. Nesta etapa acontece uma separação ou rejeição do feminino (através da figura da mãe), que tem sido desenhado, culturalmente, como passivo, manipulador e improdutivo, em outras palavras: inferior. 

Segue uma identificação com o masculino (na relação com o pai), em que a Heroína procura validação e sucesso na cultura patriarcal, através de aliados e mentores nesse mundo (que funciona em torno do fazer e negligencia o ser), onde ela terá que enfrentar uma série interminável de desafios adictivos e extenuantes de conquista, dominação e produção. Encontrará um sucesso e colherá seus frutos, mas será um sucesso ilusório e temporário, pois nada do que ela faça será suficiente porque, mesmo tendo alcançado seu objetivo, o fato dela ser mulher fará com que ela sempre tenha que provar que merece esse lugar. 

A Heroína, eventualmente, despertará dessa ilusão para se descobrir morta espiritualmente: na jornada pela aprovação masculina, ela tem sacrificado sua essência. A Heroína sentirá a urgência de se reconectar com o poder feminino esquecido e terá que acarretar com todas as consequências que isso implica: “Quando uma mulher decide não seguir mais as regras patriarcais, ela fica sem guias que lhe digam como agir ou como sentir. Quando ela se resiste a perpetuar formas arcaicas, a vida vira empolgante — e aterrorizante” (MURDOCK, 1990, p. 8).

A etapa final é a integração do masculino e do feminino e a recuperação da nossa dualidade natural. Nela, a mulher pode valorizar e responder a suas próprias necessidades em plenitude e, uma vez em controle e em paz consigo mesma, contribuir para a satisfação às necessidades dos outros a seu redor. 

Kim Hudson e “The Virgin’s Promise”

Neste livro de 2009 a autora faz a seguinte provocação: Se o Herói representa apenas uma das faces do processo de individuação, será que é possível encaixar todas as histórias dentro da trajetória que ele descreve? Podemos realmente assegurar que todos os arquétipos coincidem na mesma estrutura? Hudson considera que não. 

Em sua proposta alternativa, ela sugere que cada uma dessas fases do ser (união consigo mesmo, união com o outro e união com o cosmos), é representada por arquétipos diferentes e pode gerar diferentes trajetórias padrões. A partir da análise de obras literárias e cinematográficas, Hudson traça o percurso do arquétipo da Virgem, que seria a contraparte feminina do Herói.

A Virgem começa sua história no Mundo Dependente, onde se vê impelida a suprimir seu verdadeiro ser. No começo ela tem medo de ir contra a vontade da comunidade e realizar seu próprio sonho, então paga o preço da conformidade, que é ser infeliz. Mas então ela tem a Oportunidade para brilhar, um momento que permite a ela revelar seu sonho, seu talento, ou sua verdadeira natureza. Ela reconhece seu sonho ao vestir-se para o papel, mesmo que seja temporalmente. 

Uma vez que a Virgem vê seu desejo como uma realidade tangível, ela cria um Mundo Secreto no qual ela possa realizá-lo. Encorajada por essa primeira experiência, a Virgem vai para trás e para a frente, alimentando seu sonho no Mundo Secreto, enquanto o reprime no Mundo Dependente. Eventualmente, ela não consegue se encaixar no Mundo Dependente e é pega brilhando, o que faz com que seu desejo fique ao descoberto. Nesta crise, a Virgem tem um momento de clareza e abandona o que tem aprisionado ela até agora. Isso deixa o reino em caos e à espera de que ela volte à conduta adequada. 

A Virgem vagueia no deserto tratando de decidir se ela vai se minimizar de novo para fazer as pessoas felizes ou vai escolher viver seu sonho. A Virgem decide seguir seu sonho e se apresenta ao mundo dependente tal como ela é: escolhe sua luz. Ela perde a proteção e isso resulta terrível, mas o reino se reorganiza a si mesmo para acomodar à Virgem florescida, se transformando num reino mais brilhante. 

Se com Murdock temos a insatisfatória resposta do Campbell, com Hudson temos uma aparentemente boa reação do Vogler, que acabou escrevendo o prólogo do livro e reconhecendo que a jornada do Herói é deficiente na medida em que tem uma polarização para o masculino. “O que eu encontrei nestas páginas foi uma reveladora re-escrita da história universal humana desde a perspectiva feminina com uma linguagem e um pensamento que eu nunca teria considerado” (VOGLER, 2009 apud HUDSON, 2009, p. XIII-XIV. Tradução própria). E que, pelo jeito, continua sem considerar. As reedições de “A jornada do escritor” posteriores à publicação de Hudson não incluem absolutamente nenhuma mudança de perspectiva no que respeita às personagens femininas. 

A heroicidade que nos pertence

Hudson reconhece o arquétipo do Herói/Heroína como sendo de natureza masculina e defende que o arquétipo da Virgem é a sua contraparte feminina — sendo que essa natureza é independente do gênero. Ela, em seus exemplos, não se baseia no sexo da personagem e sim no pólo ao qual ela se aproxima mais; se for o masculino, será um Herói/Heroína, e se a tendência for para o feminino, será uma Virgem/Príncipe. Nesse raciocínio, Hudson afirma, por exemplo, que Rocky, o popular lutador de boxe, é uma Virgem. 

Me pergunto se não vale a pena repensar o conceito de heroicidade, feminizá-lo como faz Murdock, em vez de dizer que ela é predominantemente masculina? A ideia não é tirar espaços ao feminino e sim recuperar aqueles dos que foi banido.

“É necessário redefinir herói e heroína em nossas vidas de hoje. A busca heróica não é pelo poder, pela conquista e a dominação; é uma busca para trazer balance para nossas vidas através do matrimônio dos aspectos feminino e masculino de nossa natureza. A heroína moderna tem que confrontar o medo de recuperar sua natureza feminina; seu poder pessoal; sua habilidade de sentir, curar, criar, mudar estruturas sociais e moldar seu futuro.” (MURDOCK, 1990, p. 129).

Os próprios substantivos “Virgem” ou “Princesa”, mesmo que tenham origens mitológicas e sejam os empregados por Jung, têm um peso gigante relacionado com o que se espera de uma mulher e, já que estamos tentando reescrever a nossa história, o ideal sería, me parece, cuidar também as palavras com as quais nós, mulheres, nos nomeamos. Neste sentido, descrever a trajetória feminina como a trajetória de uma Virgem (uma mulher que ainda não conhece o prazer), é altamente problemático e paradoxal. 

Num extremo oposto a Murdock, Hudson foge de qualquer ideia pela qual ela possa ser tildada de feminista. Pensando no mercado hollywoodiano em que seu livro pretendia circular, é compreensível que ela tivesse ressalvas. Sua reflexão, mesmo que caia no erro de Vogler de homogeneizar as experiências feminina e masculina, ao obviar séculos de apagamento e opressão, não deixa de oferecer caminhos interessantes para pensar a mulher na ficção. No que respeita à jornada em si, o trabalho de Hudson é libertador e de uma clareza invejável. 

Ambos trabalhos surgem de uma sensação de insatisfação com relação aos modelos existentes, todos de fonte masculina, nos quais identificaram incompatibilidades e insuficiências relacionadas à trajetória das personagens femininas. Murdock baseia sua reflexão nas mitologias e na psicologia jungiana, como Campbell, Hudson busca oferecer uma contraparte a Vogler e, nesse sentido, ambos compartilham a vocação manualística que levou “A jornada do escritor” à categoria de livro fundamental para quem se dedica à escrita. 

As histórias que nos contam

Se nos permitissemos um exercício de simplificação do arcabouço teórico de ambas autoras, veríamos como, em essência, a jornada de transformação da Virgem de Hudson e a da Heroína de Murdock têm muito em comum. As duas autoras percebem como a mulher, na realidade e na ficção, deve ser, não o que ela deseja, mas o que os outros esperam dela, para manter o seu entorno estável (família, casal, empresa, universidade), enquanto ela se mutila. 

Diferente do Herói masculino, convocado a proteger sua comunidade de uma ameaça externa numa jornada de auto-sacrifício e conquista, a ameaça que a Heroína/Virgem enfrenta está em seu próprio entorno, hostil para o desenvolvimento de sua verdadeira natureza ou desejo; sua jornada é na procura pelo autoconhecimento e realização;  sua luta, pelo direito a ser (que nos remete à vida interna) e não só a agir (que nos remete à vida externa).

Seja sob a figura da Heroína ou sob a da Virgem, na experiência coletiva das mulheres, nossas jornadas de transformação trazem caos e mudanças às nossas comunidades, que precisam ser “chacoalhadas” e mudar para melhor. Já a aventura do Herói traz estabilidade e segurança a seu entorno, que ele não precisa transformar, porque está feito a sua imagem e semelhança. 

As autoras também coincidem nas nefastas consequências que têm para a Heroína/Virgem não fazer a viagem. Hudson explica que os arquétipos têm um lado luminoso e outro escuro, e é o fato de realizar ou não nossa jornada de transformação que tendemos para um extremo ou para o outro. As personagens femininas que ficam no lado sombrio, seja por não executar a jornada ou por fracassar nela, são retratadas sob as figuras da mulher louca, da mulher depressiva e da mulher suicida, padrões que, com maior ou menor consciência, são frequentemente reforçados nos relatos.

Assim como somos fruto dos exemplos aos quais nos remetemos e dos ineditismos aos que nos aventuramos, somos, também, desde a expressão artística e acadêmica, responsáveis pela produção e a perpetuação de umas narrativas em favor de uma visão de mundo e em detrimento de outras. Na vida real e na ficcional escolhemos nossos objetos de mimese e essa é uma opção política. Nós, escritores, não estamos, de jeito nenhum, isentos de responsabilidade. 

A quantidade de personagens femininas que acabam em insanidade, depressão e suicídio é tão alta que virou clichê. Talvez seja mais fácil contar a mulher que não se atreve a desafiar seu entorno para levar a cabo sua viagem. Talvez seja, apenas, mais conveniente. Quem sabe continuamos contando essa história porque, privadas de modelos femininos aos quais emular, e presas numa cultura que, a paso muito lento estamos feminizando, crescemos com uma falta ontológica e arquetípica de bússola identitária.

Lá é longe, lá é depois, lá é incerto — nós estamos aqui

Para Hudson, para Murdock, e me atrevo a assegurar que para qualquer mulher que leia os textos delas, a experiência descrita é tão conhecida que parece, inclusive, óbvia. Mas a necessidade de criarmos esses outros modelos fica clara quando vemos que para os maiores nomes na área, aqueles que produziram os textos “fundacionais” dos estudos sobre o Herói, a trajetória da Heroína é uma zona nebulosa sobre a qual eles não tem se dado à tarefa de refletir em verdadeira profundidade. 

Custa acreditar que as mulheres realmente estejamos naquele “lá” ideal de que Campbell falava em sua resposta a Murdock. Estar já no destino quer dizer que devemos ficar estáticas porque o que estamos vivendo é tudo que o mundo tem para nos oferecer.  

Não será a postura do Campbell um eco desse olhar que tem a mulher como musa dos poetas, como figura conformada que precisa se preservar do jeito irreal que o patriarcado acha que ela é  — bela, casta, passiva, calada? Não é essa a postura que prevaleceu na Idade Média e no Renascimento e que significou o estabelecimento absoluto do ilusão da supremacia do masculino? Esse argumento não se parece demais com o conformismo que o catolicismo tem nos vendido, com direito ao estoicismo de oferecer a segunda bochecha para um novo soco, tudo sob a promessa da vida eterna? 

Não estamos “lá” porque estamos longe de ser tudo que podemos ser. Ainda são muitos os apagamentos, as opressões, as violências e os silenciamentos. Ainda muitos nos querem belas, recatadas e do lar.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

DE OLIVEIRA, Rosiska Darcy. Elogio da diferença. O feminino emergente. São Paulo: Brasiliense. 1991. 150 p.

CAMPBELL, Joseph. El héroe de las mil caras. México: Fondo de Cultura Económica, 1972. 241 p. 

DE LEÓN, Fray Luis. La perfecta casada. 1584. Disponível em: <http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/la-perfecta-casada–1/html/ffbbf57a-82b1-11df-acc7-002185ce6064_3.html&gt; Acesso em: 31/07/2017.

JUNG, Carl Gustav. Los arquetipos y el inconsciente colectivo. Buenos Aires: Paidós, 1988. 182 p.

HUDSON, Kim. The virgin’s promise: writing stories of feminine creative, spiritual, and sexual awakening. Los Angeles: Michael Wiese Productions, 2009. 192 p.

LINHARES, Juliana. Marcela Temer: bela, recatada e “do lar”. Revista Veja, 18 abr 2016. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/brasil/marcela-temer-bela-recatada-e-do-lar/&gt;. Acesso: 31/07/2017.

MURDOCK, Maureen. The Heroine’s Journey. Boulder: Shambhala, 1990. 204 p.

VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. 301 p.

VON FRANZ, Marie-Louise. O feminino nos contos de fadas. Rio de Janeiro: Vozes. 1995. 262 p.